Transportes

Carga aérea: mercado nacional estagnado

Carga aérea: mercado nacional estagnado

Em Portugal a carga aérea tem uma reduzida expressão, que reflete as características da economia, da balança comercial e da posição geográfica em relação à Península Ibérica e à Europa. A quebra económica em Angola e Moçambique, mercados históricos, também não ajuda. Com exceção do transporte expresso, o negócio mantém-se estagnado e não é de prever que a situação mude. 

A carga mundial cresceu 3,5% em 2016 face ao ano anterior, segundo a ACI – Airports Council International. O Médio Oriente e Ásia/Pacífico foram as duas regiões com maior crescimento (5,1% e 4,5% respetivamente), logo seguidas da Europa, que cresceu 4,1%, com 17,8 milhões de toneladas processadas.

Já em Portugal não há praticamente crescimento a registar na carga aérea, ao contrário do que tem acontecido com o tráfego de passageiros. Em 2016 a carga processada nos aeroportos da ANA esteve ao nível do volume de carga processada em 2012. Nos últimos cinco anos, o tráfego de carga no aeroporto de Lisboa, cresceu em média 0,5% e no Porto este crescimento foi de 0,6%. “O tráfego de carga aeroportuário em Portugal tem estado estagnado nos últimos anos, senão mesmo na última década”, assume Francisco Vieira Pita, Diretor de Marketing Aviação da ANA – Aeroportos de Portugal.

A carga aérea no aeroporto de Lisboa é predominantemente um negócio dentro do full service. Em 2016, por exemplo, 86% da carga foi transportada no porão de aeronaves de transporte de passageiros. Os mercados brasileiro e africano de carga têm beneficiado da vantagem competitiva da TAP nessas rotas, no entanto, o mercado africano tem vindo a perder significativamente quota de mercado. Por sua vez, o Médio Oriente tem vindo a ganhar expressão nos últimos anos com o início da operação da Emirates na ligação Lisboa/Dubai. “É interessante assistir ao crescimento deste fluxo de carga para o Dubai, dado que o seu aeroporto constitui um dos principais hubs no fluxo mundial de carga”, diz Francisco Vieira Pita. Em 2016 o Dubai foi o quinto aeroporto mundial em volume de carga processada.

O transporte aéreo de mercadorias intracomunitário sofre a forte concorrência modal do transporte rodoviário e a Europa é um mercado que também tem registado um decréscimo de volume de carga aérea em Lisboa. Por sua vez, no aeroporto do Porto a carga é um negócio dominado pelos integradores, a operarem 84% da carga do aeroporto e a servirem quase em exclusivo o mercado europeu.
A ANA não espera alterações muito significativas deste quadro. “Estamos fortemente dependentes da estrutura económica do país e a este nível não esperamos mudanças radicais que, no curto prazo, possam ter repercussões diretas nos fluxos de carga aérea. Ainda assim, é nosso objetivo trabalhar na melhoria da nossa competitividade para captar para os aeroportos fluxos adicionais, com a consciência que tal será sempre relativamente marginal”. Francisco Vieira Pita avança que só poderia haver alguma alteração mais profunda deste quadro se surgir algum projeto estruturante que venha a redirecionar fluxos internacionais de carga para Portugal. “Não deixaremos de estar atentos a eventuais oportunidades nesta matéria”.

Oferta excedentária

A liberalização do transporte aéreo e os acordos de open-skies trouxeram alterações significativas ao setor do transporte aéreo e potenciaram o aparecimento de novos modelos de negócio. Na carga aérea permitiu a crescente globalização da atividade, o crescimento à escala global de alguns players, nomeadamente as empresas de transporte expresso, e a especialização de algumas infraestruturas aeroportuárias. “O negócio da carga aérea tem vindo a reforçar-se como parte integrante da cadeia de valor multimodal e, cada vez menos, como apenas um subproduto das companhias aéreas”, diz Diretor de Marketing Aviação da ANA.

Carga aérea: mercado nacional estagnado

Lufthansa Cargo

O negócio de carga aérea é influenciado pelas tendências económicas, nomeadamente a globalização do comércio, o aumento da utilização de técnicas de logística avançada e o aumento das atividades de comércio eletrónico. Mas o comércio internacional é o grande driver do negócio da carga, e da carga aérea em particular. A carga aérea é, e sempre será, uma atividade vital no desenvolvimento do comércio internacional, na medida em que determinadas mercadorias, pela sua especificidade, não poderão abdicar da carga aérea para se deslocarem de um ponto A para um ponto B.

Os recentes anos de incerteza e fraco crescimento económico global tiveram efeitos imediatos na estagnação da atividade da carga aérea a nível mundial. O mercado mundial da carga aérea tem estado em fraco crescimento da procura e nos últimos oito anos cresceu a um ritmo médio de 1,5% ao ano apenas, de acordo com José Anjos, Diretor de Carga e Correio da TAP.

Por outro lado, nos últimos anos a oferta tem sido superior à procura, devido à introdução massiva no mercado de aeronaves mistas de passageiros com grande capacidade para carga, nomeadamente pelas companhias em crescimento do Médio Oriente.

O Country Manager Portugal da Lufthansa Cargo, Mário Coelho Ferreira, concorda que existe capacidade excedentária e que tal levanta muitos desafios: “A luta desenfreada entre os vários concorrentes ocasiona pressões sobre os yields e faz com que qualquer transporte seja discutido ao cêntimo”, diz.

A nível global, o ano de 2016 ainda teve um início fraco, mas no segundo semestre do ano assistiu-se a uma recuperação dos volumes globais de carga aérea. Esta tendência positiva tem-se mantido durante os primeiros meses de 2017. O futuro é incerto e Francisco Vieira Pita, da ANA, nota que que “existe neste momento um sério risco de estagnação do comércio mundial por via do crescimento de medidas protecionistas, o que lança um espectro de imprevisibilidade nesta matéria”.

Angola continua a penalizar negócio

Todas estas tendências globais afetam o negócio de carga aérea em Portugal. No entanto, o fator com maior influência é a realidade económica nacional, que condiciona o país a ter uma expressão reduzida no mercado mundial de carga aérea. “Portugal é um mercado com um potencial questionável, que não justifica a operação de aviões de tipo cargueiro, enquanto os voos de passageiros têm capacidade limitada”, diz Mário Coelho Ferreira. “Existe um ou outro operador que ajuda a suprir algumas necessidades mas, na maior parte dos casos, as cargas são transportadas em camião para “hubs” europeus para conectar para os destinos finais”.

Estando Portugal relativamente afastado do centro da Europa e dos hubs principais, este processo ocasiona algum atraso nos fluxos que se pretenderiam mais céleres e verdadeiramente de carga aérea. “Os yields praticados atualmente dificultam o investimento em soluções que poderiam aportar melhorias em termos de desenvolvimento de novas ligações e serviços complementares”, diz o Country Manager Portugal da Lufthansa Cargo.

O negócio de carga aérea em Portugal está ainda a ser penalizado pelo decréscimo de mercadorias para Angola. Para a Lufthansa Cargo, Angola continua, mesmo assim, a liderar o ranking de países de destino da carga aérea à partida de Portugal. Também o negócio da TAP-Cargo se tem ressentido da situação económica desfavorável de Angola e Moçambique mas, em compensação, o negócio para os EUA “está em crescimento atendendo à nova política de expansão da TAP para os destino da América do Norte”, diz José Anjos.

Para o Diretor de Marketing Aviação da ANA, independentemente do que os mercados ditarem em termos de perspetivas de crescimento, há uma tendência que marcará os próximos anos: a modernização do transporte de carga aérea com vista ao aumento da competitividade da indústria.  Este é um caminho que já está a ser seguido pelas companhias aéreas. “É inevitável que a indústria da carga aérea caminhe no sentido da cada vez maior simplificação e digitalização de processos, como forma de aumentar a sua eficiência e competitividade com outros modos de transporte e os aeroportos têm de acompanhar esta transformação”, avança Francisco Vieira Pita.

Terminais alvo de críticas

O Terminal de Carga no aeroporto de Lisboa, que entrou em funcionamento em 2009, tem capacidade para o processamento de 100 mil toneladas/ano, com possibilidade de expansão até 150 mil. Já o Terminal de Carga do aeroporto do Porto tem capacidade de processamento de 40 mil toneladas/ano. A capacidade de ambos os terminais “responde cabalmente à procura atual e expectável a curto-médio prazo da carga aérea”, diz o responsável da ANA. Na sua opinião, o desafio hoje não está tanto na capacidade física das infraestruturas, mas antes na necessidade de agilizar processos e procedimentos. “Existe um caminho a percorrer pelos vários atores e a ANA tem um papel a desempenhar. Estamos a preparar-nos e contamos, muito brevemente, apresentar algumas novidades”, avança.

José Anjos, da TAP Cargo, reconhece que os serviços melhoraram substancialmente em Lisboa desde 2009. “O novo projeto resolveu a maioria dos problemas a nível de espaço mas teve, ainda assim, vários erros de conceção, desde logo identificados no início, mas que nunca foram corrigidos”, acusa. Os maiores problemas encontram-se no descarregamento e carregamento de camiões, na falta de espaços adequados a transferência de frio positivo e na operacionalização da segurança, que depende do melhor entendimento entre as várias entidades/autoridades que fazem parte do processo.

Mário Coelho Ferreira, da Lufthansa Cargo, é mais crítico e defende que as infraestruturas disponíveis para o negócio da carga aérea continuam a não ter a atenção merecida. “Os   terminais de carga de Lisboa e Porto não passam de projetos bolorentos e obsoletos retirados de alguma gaveta à última hora para corresponder a alargamentos nas respetivas aerogares. O  pior destes espaços é os cais de aceitação e entrega, exíguos e sem plataformas elevatórias adequadas aos veículos que os utilizam para cargas e descargas”.

Na sua opinião, o melhor que existe nestes terminais são os recursos humanos: os funcionários das empresas de handling e os funcionários dos transitários que, “dia após dia, fazem face às limitações e conseguem dar escoamento ao serviço”. Na sua opinião, é graças ao voluntarismo dos funcionários dessas empresas que os problemas são minimizados e o tema não ganha maior escala.

Serviços aduaneiros elogiados

Mário Coelho Ferreira destaca a melhoria dos serviços da Autoridade Tributária dos aeroportos portugueses “pela forma aberta e profissional como se têm integrado na resolução de problemas existentes e pela mentalidade de mudança que é visível nos vários processos focalizados na digitalização e funcionando como um verdadeiro exemplo de como enfrentar o futuro”. Na sua opinião, neste momento os responsáveis da AT nos aeroportos de Lisboa e Porto estão sensibilizados e cooperantes com a implementação dos projetos eAWB e eFreight em Portugal.

Evento DHL Aeroporto Sa Carneiro Porto 23.05.12

Américo Fernandes, Diretor Geral da DHL Express Portugal, corrobora esta opinião. “A eficácia dos serviços aduaneiros é fundamental para que se possa prestar um bom serviço aos clientes. Temos encontrado, tanto em Lisboa como no Porto, e nos próprios serviços centrais, abertura e recetividade a propostas de melhoria dos processos, para permitir um acompanhamento da evolução da atividade e uma boa resposta aos novos desafios”.

No que respeita à qualidade dos terminais, a sua opinião é que os dois terminais oferecem realidades muito diferentes. “No Porto, o aeroporto oferece ótimas infraestruturas, nomeadamente uma área privilegiada para se construírem armazéns de acordo com as necessidades específicas de cada empresa. Em Lisboa, a realidade é muito diferente e as condições que existem não são as mais apropriadas, dificultando a operação diária. Os operadores necessitam de armazéns com melhores condições para exercerem a sua atividade, de melhores acessibilidades e, aqueles que têm um avião dedicado, de facilidades de acesso ao mesmo”, diz Américo Fernandes.

A DHL Express investiu cerca de 5 milhões de euros na construção de um terminal de carga expresso no aeroporto do Porto e planeia construir um novo terminal de carga expresso no aeroporto de Lisboa.