Logística

Frissul: crescer após aquisição

Frissul: crescer após aquisição

No início deste ano, a Frissul Transportes, Frissul Entrepostos Frigoríficos e a Frigomato foram adquiridas pelo grupo norte-americano Agro Merchants. Afonso Almeida, Managing Director, acredita nas oportunidades de crescimento: “Hoje temos por trás um grupo muito grande e especializado neste domínio e esperamos poder contar com a sua estrutura e capacidade para crescermos e reforçarmos a nossa posição no mercado português”.

Afonso Almeida, Managing Director da Frissul/Frigomato, encara com naturalidade e otimismo a aquisição das três empresas pela Agro Merchants. “As nossas empresas pertenciam há mais de oito anos a duas capitais de risco nacionais, a Inter-Risco e a Portugal Ventures. Visto sermos um player importante no mercado nacional é natural que tenha surgido interesse por parte de grupos importantes deste setor e que estes ativos fossem vendidos”.

O grupo Agro Merchants é ainda recente, iniciou atividade em 2013, mas tem tido uma estratégia de crescimento muito acentuada no setor das soluções logísticas e do armazenamento frigorífico. Hoje tem uma presença global, com empresas em diferentes estados dos EUA, Chile, Brasil e Austrália. Na Europa está presente na Holanda, Espanha, Irlanda, Áustria e agora Portugal. A multinacional dispõe de 60 unidades físicas, num espaço superior a 6,3 milhões de metros cúbicos, que equivale a mais de 400 mil posições-palete e mais de 750 mil m2.

O grupo está no Top 10 mundial e continua a crescer no setor da armazenagem, transportes e logística de frio, tanto na área de congelados como de refrigerados. Como explica Afonso Almeida, o crescimento vai dar-se quer nos países onde já está presente, quer noutros onde possam surgir boas oportunidades. As aquisições vão continuar a ser a principal estratégia de crescimento, pois é a forma de “crescer muito num curto espaço de tempo”, mas isso não significa que não exista também um crescimento orgânico nos mercados onde o Grupo está presente.

Nestas circunstâncias, a aquisição é vista como um passo “extremamente importante” que deixa Afonso Almeida e a sua equipa “satisfeitos”. O Managing Director da Frissul/Frigomato vê vantagens na força que o grupo tem nos serviços de logística ao redor da armazenagem e também nas oportunidades que podem surgir da especialização de algumas das empresas. Por exemplo, há unidades com uma grande especialização nos refrigerados e na fruta. Outras na área da congelação. Outras, como é o caso da Irlanda e agora de Portugal, têm uma grande atividade na área dos transportes, enquanto há unidades na Holanda e Irlanda especializadas no packaging e repacking.

“Integração toca todas as áreas”

A integração da Frissul numa multinacional que tem uma forma de trabalhar e de estar próprias vai implicar uma adaptação em muitos aspetos, desde logo nas áreas financeiras e de reporting. Mas “a integração toca todas as áreas”, reconhece Afonso Almeida, desde a parte comercial e de marketing, às áreas de TI, tecnologia, técnica, de manutenção e de projetos e à área de recursos humanos, com colegas especializados em áreas específicas, como seafood, carne ou frutas. “Eramos uma empresa 100% nacional e agora vamos estar inseridos num grupo multinacional, com tudo o que isso tem de positivo a nível de meios, por exemplo, de toda a network, rede de clientes e contactos no mundo inteiro. Em todas as áreas de montante a jusante temos já hoje um apoio e um suporte muito maiores”.

Afonso Almeida estima que a Frissul/Frigomato possa beneficiar com novos clientes que já trabalham com a Agro Merchants na Europa ou na América e que possam querer usufruir dos serviços prestados em Portugal. “Este é um mercado cada vez mais global e há multinacionais que podem ver como uma mais-valia terem um grupo que lhes forneça todos os serviços de logística numa grande extensão de países na Europa e noutros continentes”. Por exemplo, “os clientes das empresas que fazem parte do grupo em Espanha e que ainda não estão em Portugal poderão olhar para o mercado ibérico com maior interesse ao terem soluções logísticas completas nos dois países”.

Um dos setores onde a Frissul/Frigomato tem crescido muito nos últimos anos e onde existe uma oportunidade ainda maior com a integração no grupo Agro Merchants é os transportes internacionais. Este negócio desenvolveu-se muito nos últimos três anos, sobretudo como resposta às necessidades das empresas portuguesas que exportam produtos congelados e refrigerados, em camião completo e, cada vez mais, em grupagem. “Com esta integração vemos grandes oportunidades em poder consolidar e crescer neste domínio”, diz Afonso Almeida. Outra área que poderá ser reforçada no futuro é a contentorização, onde a Frissul/Frigomato já opera há vários anos nos mercados da importação e exportação.

Crescer nos transportes internacionais

Na Frissul/Frigomato o crescimento do transporte internacional foi de quase 30%, no ano passado, e este ano a expetativa é voltar a crescer 15% a 20%. Na área dos entrepostos frigoríficos o crescimento foi “ligeiro”, o que se explica pelas taxas de ocupação muito grandes, com meses em que é preciso procurar novos espaços para dar resposta aos picos da atividade. “Com as taxas de ocupação que temos, só com novas instalações podemos crescer de forma mais visível”, reconhece Afonso Almeida.

Atualmente a armazenagem, e tudo o que está associado ao processo de armazenagem, representa 55% a 60% da faturação da Frissul/Frigomato. Os transportes têm vindo a ganhar peso, graças ao crescimento dos transportes internacionais, e a tendência é que, nos próximos anos, representem metade da faturação global ou mesmo ultrapassassem os serviços de armazenagem. “Vai depender dos investimentos que se venham a fazer em termos de capacidade de armazenagem”, nota Afonso Almeida.

O crescimento global da Frissul/Frigomato este ano deverá ficar entre os 2% e os 5%, relativamente a uma faturação de cerca de 19 milhões de euros em 2016, mas “tudo vai depender dos novos projetos e é possível que venhamos a ter um crescimento acima do que tínhamos orçamentado antes da aquisição, nomeadamente nos transportes internacionais”.

Mercado continua em expansão

Há mais de 35 anos no mercado, a Frissul/Frigomato tem cerca de 400 clientes, empresas nacionais e estrangeiras que operam nos setores dos congelados e refrigerados em áreas como os gelados, carne, peixe, mariscos, panificação, vegetais, queijos, bolos, entre outros. “Somos muito abrangentes. Na área de congelados, por exemplo, fazemos logística de todo o tipo de produtos”.

Afonso Almeida, Managing Director da Agro Merchants

Afonso Almeida, Managing Director da Agro Merchants

A maioria dos clientes são PME nacionais, mas o grosso da faturação vem de clientes de média e grande dimensão, nacionais e internacionais. “Temos mais de 100 empresas que trabalham connosco na área da armazenagem, das quais mais de 90% também contratam transporte. Asseguramos o transporte para mais de 300 clientes. Recolhemos os produtos nas suas instalações, centralizamos nas nossas instalações em Lisboa e Porto e depois distribuímos para todo o território nacional e também para o mercado de exportação, em camião completo e grupagem”.

Afonso Almeida acredita que a Frissul/Frigomato vai continuar a crescer junto de clientes nacionais, mas sobretudo internacionais, por aproveitamento das sinergias com o grupo Agro Merchants. “Já temos alguns indícios nesse sentido”, diz.

A previsão de crescimento sustenta-se, antes de mais, no próprio crescimento do mercado de congelados, que gera necessidade de serviços logísticos de frio. Este mercado tem vindo sempre a crescer em Portugal, mesmo nos anos difíceis da crise económica em Portugal, a um ritmo bastante superior ao de outras áreas de negócio: “Existem mais empresas a operar no universo dos congelados e dos refrigerados, graças ao aparecimento de muitas PME em muitas áreas alimentares. Apareceram muitos produtos novos e a oferta disponível é hoje muito maior: a gama dos grandes retalhistas nos congelados tem mais de mil referências. Por outro lado, o acesso a produtos refrigerados e congelados tem aumentado com o maior número de players retalhistas e de lojas em todo o país. Ora, ao aumentar o consumo aumenta o número de paletes transportadas e armazenadas”, explica Afonso Almeida.

Na sua opinião, o crescimento do mercado vai manter-se, estimulado pelo consumo interno, pelo crescimento do turismo, que tem contribuído para o aumento das vendas de muitos produtos, e pelo mercado de exportação. Afonso Almeida vê potencial de crescimento nalgumas categorias de produtos que ainda não atingem os níveis do mercado europeu. No bacalhau congelado tem existido um grande crescimento, por exemplo.

“Estratégia não mudará muito”

A entrada do novo acionista poderá implicar novos investimentos, mas é algo a “analisar nos próximos meses”. Ainda no ano passado foi feito um investimento relevante: o aumento da capacidade das instalações do Carregado em quase 5 mil posições-palete. Atualmente, as instalações da Frissul/Frigomato no Carregado e as duas instalações em Aveleda e Aguda (Grande Porto) dispõem de mais de 303 mil m3 de capacidade de armazenagem, o equivalente a 57 mil posições-palete. “Em termos de armazenagem de congelados, somos líderes no mundo dos operadores logísticos de frio em Portugal”.

Afonso Almeida acredita que a estratégia da Frissul vai continuar a passar por “dar boas soluções aos clientes atuais e potenciais, reforçar os serviços que temos e fornecer outros serviços que eventualmente não tenhamos hoje”. É de esperar que se venha a desenvolver uma estratégia ibérica, através de um trabalho mais próximo com as duas novas “empresas-irmãs” localizadas em Barcelona e no porto de Algeciras. O responsável da Frissul/Frigomato acha também que haverá contacto com as outras empresas europeias do grupo e com as da América do Sul, podendo Portugal funcionar como “uma porta de entrada para o mercado europeu dos muitos produtos que são exportados de lá para a Europa”.

Quanto ao posicionamento da Frissul/Frigomato no mercado, Afonso Almeida considera que há “um antes e um depois da aquisição”. Até ao final de 2016 os fatores de diferenciação passavam por “trabalhar com boa qualidade, pelo grande empenho da equipa em prestar um bom serviço aos clientes, pela flexibilidade e disponibilidade para dar resposta aos imprevistos e urgências de última hora. Temos uma atitude para os clientes para que nos vejam como uma solução”, diz. A par, a empresa centrava os seus investimentos nas condições dadas à equipa e na atualização contínua dos equipamentos e sistemas. “Com a aquisição, temos a expetativa de continuar a crescer, não só em Portugal mas no mercado global, trabalhando com as empresas do grupo, que são muito fortes e têm muito know how, nalguns casos em setores que não trabalhamos”.

Ler artigo na íntegra na edição de maio/junho de 2017 da revista LOGÍSTICA & TRANSPORTES HOJE