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Índia: relações mais fortes e estreitas

Índia: relações mais fortes e estreitas

A visita de António Costa à Índia no início do ano foi um momento histórico de grande importância para ambos os países. Não apenas pelo valor simbólico, relacionado com as origens goesas do Primeiro-Ministro português, mas porque a visita constituiu “um prenúncio de relações mais fortes e estreitas entre as duas nações”, segundo Óscar de Sequeira Nazareth, Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Indo-Portuguesa. As relações comerciais ainda são residuais, mas têm muito potencial de crescimento.

As relações comerciais entre Portugal e a Índia são ainda residuais, mas têm vindo a crescer nas últimas décadas. Os dados mais recentes são também positivos. Nos primeiros oito meses do ano passado (os últimos fornecidos pela AICEP), as exportações portuguesas para a Índia cresceram 9,6% face a igual período do ano anterior. As importações também aumentaram 8,4%.

A posição do mercado indiano é modesta no contexto do comércio internacional português de bens e serviços. Em 2015, a quota da Índia foi de 0,15% enquanto cliente e de 0,64% como fornecedor, de acordo a AICEP. Depois de crescimentos em 2012 e 2013 nas exportações, houve um decréscimo em 2014 e 2015, ano em que as exportações portuguesas de bens e serviços para a Índia totalizaram 113 milhões de euros. A Índia tem maior importância como fornecedor do que como cliente de Portugal e as importações deste país chegaram aos 454,8 milhões de euros em 2015. Assim, o saldo da balança comercial é claramente desfavorável a Portugal: considerando apenas a troca de bens, a Índia é o 20º fornecedor de Portugal e o 48º cliente comercial.

No ano passado, 613 empresas portuguesas exportaram para a Índia. Os produtos mais exportados foram as máquinas e aparelhos (mais de um quinto do total), os metais comuns, minerais e minérios, plásticos e borracha e produtos químicos. Nas importações quase dois terços são matérias têxteis (30,3%), a que se seguem produtos agrícolas, metais comuns, produtos químicos e plásticos e borracha. A maioria dos produtos exportados estão classificados como de média-alta intensidade tecnológica, enquanto mais de metade dos produtos importados são de baixa intensidade tecnológica, segundo o GEE – Gabinete de Estratégia e Estudos.

Considerando apenas os serviços, quer as exportações quer as importações têm pouco significado, embora as exportações tenham vindo a crescer nos últimos anos (22% nos últimos cinco anos, totalizando 37,4 milhões de euros em 2015). Ainda assim, também nos serviços a balança comercial é desfavorável a Portugal (em 2015, as importações de serviços ficaram em 84,5 milhões de euros). No turismo, a Índia é um mercado emissor de turistas pouco relevante para Portugal, embora esteja a crescer. No ano passado o valor das receitas foi de 10,1 milhões de euros, o que representou 0,09% das receitas totais, segundo dados do Banco de Portugal.

Potencial inexplorado

A história das relações comerciais desenvolvidas nos últimos 25 anos entre Portugal e a Índia leva Óscar de Sequeira Nazareth a afirmar que existe “um potencial inexplorado muito mais vasto”. O Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Indo-Portuguesa (CCIIP) baseia a sua análise no grande potencial de crescimento da economia indiana, mas também na estratégia de crescimento definida para o país.

A economia indiana tem registado o maior crescimento no mundo nos últimos anos. A par, o consumidor indiano está cada vez mais informado e sofisticado e tem maior poder de compra do que há dez ou mesmo cinco anos atrás. “Não obstante certos desenvolvimentos económicos recentes, pensamos que este padrão tem tendência a continuar”, diz Óscar de Sequeira Nazareth. “Visto que o Governo quer apostar numa expansão económica como alternativa à austeridade, cremos que as relações comerciais Portugal-Índia apresentam ótimas oportunidades de desenvolvimento”.

O Presidente da CCIIP compara o mercado indiano ao brasileiro. Ambos apresentam muito potencial e uma população elevada, mas também muita burocracia e corrupção. Por comparação com o Brasil, a Índia apresenta a desvantagem de não ter uma língua ou cultura próximas. Mas quem consiga entrar com sucesso na Índia pode conseguir um retorno muito promissor.

Potencial nos agroalimentares

A Renault é um exemplo de sucesso. Em cinco anos conquistou 5% das vendas do mercado automóvel indiano. “A Renault estudou bem o mercado, a sua própria oferta, as preferências do consumidor indiano e a concorrência. Em vez de entrar no segmento de luxo apostou logo no setor mais competitivo do mundo, a classe A (pequenos automóveis), e ganhou um know-how que lhe permitirá oferecer automóveis similares em todo o mundo”, diz Óscar Nazareth.

Outro exemplo, mais próximo da realidade portuguesa, é o azeite espanhol. “Com pior qualidade que os azeites portugueses, já se estabeleceu como um padrão de qualidade para o consumidor indiano”, diz o presidente da CCIIP.

“Portugal tem condições para reforçar as suas exportações, apostando fortemente em produtos agroalimentares de qualidade como o vinho, os enchidos e o azeite”, defende. Outra oportunidade, na sua opinião, é a reexportação de produtos acabados, como artigos de moda e produtos de cerâmica portuguesa para a indústria de construção. Portugal pode ainda explorar o potencial de produtos de cortiça tratada como alternativa ao cabedal, visto a maioria dos indianos serem hindus.

 O presidente da CCIIP vê ainda potencial no investimento em joint-ventures de interesse mútuo, como a construção automóvel, energias renováveis, cadeias de frio, etc. Em termos de serviços, Portugal pode investir nas áreas de turismo, informática e pesquisa farmacêutica, entre outras, para manter ou melhorar a competitividade a nível mundial.

Oportunidades na logística

Na área do transporte e da logística existem excelentes oportunidades para a instalação de correntes de frio e sistemas de logística para produtos altamente perecíveis e/ou sensíveis ao calor, de acordo com o presidente da CCIIP. Estas cadeias logísticas de frio podem dar resposta às necessidades de transporte e armazenamento de produtos mais delicados, como por exemplo as flores, um negócio com potencial, visto que a Índia exporta em grandes quantidades.

Nas restantes áreas de negócio, as opções de transporte entre os dois países satisfazem as necessidades de ambos os países. “As grandes empresas de transporte e logística, como a DHL, FedEx, Hellmann, entre outras, já têm presença na Índia, o que facilita muito a vida das empresas portuguesas que já têm relações com as mesmas noutras partes do mundo”, afirma Óscar Nazareth.

Armando Oliveira, diretor do segmento aéreo e marítimo da KLOG, mostra-se satisfeito com as opções existentes em termos aéreos e marítimos, considerando que existe uma “relação qualidade / preço boa e competitiva” e que “a Índia é, atualmente, um mercado estável em valores de frete”.