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Bélgica e Luxemburgo: estabilidade e novas oportunidades

Bélgica e Luxemburgo: estabilidade e novas oportunidades

Portugal mantém com a Bélgica e o Luxemburgo relações comerciais estáveis. Há oportunidades para as empresas portugueses em vários setores, como a produção têxtil, os vinhos, a construção, a saúde ou as TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação. No Luxemburgo o chamado “mercado da saudade” continua relevante, para satisfazer a grande comunidade portuguesa que reside no país.

A Bélgica é uma das nações mais competitivas do globo. Está na 10ª posição europeia, e na 17ª a nível mundial, no Competitiveness Report 2016-2017, do World Economic Forum.

A localização central na União Europeia confere-lhe um posicionamento estratégico e é um dos principais fatores do seu sucesso no mercado global. Mas não é o único. A população multicultural de 11 milhões de habitantes, a abertura ao exterior, com uma economia altamente vocacionada para a exportação, e o facto de ser sede de um grande número de instituições europeias e internacionais são outros fatores de destaque, de acordo com Maria Manuel Branco, Diretora da AICEP em Bruxelas e responsável pela Bélgica e Luxemburgo. Igualmente relevante é a rede extremamente desenvolvida de infraestruturas de transportes e de telecomunicações, que conectam as suas três regiões.

As relações comerciais entre Portugal e a Bélgica são muito antigas, garante a Presidente da Câmara de Comércio Luso-Belga-Luxemburguesa (CCLBL), recordando a instalação em Portugal de muitas empresas belgas, especialmente durante o século passado. “Hoje há menos empresas belgas a deslocarem-se para Portugal e as relações comerciais entre os dois países passam sobretudo pela exportação de produtos portugueses para a Bélgica”, diz Maria Eduarda de Lemos Godinho.

A Bélgica ocupa atualmente o nono lugar como cliente das mercadorias exportadas por Portugal, tendo subido um lugar nos dois primeiros meses deste ano, e a sétima posição como fornecedor de Portugal, de acordo com dados da AICEP. Em 2017, o volume de negócios dos bens e serviços exportados para a Bélgica totalizou 2.166 milhões de euros. O grosso deste montante diz respeito a bens, num total de 1.280 milhões de euros.

As exportações de bens e serviços para a Bélgica tiveram um comportamento estável nos últimos cinco anos, com um crescimento médio de 3,1%. Já nos primeiros dois meses deste ano, as exportações cresceram 17% face ao período homólogo, tendo atingido os 380 milhões de euros. No mesmo período, as importações cresceram a um ritmo inferior, atingindo os 386 milhões de euros. Graças a esta situação, verificou-se um desagravamento do défice da balança comercial.

Oportunidades na Bélgica

Os principais bens exportados pelas empresas portuguesas para a Bélgica são produtos químicos e petroquímicos, máquinas e equipamentos, materiais de transporte e metais. “Estes produtos são reconhecidos pelo mercado belga e a sua relevância é incontestável, pois são os setores que têm liderado os primeiros lugares da lista de produtos exportados para a Bélgica”, diz Maria Manuel Branco.

Com maior detalhe, em 2016 os produtos químicos representaram 22% das exportações de Portugal para a Bélgica, o equipamento de transporte totalizou 13%, as máquinas e equipamentos 12,8%, os minerais 11,2% e os metais 6,6%. Nesse ano, o produto que mais cresceu face ao ano anterior foi o equipamento de transporte, com um aumento de 6%, num total de 43,8 mil milhões de euros.

Além dos setores tradicionalmente fortes, há outros onde existem oportunidades para as empresas portuguesas interessadas neste país. A responsável da AICEP destaca os setores têxtil, dos plásticos, a área alimentar, da saúde e TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação.  Por sua vez, a CCLBL identifica como setores fortes para as empresas portuguesas na Bélgica a produção têxtil, os vinhos e a construção.

A exportação de serviços por parte das empresas portuguesas para a Bélgica cresceu a uma taxa anual de 11% nos últimos 5 anos. São sobretudo viagens e turismo, serviços de transporte e outros, que representaram mais de 80% dos serviços exportados no ano passado. Neste domínio, Portugal apresenta um saldo positivo da balança comercial. Em 2017, os serviços exportados para a Bélgica valeram 907 milhões de euros, valor bem acima dos 594 milhões de euros registados em 2013.  Em janeiro e fevereiro deste ano as exportações de serviços totalizaram 120 milhões de euros e cresceram a um ritmo superior ao das importações, que valeram 72 milhões de euros, o que permitiu reforçar o saldo positivo da balança comercial de serviços.

Por outro lado, o interesse da Bélgica em Portugal faz-se sentir em particular nos setores de produção têxtil e, mais recentemente, no setor digital e ligado às novas tecnologias, como nota Maria Eduarda de Lemos Godinho.

Luxemburgo aposta na logística

A afinidade entre Portugal e o Luxemburgo está desde logo patente na grande comunidade portuguesa que reside no país: cerca de 16% da população estrangeira residente tem origem portuguesa. Este é um país multicultural, em que quase metade (47%) dos 576 mil habitantes são estrangeiros.

Bélgica e Luxemburgo: estabilidade e novas oportunidades

Apesar da sua pequena dimensão, o Luxemburgo tem uma localização geográfica estratégica, próximo de países-chave como França, Alemanha e Bélgica. Dispõe de vantagens fiscais que lhe concedem um especial interesse para o setor financeiro. “A praça financeira do Luxemburgo é reconhecida como o segundo maior centro mundial de fundos de investimento, a seguir aos EUA, bem como o principal centro da banca privada para os clientes internacionais na zona Euro. É ainda a principal plataforma europeia de negócios em moeda chinesa, para várias atividades”, diz a responsável da AICEP pela Bélgica e Luxemburgo.

O PIB luxemburguês deverá crescer 3,4% este ano, estima o EIU- Economist Intelligence Unit.   Em termos económicos, o Luxemburgo ocupou a 73ª posição do ranking do Banco Mundial, em 2016. É um dos países mais ricos do mundo, com uma economia estável e uma localização estratégica. Além disso, ocupa um lugar particularmente atrativo nos rankings de competitividade e de facilidade para a realização de negócios, tendo obtido o 19º lugar no Global Competitiveness Index 2017-2018 e o 63º lugar no Doing Business Report 2018.

O governo do Luxemburgo tem vindo a promover, na última década, a diversificação setorial, numa lógica de especialização. Atualmente são vários os setores de aposta da economia luxemburguesa, entre os quais o setor financeiro e de seguros, TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação, defesa, comércio grossista e retalhista, serviços de transportes, logística, saúde e nanotecnologias.

“Mercado da saudade”

O Luxemburgo foi o 70º exportador mundial de bens e o 68º importador em 2016, segundo a Organização Mundial do Comércio. No caso do nosso país, o Luxemburgo ocupou, no ano passado, a 47ª posição como cliente e a 52º como fornecedor. A balança comercial de bens e serviços entre os dois países é tradicionalmente favorável a Portugal, confirma a AICEP. No ano passado, Portugal exportou para o Luxemburgo o equivalente a 568 milhões de euros e importou 397 milhões de euros. Verificou-se um crescimento de cerca de 7% em ambos os fluxos, face ao ano anterior.

As exportações portuguesas para o Luxemburgo têm sido fortemente impulsionadas pela satisfação da grande comunidade portuguesa residente. A CCLBL refere como exemplo o setor do café, entre outros produtos ligados ao “mercado da saudade”. A AICEP confirma que as exportações portuguesas assentam em grande parte nos produtos tradicionais, como os produtos agroalimentares e os vinhos, muito impulsionados pela grande comunidade portuguesa e de luso-descendentes.

A responsável da AICEP pela Bélgica e Luxemburgo destaca, no entanto, que as exportações portuguesas englobam diferentes setores, onde se incluem a maquinaria e veículos de transporte, o turismo e a hotelaria, os materiais de construção, as energias e as TIC. “São igualmente setores com representatividade no conjunto das nossas vendas de bens e serviços para o Luxemburgo”, reforça Maria Manuel Branco.

No sentido contrário, a CCLBL identifica um interesse recente do Luxemburgo em Portugal, nomeadamente no setor aeronáutico e na procura de turismo.

Forte rede de transportes

Tanto a Bélgica como o Luxemburgo apresentam localizações privilegiadas, no centro da Europa, o que facilita fortemente as acessibilidades em termos de transportes. “A Bélgica encontra-se numa posição única, integrada no meio dos mercados de consumidores com mais poder, rodeada de universidades conceituadas e instituições de grande importância”, diz Maria Manuel Branco

O país dispõe de uma rede “extremamente desenvolvida de infraestruturas de transportes, no centro da Europa, tanto ao nível rodoviário, como aéreo e portuário”, confirma a AICEP. A cidade de Antuérpia acolhe o quinto maior porto mundial e o primeiro cluster químico europeu, enquanto em Bruges localiza-se o primeiro porto mundial em exportação e importação de automóveis novos.

Uma das áreas onde a região da Flandres se tem revelado extremamente desenvolvida é a logística, para além de outras, como a saúde, químicos, área digital, alimentar, sustentabilidade e agricultura.

Também o Luxemburgo tem uma rede rodoviária e aérea muito desenvolvida, em fronteira com economias de elevado interesse, como a Alemanha, Bélgica e França.

A perceção da Câmara de Comércio Luso-Belga-Luxemburguesa é similar: “Tenho muito boa apreciação da oferta de transporte e considero que as opções existentes em termos rodoviários, aéreos e marítimos são suficientes para dar resposta às necessidades”, diz Maria Eduarda de Lemos Godinho.

Já o Diretor Geral da ABC Cargo, Nelson Mendes alerta para uma situação “menos boa”, no que respeita à atual oferta de transporte rodoviário em Portugal. “Existe uma estratégia de luta de preços quase abaixo do custo de aquisição do serviço, ou seja, vivemos numa luta de quase dumping”, denuncia. Esta pressão a nível de preços não se faz sentir nos casos do transporte marítimo e aéreo. Nelson Mendes afirma que “não entramos numa guerra de preços e distinguimo-nos essencialmente pela qualidade do nosso serviço”.