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Entre a dependência das mercadorias e o crescimento dos cruzeiros

Os três portos do arquipélago da Madeira têm características únicas. Por um lado, as ilhas estão totalmente dependentes dos transportes marítimos de mercadorias para abastecer o mercado e permitir o desenvolvimento da economia regional. Por outro, tem uma localização privilegiada na rota dos cruzeiros, tendo crescido, cerca de 4% o número de escalas no começo deste ano. Situação que levou à ampliação do Porto do Funchal.

Num arquipélago que importa 80% do que consome é fácil perceber a importância dos transportes marítimos de mercadorias e de ter um (bom) porto. É o caso do Arquipélago da Madeira, que tem três portos associados. O do Funchal, dedicado a passageiros, nomeadamente os dos cruzeiros; o do Caniçal dedicado à importação/exportação de bens e ainda o do Porto Santo que, como refere Lígia Correia, presidente do Conselho de Administração da APRAM – empresa gestora das infraestruturas portuárias – dada a pequenez da ilha, tem um porto misto.

No caso da Madeira o peso dos portos não se esgota na importação/exportação de bens, algo fundamental para o desenvolvimento da economia da ilha. Afinal, como refere Lígia Correia, “numa ilha, se falhar o transporte marítimo, não há abastecimento”. Havendo apenas um porto (Caniçal) para a entrada e saída de mercadorias, este adquire uma importância primordial no bom desenvolvimento sócio económico da ilha. Tanto mais que 98% de 80% das importações chegam via transporte marítimo. No entanto, há uma boa notícia: “o movimento de mercadorias tem vindo a crescer nos últimos anos, traduzindo a retoma económica”, salienta Lígia Correia.

A extrema dependência do Porto de Lisboa – e dadas as dificuldades atravessadas, regularmente, pelo mesmo – isso poderia colocar em causa a prestação do Porto do Caniçal e, consequentemente, o abastecimento de bens às ilhas. No entanto, Lígia Correia afirma que, apesar de qualquer (in)estabilidade (do Porto de Lisboa) se reflita diretamente na economia, “têm sido sempre assegurados os chamados serviços mínimos, de forma a minorar os efeitos”. Aliás, a região não sofre do “eterno” problema de Lisboa – o recrutamento. “Que se saiba, a empresa de trabalho portuário não tem tido problemas no recrutamento de pessoal. Dispõe mesmo de uma bolsa de recursos humanos para o caso de ser necessário o reforço das equipas”, refere a presidente do Conselho de Administração da APRAM.

Negócio dos cruzeiros em alta
Se o transporte de mercadorias é essencial o de passageiros adquire especial importância, com o Porto do Funchal a ser considerado o segundo porto nacional (depois de Lisboa, embora já tenham, em tempos, alternado posições). Atualmente, o negócio (transporte de passageiros) representa, nas contas da APRAM, 42% das suas receitas próprias, o que significam cerca de 3,8 milhões de euros. No entanto, tão ou mais importante do que estes números (por si só) é o facto de contribuírem para a economia. “Os últimos estudos referem que há uma média de gastos por passageiro e tripulante de cruzeiro na ordem dos 48 euros e 67 euros, respetivamente. No total, é ‘derramado’ na economia um total de 38 milhões de euro”, afirma a presidente do Conselho de Administração da APRAM.

A localização da ilha torna-se especialmente apetecível na rota do Atlântico. A média anual ronda as 300 escalas anuais, o que se traduz em mais de 500 mil passageiros. No ano passado, fruto de diversos cancelamentos, quer devido ao mau tempo ou a alteração de rotas, o Porto do Funchal terminou 2018 a receber menos seis escalas. No entanto, isso não se traduziu numa queda acentuada no número de passageiros dado que os navios que atracaram na ilha foram de maior dimensão (logo, mais alojamento) e, por outro lado, porque isso levou a um aumento de seis escalas no porto de Porto Santo.

“Numa ilha, se falhar o transporte marítimo, não há abastecimento”

Quanto a este ano, segundo Lígia Correia, o arquipélago já recebeu, até maio, 146 escalas e um movimento de 313.113 passageiros a que se juntam 113.507 tripulantes. Feitas as contas, e comparando com igual período em 2018, isso significa um aumento de 4% em escalas e 17% no número de passageiros.

O aumento da importância do transporte de passageiros levou a projetos para ampliação do Porto do Funchal. Neste momento, está em fase inicial o seu prolongamento. Um investimento que passa pela colocação da Madeira na rota de navios de maior capacidade e comprimento. Adicionalmente, como refere Lígia Correia, “o aumento da Pontinha, como os madeirenses chamam ao cais sul do Porto do Funchal, vai permitir também a proteção da baixa da cidade do Funchal e a operacionalidade de um cais de cruzeiro que se encontra de momento, em mar aberto”.

O futuro passa…
Quando se pensa numa estratégia a longo prazo e nos desafios que os portos madeirenses atravessam é necessário, antes de mais, olhar para o passado e para o panorama nacional. No caso do transporte de passageiros convém ter a noção de que a Madeira (mais precisamente, o Porto do Funchal) faz parte do chamado “corredor Atlântico”. Na década de 90 o arquipélago fez uma parceria com os portos das Canárias. Algo que se traduziu, nos 20 anos em funcionamento, aumentar para quase o dobro o número de escalas e consequente aumento de passageiros transportados. Para se ter uma ideia, antes da parceria a Madeira recebia 174 escalas e 95 mil passageiros.

Por outro lado, a Madeira também faz parte, a par das Canárias e de Cabo Verde, da marca “Cruises in Atlantic Island”. O que hoje movimenta mais de dois milhões de turistas, sendo um dos principais destinos de cruzeiro de inverno. “É uma rota consolidada”, constata Lígia Correia. E depois convém não esquecer a ligação aos (outros) portos nacionais, fazendo parte do HUB de Lisboa. “Este HUB combinado com o de Canárias traz um aporte muito positivo à consolidação do movimento de cruzeiros dos nossos portos”.

A situação não é “tão feliz” no negócio do transporte de mercadores, fruto da total dependência dos portos nacionais, nomeadamente Lisboa, Porto Douro e Leixões. O que obriga a uma gestão criteriosa e à procura por uma diversificação na escolha dos portos usados para a importação dos bens.

Janela Única Logística
Uma das grandes evoluções no que concerne os transportes marítimos de mercadores prende-se com a implementação da Janela Única Logística – JUL, da qual a APRAM, com os seus três portos, pretende ser o primeiro projeto piloto em curso. A plataforma informática “que vai colocar os portos portugueses na liderança dos processos de digitalização portuária” está desde o dia 8 de abril em funcionamento na Madeira e implica que as escalas com ETA serão só e apenas lançadas nesta nova plataforma. O objetivo é, depois, alargar a plataforma a todos os portos nacionais.

A JUL é como que uma nova versão da JUP, a Janela Única Portuária, dado que vai para além desta. Abarca toda a cadeia logística, “integrando os meios de transporte terrestres e as ligações aos portos secos e plataformas logísticas, numa lógica intermodal”. O objetivo é um e só um: assegurar uma maior fluidez de informação e aumentar a eficiência dos portos portugueses e das respetivas cadeias logísticas, através da simplificação e desmaterialização dos procedimentos nos transportes no contexto nacional e transfronteiriço, bem como a redução de custos administrativos e dos tempos de trânsito das mercadorias.

Artigo publicado na edição nº141 da LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE