Transportes

Veículos comerciais: eletrificação chega em breve

Veículos comerciais: eletrificação chega em breve

As grandes tendências do setor automóvel são a eletrificação, a condução autónoma, os serviços de mobilidade e a conetividade. Em poucos anos, a eletrificação será uma realidade massificada nos comerciais ligeiros. Para tal contribuem as crescentes restrições à circulação de viaturas com motor diesel nos centros urbanos e a cada vez maior utilização urbana de veículos comerciais, impulsionada pelo aumento das compras online. As marcas estão a preparar-se para os novos desafios e as novas soluções não tardam em surgir.

O setor automóvel vive “tempos muito interessantes”, com as novas tecnologias a permitirem avançar para uma verdadeira revolução. Convidado a participar na 2ª Conferência L&TH, Ricardo Vieira, diretor geral da Volkswagen Comercial, considerou a eletrificação uma prioridade para os construtores. O objetivo é dar resposta à necessidade de redução de emissões de CO2: hoje um furgão de transporte de mercadorias tem um nível de emissões de 120 gramas de CO2, em 2021 será de 95 gramas. A massificação da eletrificação dos veículos é uma realidade muito próxima, na sua opinião.
“Daqui a quatro ou cinco anos teremos uma venda massificada de comerciais elétricos”. A maior barreira continua a ser a autonomia, mas é uma questão prestes a ser ultrapassada. Hoje os comerciais de mercadorias dispõem de uma autonomia de 200 a 300 quilómetros, em 2021 será o dobro e também vão duplicar a capacidade de carga. A resposta da Volkswagen nos comerciais elétricos é o furgão Crafter.

Sérgio Gonçalves, Commercial Vehicles Manager da Opel Portugal, aponta as vantagens de apostar nas motorizações híbridas e elétricas nos veículos comerciais. Por um lado, a crescente utilização urbana dos veículos comerciais mais compactos, na sequência do aumento das entregas ao domicílio, derivada dos novos hábitos de consumo, com as compras através da Internet. Por outro, os sinais de que as autoridades alargarão as restrições à circulação de viaturas com motor diesel nos centros urbanos. “Esse é mais um fator que promoverá a mudança de motores térmicos convencionais para configurações eletrificadas”, diz Sérgio Gonçalves. A Opel Portugal tem planos para se tornar “numa marca líder em baixas emissões de CO2” e nesses planos incluem-se as aplicações de motorizações com recurso a eletricidade. Os veículos comerciais fazem parte dos principais investimentos para o futuro da marca.
A eletrificação é “uma parte muito importante da I+D e dos investimentos da Ford Motor Company como um todo e, dentro dessa lógica, os veículos comerciais são preponderantes”, garante António Chicote, Diretor de Veículos Comerciais da Ford Ibéria. “Eletrificar a próxima geração dos nossos veículos é fundamental para o nosso compromisso com a sustentabilidade e com a oferta de veículos mais capazes, produtivos, económicos no que respeita a custos de utilização e muito mais limpos para o ambiente”. A Ford acabou de entregar a primeira frota da nova Transit Custom Híbrida Plug-in ao Município de Londres.

Construtores criam Ionity

Em paralelo com os investimentos na eletrificação dos veículos, o grande desafio está na criação de uma rede de pontos de carregamento. “Para alcançar este objetivo é preciso que todos, inclusivamente os governos locais, trabalhem no sentido de a implantar o mais rapidamente”, diz António Chicota. Os passos nesse sentido já foram dados e, em novembro passado foi criada uma joint-venture entre vários construtores, a Ionity, com o objetivo de implementar na Europa uma Rede de Carregamento de Alta Capacidade (CAC) para veículos elétricos. Até 2020 serão criadas 400 estações CAC, o que facilitará viagens de longa distância para veículos elétricos. Participam neste projeto a BMW Group, Daimler AG, Volkswagen Group e a Ford Motor Company.

Veículos comerciais: eletrificação chega em breve

Veículos comerciais: eletrificação chega em breve


No âmbito da sua estratégia eDrive@VANs, a Mercedes-Benz vai lançar uma gama de veículos comerciais ligeiros elétricos. O projeto terá início com o eVito, no segundo semestre de 2018. “O veículo de tamanho médio está configurado para o uso do centro urbano por empresas de entrega, comerciantes e prestadores de transporte público”, diz Mário Neves, Managing Director da Mercedes-Benz Vans. O novo e-Vito tem uma capacidade de bateria de 41,4 kWh, o que lhe dá uma autonomia de cerca de 150 km. Em condições desfavoráveis, como baixas temperaturas externas e com carga total, a autonomia é de 100 km no mínimo. A bateria pode ser totalmente carregada em cerca de seis horas. A velocidade máxima é de 80 a 120 km/horas e a capacidade de carga útil é de 1.073 kg. A instalação da bateria debaixo do veículo contribui para o uso de todo o espaço de carga. O peso máximo do veículo bruto é de 3.200 kg.
Depois do lançamento do e-Vito seguir-se-ão outros modelos elétricos, a partir de 2019: o novo Sprinter e o Citan. O objetivo é “criar uma estratégia que ofereça uma solução inovadora e integral no segmento B2B”, diz Mário Neves. Existe uma crescente necessidade de movimentação elétrica, especialmente no centro da cidade, e a Mercedes-Benz Vans planeia tornar elétricas todas as suas gamas de modelos comerciais ao longo dos próximos anos”.
Mário Neves destaca ainda a importância dos custos, para que os veículos elétricos possam afirmar-se como uma solução competitiva. “Se a criação de uma frota elétrica servir para competir em igualdade de condições com o clássico motor de combustão interna, será necessário ter em conta mais do que os parâmetros económicos certos, mas também o valor de compra e operação dos veículos”. Na sua opinião, tão importante quanto a perspetiva do custo total de propriedade é a integração de uma infraestrutura robusta, bem como um serviço abrangente e uma gestão de manutenção eficiente.

A caminho da condução autónoma

A condução autónoma é outra tendência e as várias marcas encontram-se em testes para garantir que num futuro próximo é possível ter veículos sem condutor. O Grupo Renault anunciou recentemente um sistema de controlo autónomo “capaz de lidar com desafiantes cenários de condução, como obstáculos inesperados na estrada, de forma tão eficaz quanto condutores profissionais”. Este desenvolvimento tecnológico complementa as tecnologias existentes da Renault de assistência à condução (ADAS) e segurança dos seus automóveis e é um importante passo no uso da condução autónoma para melhorar a segurança dos mesmos.
O projeto está a ser desenvolvido no âmbito do Renault Open Innovation Lab – Silicon Valley, focado em desenvolver a segurança e a tecnologia de condução autónoma e que deverá contribuir para o objetivo da Renault de se tornar “um dos primeiros construtores automóveis a disponibilizar uma larga oferta de tecnologia “Mind off” em automóveis de produção em massa e a disponibilizar uma frota de automóveis-robot”.  O objetivo é lançar mais de 15 modelos Renault com diferentes níveis de capacidade de condução autónoma até 2022.

Ricardo Vieira, da Volkswagen Comercial

Ricardo Vieira, da Volkswagen Comercial

“A mudança no setor resulta de diversas tendências económicas e sociais, nomeadamente a evolução do e-commerce, a crescente interconectividade inteligente das tecnologias e a cada vez maior difusão dos modelos de negócio baseados em plataformas, diz Mário Neves. A Mercedes-Benz vai investir cerca de 500 milhões de euros até 2020 em áreas como a integração de uma ampla gama de soluções de conectividade e de hardware nos veículos comerciais ligeiros e novos conceitos de mobilidade. A estratégia, denominada adVANce, visa permitir à empresa posicionar-se como “fornecedor de soluções integrais no transporte”, e foca-se em três campos de inovação. O primeiro é as aplicações de conectividade, que permitem integrar diversas tecnologias nas viaturas. Por exemplo, a Mercedes-Benz está a trabalhar em sistemas inteligentes de gestão de peças para veículos de serviço de assistência, que incluem processos de encomendas e reposição de stock automatizados e fornecimentos diretamente na viatura. Outra inovação é as soluções de hardware inovadoras, por exemplo sistemas automatizados no compartimento de carga de veículos de entregas que aceleram os processos de carga e descarga e aumentam a sua eficiência. Finalmente, estão a ser trabalhados novos conceitos inteligentes de mobilidade para mercadorias e pessoas.
Outra tendência relevante do setor é o decréscimo do segmento dos derivados de passageiros, compensado pela crescente procura por veículos do segmento B-ISV. Por outro lado, os segmentos C-ISV, 1 Tonelada e Pick-up crescem a ritmos impressionantes, nota António Chicote, da Ford Ibéria.

Negócio em alta

Nos primeiros dez meses do ano venderam-se 30.326 unidades de veículos comerciais, mais 11,6% que no período homólogo do ano anterior, de acordo com dados da ACAP – Associação do Comércio de Portugal. Depois da grande quebra de vendas que atingiu o setor automóvel nos anos da recessão económica, os últimos anos têm sido de crescimento acentuado. Desde 2012, o mercado mantém uma tendência de crescimento, ainda que venha a abrandar. “Este ano é esperado que se chegue aos valores de unidades vendidas que se registavam antes da crise, na ordem das 40 mil unidades vendidas”, de acordo com Ricardo Vieira, da Volkswagem Comercial. As marcas veem, enfim, a recuperação do negócio, depois de anos marcados não só pela quebra da procura, mas por “guerras de preços, que criaram sérios problemas nas margens unitárias e uma redução da rentabilidade histórica do negócio”. Este foi “um ano francamente positivo, o mercado cresceu e espera-se que as margens sejam um pouco melhores”, perspetiva o responsável da Volkswagen Comercial.
Até outubro de 2017, a Mercedes-Benz vendeu 1859 unidades e conta fechar o ano com 2300 unidades vendidas. Para 2018, a perspetiva é que o crescimento continue favorável. “O negócio de veículos comerciais ligeiros está diretamente ligado à performance económica. Sempre que existe uma variação positiva ou negativa, o mercado dos veículos comerciais ligeiros acompanha essa tendência”, nota Mário Neves.

António Chicote, Diretor de Veículos Comerciais da Ford Ibéria

António Chicote, Diretor de Veículos Comerciais da Ford Ibéria

A Opel Portugal vendeu, até outubro, 1581 unidades de veículos comerciais ligeiros, um aumento de vendas de 24,6%, “muito acima do mercado e em todos os segmentos em que estamos presentes”, segundo Sérgio Gonçalves. “Esperamos concluir o ano com um crescimento apreciável face às nossas vendas de comerciais do ano passado, o que corroborará o reforço da nossa aposta neste setor”.
No mesmo período, a Ford vendeu 2481 unidades de comerciais ligeiros, o que representa um crescimento de 14,3% face ao período homólogo do ano anterior. A marca acredita que vai fechar o ano com um crescimento de 20% e que em 2018 continuará “nesse caminho de sucesso”. Diz António Chicote: “Estamos a cimentar a nossa posição dentro dos vários segmentos e estamos francamente otimistas para o próximo ano. É notória a boa saúde económica do mercado, o ímpeto positivo que está a travessar neste momento, e tudo isto deve-se, claramente, à excelente recuperação dos últimos anos”.

Clientes querem custos baixos

Grande parte dos clientes de veículos comerciais ligeiros são pequenas e médias empresas, particulares e empresários em nome particular. A Ford Ibéria tem no setor do retalho e da distribuição “uma parte muito importante” dos seus clientes. Por sua vez, a Opel Portugal conta com “um bloco coeso e abrangente de clientes de todos os quadrantes” e está, juntamente com a sua rede de concessionários, a fazer uma aposta crescente na proximidade junto de PME.
Na decisão de escolha de veículos comerciais ligeiros pesam sobretudo fatores como “o consumo, fiabilidade, capacidade de carga, segurança, tecnologia de ponta, serviço após-venda eficaz, soluções de financiamento e de aluguer operacional”, aponta a Mercedes-Benz.
Sérgio Gonçalves, da Opel Portugal, diz que os utilizadores de veículos comerciais procuram “desde preços competitivos até baixos custos de utilização (ou TCO – Total Cost Ownership), passando por produtos fiáveis, soluções financeiras à medida e resposta rápida de serviços pós-venda”. Na sua opinião, o requisito mais importante para estes clientes é que “o veículo seja viável para o seu negócio em termos de capacidade de carga, volumetria, flexibilidade de carga e escritório móvel e que consiga fazer todo o seu trabalho diário com custos de utilização muito baixos”. Para isso, é preciso que o consumo de combustível seja muito reduzido e que os intervalos de manutenção programada sejam prolongados e acessíveis.