Logística

A Logística precisa de mindset colaborativo e de pensar fora do armazém-camião

A Logística precisa de mindset colaborativo e de pensar fora do armazém-camião

Para o professor da NOVA SBE a Logística deve pensar fora do binómio armazém-camião, isto é, “do produto tangível” e apostar também no “cliente como um produto”, trabalhando cadeias de pessoas e não apenas de produtos. José Crespo de Carvalho considera ainda que a Logística tem de ter uma “mentalidade colaborativa”, principalmente ao nível da Supply Chain. O setor ainda é fechado o que dificulta a relação com a Academia.

Quanto às condições das empresas, quais considera que são os principais problemas ou obstáculos que a área da logística irá enfrentar, no médio prazo, ou enfrenta já hoje? Quais as áreas que vão ter mais problemas?

Para aqueles que têm atividade no território português vai haver sempre um problema de escala, de dimensão do mercado. Como é que podemos ir buscar escala? Associarmo-nos para ir buscar escala? É uma questão quase inultrapassável e que nos deve fazer pensar muito bem se devemos ter um País com muitos setores, ser um País generalista (chamemos-lhe assim) ou se devíamos ser um País especializado…. um pequeno País com alguns recursos, mas especializado em determinadas áreas, nas quais favorecemos e damos melhores condições do que dão outros países.

Por exemplo…

No caso do cluster/indústria de calçado, que temos, muito boa, devemos pensar o que vamos fazer para incentivar ainda mais o crescimento dessas empresas em Portugal? Porque é por clusters que devemos pensar e não genericamente, se quisermos ter boas empresas. Somos um País pequeno, não conseguimos ser tudo para todos. Não conseguimos e vamos ter que tomar decisões, o que é uma coisa muito difícil em Portugal. Em vez de empurrar com a barriga, vamos ter de dizer: queremos privilegiar o calçado, o turismo, os vinhos… quatro ou cinco áreas. Isto custa, porque há eleições, mas é incontornável. Num mercado pequeno, sem recursos, há que fazer escolhas.

Outro grande desafio é integrar todos os elementos digitais na Cadeia de Abastecimento. Não há como não trabalhar com RFID, drones, impressoras 3D, inteligência artificial, check-outs automáticos de ponto de venda… Temos estado muito centrados no facto de a cadeia de abastecimento ter de ter produtos físicos, tangíveis, não é verdade: podemos ter cadeias de pessoas… uma pessoa, quando entra num aeroporto, faz um circuito com um bilhete, é avaliado numa alfândega, espera, entra no avião, etc., aqui o produto é o cliente. Há uma cadeia de abastecimento do próprio cliente. Ele é um recurso, mas entra na cadeia, entra no serviço e sai do serviço. E nós temos que levar, não só estes elementos digitais à cadeia física, como pensar outro tipo de cadeias… de pessoas, de workflow, de trabalho e não só de tangíveis, porque estamos muito focados – e isto é um mindset muito próprio –, mas temos de pensar ‘fora da caixa’, ou seja, por exemplo, a banca tem logística ou não tem? As pessoas dizem que não, mas eu acho que tem uma logística de clientes, no retalho, muito interessante. De entradas, de saídas, de horas, de marcações, de atendimentos, etc. É uma logística de clientes, como os Correios têm uma logística de clientes muito interessante. O que é que nós fazemos por isso? Pouco ou nada.

Todas as áreas de serviços, digamos assim

Os trabalhos que mais gosto de fazer agora e têm mais interesse são, precisamente, os que envolvam clientes, pessoas, que passam por experiências e que têm um circuito, um processo, uma lógica que não está a otimizada sob o ponto de vista do cliente… não só a do produto, mas a do cliente como cliente. Se nós, numa economia de serviços, temos que olhar aos produtos que chegam aos clientes, também temos que olhar ao cliente e à sua experiência.

Acho que há aqui um mundo enorme de potencial crescimento… é muito produto, produto, produto… e onde está o cliente? Se for a um hospital…. o cliente é rei no hospital! Devia ser, não é, mas devia ser.

Tudo isso está dentro da Logística…

Tem uma lógica de processo, de serviço, portanto, não há como não considerar isto como uma área apetecível e a trabalhar. Nas conferências e nos seminários, vejo os mercados internacionais a explorarem coisas interessantíssimas e depois cá continuamos a insistir no produto físico, no camião, no armazém… no armazém-camião, mas e a sala de espera num hospital não é um armazém de clientes?! E eu não posso estender isto de modo a que a rotação seja muito maior?! Posso! E não há filas de espera? E não há tempos de atendimento? Tudo como existe com produtos físicos? Então porque não aplicamos o raciocínio para outro tipo de coisas e continuamos agarrados ao produto físico?

Quais são as áreas, dentro da Logística, que têm mais potencial de desenvolvimento?

Há, seguramente, uma área muito, muito importante que é a das Tecnologias de Informação. Não só naquilo que acontece com o produto, tangível, mas naquilo tudo que acontece com o cliente, mais uma vez. Temos feito a ponte para os sistemas de informação, é verdade, mas ainda nos falta muito. Falta-nos integrar muitas coisas aqui, que não estão a ser trabalhadas, componentes que permitem uma série de informação, de fluidez no circuito, etc.

Portanto, acha que as áreas que terão mais desenvolvimento são as TI para a Logística e, no fundo, depois a aplicação da logística fora do armazém, do camião?

Fora do armazém, do camião, sem dúvida. A Logística tem muito a ver com colaboração, integração, processos, se há colaboração e integração entre várias entidades para beneficiarem um cliente, estamos a fazer logística. Se o cliente é o ‘produto’ – vamos imaginar que o cliente é o produto que viaja, numa companhia aérea, temos que lhe propiciar condições para que possa sentir-se satisfeito, não é? E, se nós utilizarmos as três variáveis-mãe da logística – tempo, custo e qualidade –, percebemos onde é que temos de mexer para satisfazer o cliente. É reduzir custo, é reduzir tempo de viagem ou de espera e proporcionar uma qualidade de serviço enorme.

 A Supply Chain é um assunto de que se fala cada vez mais nos últimos anos, qual é a sua visão para esta área a médio prazo? Quais considera serem os principais desafios?

O desafio maior da Supply Chain é a colaboração entre empresas dessa mesma cadeia. Quanto mais colaboração e estabilidade existir mais benefícios se conseguirão, não só para o último elo da cadeia mas também para todos os participantes.

O grande entrave acaba por ser aquilo de que temos estado a falar, seja para o ensino seja para os vários intervenientes, o grau de colaboração até onde sou capaz de chegar. Esta é uma questão que tem a ver com aspetos culturais, com a confiança e com o mindset: que pode ser de proteção, de território ou de abertura, de construção em conjunto. E a mudança para esta construção em conjunto em Portugal é sempre difícil devido à nossa cultura e mentalidade de querermos ter o nosso ‘quintal’.

Este conjunto de atividades a que chamamos Cadeia de Abastecimento no nosso país tem este problema de mindset colaborativo. O que é a colaboração? Até onde deve chegar a colaboração? Porque devo partilhar dados? Que dados posso partilhar? São interrogações que decorrem de um certo nível de desconfiança e de proteção que não nos deixa trabalhar em verdadeira colaboração e esse é um dos principais obstáculos.

A colaboração é assim fundamental para o bom funcionamento da cadeia…

Sim, a colaboração entre empresas… e há uma coisa que me faz um pouco de confusão: quando de criam prémios para o ‘Projeto de Logística’ acho que nunca se vai à procura de boas práticas colaborativas entre empresas. Se eu quisesse premiar alguém ia à procura de boas práticas em conjunto, não de empresas isoladas, esse é que me parece que são os projetos que nos faltam e que aparecem muito noutros mercados.

Colaboração é a palavra-chave…

Sim, colaboração e partilha… quando as pessoas dizem Logística Integrada (e eu digo isto muitas vezes aos meus alunos), a Logística já por si é integrada não seria necessário repetir, mas o integrar é um reforço daquilo que deve ser… o integrar é uma soma… somar vontades, é isso que é a Logística Integrada.

Leia a entrevista na íntegra na edição nº128 da revista LOGÍSTICA & TRANSPORTES HOJE