Transportes

Mercadorias rodoviárias: um setor em crescimento mas competitivo e em mudança

mercadorias rodoviárias - Logística e Transportes Hoje

Os operadores com quem falámos para este dossier concordam que o setor está a crescer, embora moderadamente, esperam que essa progressão se mantenha e adiantam alguns problemas – contexto económico, custos de combustível, excesso de operadores, pressão sobre os preços, etc. – e desafios – transporte intermodal, e-commerce, tecnologia, preocupações ambientais, entre outros. “Este é um setor estratégico para o conjunto da atividade económica, a sua prestação influencia a competitividade do tecido empresarial português, e do País como um todo”, lembra o diretor-geral de transportes da Luís Simões.

A LOGÍSTICA & TRANSPORTE HOJE foi falar com vários operadores para saber como está o setor, quais os principais problemas e desafios que enfrenta e qual a evolução esperada.

No seguimento da afirmação que destacamos na entrada, Manuel Valentim adianta: “cabe-nos cumprir a nossa missão, assegurar que os consumidores dispõem dos bens que precisam, no local, hora e quantidade que necessitam, ao menor custo possível”.

Mas essa missão não tem sido fácil, “no caso português, e analisando as categorias de bens que compõem a nossa balança comercial, percebemos a importância que a componente custo tem na eficiência logística. Como esta atividade está ligada ao ciclo económico, ao nível dos mercados internos a forte retração que se verificou nos consumos dos últimos anos, a par da quebra de preços dos produtos e serviços, resultou numa maior pressão em toda a cadeia, nomeadamente ao nível dos FMCG (Fast Moving Consuming Goods).

Em contrapartida, refere o diretor-geral de transportes da Luís Simões, “a aposta das empresas na internacionalização, com o crescimento das exportações (em contra ciclo com as importações) trouxe maior desequilíbrio nos fluxos – menos recursos disponíveis, em virtude do aumento dos tempos de trânsito em round-trip, pela saída de operadores do mercado ibérico e a redução da quantidade de veículos de operadores do norte da Europa a entrar na Península Ibérica”.

Transporte rodoviário cresceu o dobro em 2016

Já o responsável das Áreas de RH e Qualidade da Santos e Vale recorre ao relatório sectorial da DBK, para informar que “o volume de negócios das empresas portuguesas de transporte rodoviário de mercadorias deverá crescer no ano de 2016 1,5%, praticamente o dobro do verificado em 2015. No ano passado (2015), as transportadoras lusas realizaram um volume de negócios de 2,67 mil milhões de euros, valor que representou um aumento homólogo de 0,8%. A puxar pelos números o transporte internacional cresceu 1,1% e atingiu os 1,35 mil milhões de euros”.

No mesmo relatório, a previsão da DBK para as operadoras nacionais este ano é de um crescimento de 1,5% no volume de negócios global, favorecido pela recuperação da economia nacional e das exportações.

Este estudo sectorial da consultora DBK abrange o mercado ibérico do transporte rodoviário de mercadorias, o que permite algumas comparações com o país vizinho. Portugal perde no crescimento, mas ganha na dimensão média da frota (3,3 veículos por empresa do lado de cá, 3,08 do lado de lá da fronteira) e na concentração do setor. As cinco maiores empresas em Portugal controlam 17,2% do mercado e as dez maiores chegam aos 25,9%, enquanto em Espanha os mesmos grupos detêm 11,3% e 18,2% do mercado em valor.

Hélio Ferreira considera que as principais que “competidores que pressionam tarifas em baixa para justificarem o seu défice de qualidade/estruturas pouco fiáveis; elevado custo combustível; e elevada sinistralidade rodoviária” são as principais ameaças ao setor, enquanto “mais outsourcing; reconhecimento das organizações mais ágeis e melhor estruturadas, que permanecem no mercado e atraem novos clientes por serem mais competitivas; dispersão dos centros logísticos de recolha; e o facto de a implementação de negócios a nível Ibérico ser flexível e poder ser alinhada com os requisitos de cada cliente” são os principais desafios a enfrentar.

Contexto volátil e imprevisível

Manuel Valentim da Luís Simões frisa que “ainda que a conjuntura económica e social evidencie sinais de recuperação, o contexto em que as empresas modernas operam tornou-se altamente volátil e imprevisível a longo prazo”, “posto isto, o nosso principal foco está na eficiência operacional e produtividade, com base numa proposta de agregar valor à cadeia de abastecimento”.

O responsável salienta que “nos últimos anos as empresas tiveram que se adaptar e reforçar o seu traço competitivo”, dando o exemplo da sua empresa, adianta: “para nos mantermos competitivos, apostamos seriamente em serviços inovadores e olhamos para as melhores práticas globais como metas a atingir. Paralelamente temos investido fortemente no e-commerce e onde temos vindo a consolidar a nossa posição, especialmente no segmento FMCG (Fast Moving Consumer Goods)”. E defende que “a quantidade de cadeias de distribuição em Portugal e a respetiva dispersão geográfica constituem outra oportunidade para o setor de logística e transportes, até pelo papel cada vez mais estruturante que assume na nossa economia”.

Falando também da instabilidade, o general manager da Greenyard Logistics (ex-Univeg) afirma que “as tendências recentes levam-nos a acreditar que no futuro poderão existir muito mais barreiras ao comércio internacional. Embora essa tendência ainda não seja visível ao nível dos fluxos atuais, acreditamos que essa é uma ameaça real”, mas, adianta: “a intervenção das empresas de logística e transporte neste domínio é muito limitada”, porque “todas estas alterações à realidade política mundial [Brexit, terrorismo, etc.] têm sido o reflexo da vontade dos cidadãos e por essa via, impossíveis de contrariar. Às empresas cabe estarem atentas aos possíveis efeitos desta nova realidade e adaptar o seu negócio à mesma”.

Mas Vitor Figueiredo salienta que “de todas as mudanças referidas, o terrorismo é talvez aquela em que a responsabilidade/capacidade de intervenção das empresas de logística e transporte pode, porventura, ser mais significativa, principalmente pela segurança e controlo sobre os fluxos que estão sob a sua responsabilidade. Este é um fator especialmente sensível para os operadores/transportadores de produtos alimentares perecíveis”, e defende que “cabe aos operadores adotar procedimentos que garantam total segurança dos produtos que estão a seu cargo face a contaminações sejam elas involuntárias ou intencionais, daí a importâncias de certificação pelos referenciais mais exigentes, como a IFS Logistics, por exemplo”.

O futuro está no intermodal

O diretor-geral de transportes da Luís Simões salienta que “a distribuição moderna exige cada vez mais e melhores soluções logísticas em prol da eficiência. Nestes moldes, o crescimento das empresas prende-se com a capacidade de desenvolver e implementar um serviço integrado, pois o aumento das exportações exige maior flexibilidade dos processos de logística e transporte”, assim Manuel Valentim, defende que “nestas circunstâncias, uma rede de transportes ampla e que ofereça soluções complementares, nomeadamente ferroviárias e marítimas, consiste numa vantagem estratégica para o crescimento”.

O responsável adianta que “as estimativas preveem que, na próxima década, o transporte rodoviário aumente em cerca de 20% na Europa, o que resultará num cenário de congestionamento das principais vias rodoviárias, pois não se antevê o crescimento similar ao nível de infraestruturas. Daqui decorre a urgência do desenvolvimento de alternativas que aumentem a eficiência do transporte”. E acrescenta que “neste âmbito, vemos o transporte intermodal como uma tendência crescente no futuro do mercado logístico e, por conseguinte, uma forma das operadoras contornarem as dificuldades operacionais, consolidando o seu posicionamento no mercado, através de uma ampla oferta de serviços complementares que se torna possível dadas as caraterísticas geográficas de Portugal”.

O desafio do e-commerce

Manuel Valentim lembra que “a juntar a este cenário, temos um aspeto fundamental: a tecnologia deixou de ser um critério distintivo em detrimento da forma como é aplicada. Assim, cumpre a cada empresa formular soluções inovadoras adequadas às necessidades dos seus clientes, criando uma proposta de valor”. E dá exemplos: “neste momento já se assiste à criação e desenvolvimento de ferramentas que permitam um acompanhamento online por parte das equipas comerciais, operacionais e clientes vem reforçar a aposta estratégica na área do e-commerce. Assim, os operadores logísticos adquirem maior autonomia na gestão de mercadorias e reduzem a sua carga administrativa, sendo possível receber apoio na concretização de negócios no ponto de venda”.

Para o business development manager da UPS Portugal o maior desafio é “um desafio que é uma realidade global e não só para Portugal. Falo do e-commerce, que cresce cada vez mais e que tem cada vez mais iniciativas e mais empresários criativos a aproveitar este recurso em expansão”. Carlos Pinheiro considera que “é um setor que nos traz desafios novos todos os dias e uma das áreas em que Portugal terá uma palavra a dizer. Já existem casos relevantes a nível global e no nosso país também. Será uma das áreas que criará crescimento e trará desafios nos próximos anos”.

Pressão nos preços

Já João Bernardo Carriço, CEO da Adicional Logistics, defende que “o mercado português tem excesso de operadores com os maiores players a pressionarem o preço para resolver os seus problemas de rentabilidade com aumento de volume. Esta estratégia não tem futuro, destrói valor ao mercado e não potencia a qualidade do serviço” e considera que os principais desafios são a “melhoria do serviço, com maior rapidez de entrega e maiores níveis de informação a destinatários e a clientes com preços cada vez mais competitivos e pressão do lado dos custos”.

Também o diretor-geral da cityMover, Pedro Silva, refere que o maior problema é “a concorrência desleal”, acrescentando que “a cityMover é uma empresa certificada ISO9001:2015, tem alvarás para transporte rodoviário de mercadorias (nacional e internacional) e de transitário. Atua sempre de acordo com o que é exigido por lei e procura melhorar continuamente os seus serviços aos clientes, com os custos naturalmente associados. Há no entanto muitas empresas neste ramo que não cumprem estes requisitos, o que lhes permite praticar preços por vezes abaixo dos nossos preços de custo. Falta de alvará para execução dos serviços, mão obra ilegal, ausência de seguros etc. e do cumprimento das leis em vigor”.

Para Pedro Silva os principais desafios são “conseguir ser competitivo no nosso ramo de atividade cumprindo as exigências legais do mercado e mantendo os níveis de serviço e qualidade que consideramos fundamentais”.

Autarquias podem ajudar a melhorar distribuição urbana

Um ponto focado tanto pela Adicional, como pela cityMover, mas também pela Greenyard Logistics e pela ID Logistics é o papel que as autarquias podem desempenhar na melhoria do serviço de distribuição urbana.

Vitor Figueiredo, general manager Greenyard Logistics, lembra que “temos vindo a assistir a uma crescente vontade das autarquias de redução do tráfego nas zonas mais movimentadas. Ouve-se muitas vezes o argumento de ‘devolver a cidade aos habitantes’ e por essa via estão a fazer-se obras com alterações de fundo a essas áreas. Infelizmente cremos que algumas dessas obras são planeadas tendo por base apenas o lazer e esquecendo a funcionalidade”. E defende: “quando as obras são feitas sem ter em consideração a necessidade de tornar o abastecimento mais fácil, corre-se o sério risco de vir a afastar pessoas dessas zonas em vez de as atrair. Sendo assim, consideramos importante sensibilizar as autarquias para a necessidade de pensarem as suas obras e políticas de acessos tendo também em consideração o transporte”.

Igualmente Pedro Silva diz à LOGÍSTICA & TRANSPORTES HOJE que “este é um ponto crítico na nossa atividade. Recentemente (há cerca de um ano) a Câmara Municipal de Lisboa, município onde se concentra a maior parte dos nossos serviços, reforçou e vincou a legislação sobre a obrigatoriedade de se pedir uma licença para efetuar cargas e descargas com utilização na via pública”, e o diretor-geral da cityMover explica: “cada licença deve ser pedida com sete dias uteis de antecedência e custa aproximadamente 100,00€. A esta estará associado o serviço de gratificado da polícia que deve ser pedido com dois dias úteis de antecedência após emissão da licença (e também com custos), no caso de haver necessidade de ocupação de faixa de circulação ou haja algum tipo de condicionamento de trânsito”.

O responsável adianta ainda que “se aliarmos a isto, todas as obras e intervenções nas cidades, que tendencialmente têm diminuído faixas de rodagem e em certos casos diminuído zonas de estacionamento (veja-se o exemplo do bairro de Campo de Ourique), temos a combinação perfeita para que seja o cliente final a pagar ‘impostos’ extra para poder ser servido pelas empresas de transportes que cumprem com a legislação”.

Pedro Silva lembra também que “no caso das distribuidoras que apenas precisam de uns minutos para fazer entregas rápidas e seguir a rota, isto poderá não ter impacto. No nosso caso, para fazer uma mudança que pode ser de quatro horas como pode ser de dois ou três dias como já aconteceu, isto tem um grande impacto. É mais um desafio às empresas que fazem transportes e serviços de logística nas cidades”.

Para a ID Logistics, que detém a Logiters em Portugal, “seria interessante ter uma política de distribuição, especialmente para períodos noturnos. Também seria apropriado rever as autorizações de aberturas de espaços comerciais, para que se criem condições de descarga nos principais centros”. O grupo adianta que “outra possibilidade é o desenvolvimento de modelos de logística urbana, com infraestruturas de apoio perto de grandes centros urbanos e em torno das cidades, para uma melhor conexão da rede capilar e acesso aos pontos de venda”, indica Paulo Mendes, Country Manager Portugal.

Uma opção que João Carriço diz que a Adicional já tomou. É “importante reforçar pontos de apoio de proximidade às populações, na Adicional acabámos de abrir um novo espaço de 8.000 m2 ao lado do aeroporto de Lisboa, complementando estes pontos com distribuição em veículos menos poluentes e elétricos e com alternativas ainda mais capilares como é o caso da nossa rede de 450 carteiros em Portugal que entregam 2,5 milhões de cartas por mês e começa também a distribuir pequenas encomendas”.

Responsabilidade ambiental

Ao falar de veículos menos poluentes levanta-se a questão da responsabilidade ambiental, cada vez mais importante no setor. A ID Logistics refere que “há uma preocupação clara e crescente com as políticas ambientais, que cada vez mais têm um maior impacto. As empresas optam por utilizar meios que respeitam o meio ambiente e de desenvolvimento sustentável no negócio”. O grupo considera também que está a ter lugar “uma mudança progressiva no modelo de negócio no transporte, graças à incorporação de novas tecnologias, bem como vendas e modelos de distribuição dos nossos clientes, com base em plataformas omnicanal”.

Também Carlos Pinheiro, da UPS, afirma que “num esforço contínuo pela sustentabilidade, a UPS tem estado altamente concentrada na redução do seu impacto negativo no ambiente, bem como na promoção da literacia económica e global, eficácia, diversidade e segurança nas comunidades”, assim: “temos programas específicos a decorrer que geram resultados operacionais e ambientais que incluem a implantação de uma frota de veículos de combustível alternativo. E a UPS tem uma das maiores e mais diversas frotas de todo o setor do transporte com mais de 7.700 veículos a combustível alternativo a nível mundial. Além de programas de conservação de diesel e energia, iniciativas de serviço aéreo no solo e no ar, consolidação de remessas e programas de compromisso de funcionários”.

Tecnologia ao serviço do setor

O diretor-geral de transportes da Luís Simões considera que “vivemos um período de fortíssimo incremento de inovações tecnológicas nos meios industriais, nos serviços, nos transportes”. E muitas destas inovações vão precisamente no sentido da sistentabilidade ambiental, “é o caso do veículo Gigaliner, que representa o primeiro passo para o desenvolvimento de um transporte ambientalmente mais sustentável. Esta é uma solução que permite transportar mais de 50% de carga por veículo em comparação com um conjunto articulado convencional de 40 toneladas de peso”.

“É também a forma como o e-commerce veio revolucionar os mercados e tornou-se numa das principais tendências para soluções no setor, com um peso cada vez maior na logística e no aumento das vendas nas empresas”, diz Manuel Valentim. “Neste sentido, é possível desenvolver um sistema de rede integrada, realizando de forma eficiente o fluxo das matérias desde o fornecedor até ao consumidor final e oferecer novas soluções à medida de cada cliente. Ao criar uma plataforma como o e-commerce é possível acompanhar todas as fases do pedido, desde a preparação das encomendas até ao momento de entrega”.

Sobre as opções de GNL e GNC, Vitor Figueiredo, da Grreenyard Logistics, afirma que “têm efetivamente existido avanços no domínio dos combustíveis alternativos. Em relação a GNL e GNC, acreditamos que ainda vai ser necessário deixar passar algum tempo até que, principalmente os fabricantes elejam determinada tecnologia como a mais viável. Principalmente em veículos de maior dimensão, acreditamos que é uma questão de tempo até que o diesel venha a perder o protagonismo que tem atualmente, mas não estamos certos que a tecnologia que o vais substituir já esteja perfeitamente disponível, já que as soluções atuais ainda têm problemas significativos a resolver (disponibilidade para abastecimento, tempo de abastecimento e autonomia)”.

Mas, o responsável considera que “em relação a veículos de menor dimensão, nomeadamente para distribuição urbana, acreditamos que a eletricidade vai efetivamente substituir o diesel rapidamente. Também aqui é necessário resolver os mesmos problemas já referidos, mas no entanto, a evolução recente tem sido muito rápida e acreditamos por isso que seja uma questão de tempo até que este tipo de veículos seja maioritariamente elétricos”.

Ao nível da tecnologia, a ID Logistics acredita que “terão um papel importante as plataformas de gestão de fluxos que podem minimizar as rotas em vazio, principalmente as transnacionais. O crescente uso de plataformas intermodais, juntamente com a utilização de novas tecnologias, permite definitivamente uma melhoria na eficiência de fluxos e de distribuição de transporte”. A empresa diz ainda que “ao mesmo tempo, o aumento do uso de plataformas multicanal na procura irá promover o uso de sistemas integrados de gestão de processos de transporte e o desenvolvimento de estratégias de cooperação que promovam as economias de escala necessárias para garantir a eficiência do processo. Finalmente, a médio / longo prazo, os veículos sem condutor vão significar certamente uma revolução”.