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Robotização

“A corrida começou e quem arrancar primeiro vai (provavelmente) ganhar vantagem sobre a concorrência”

Business Intelligence

A logística é um dos setores mais avançados na adoção de tecnologia, mas a pandemia de covid-19 veio acelerar ainda mais a digitalização e a transformação tecnológica do setor. Há várias empresas com investimentos em curso para melhorar a eficiência das operações, contudo, a logística ainda é um setor que se move a várias velocidades. Se alguns dos operadores aderem à transformação digital com algum dinamismo, outros há sem capacidade de investimento em tecnologias que lhes tragam maior eficiência operacional.

Luís Freitas, business consultant da Zetes, empresa que desenvolve soluções tecnológicas para a cadeia de abastecimento, não tem dúvidas de que a logística “é um setor atento” à revolução tecnológica, mas no qual ainda se encontram várias realidades. “Temos os visionários, que já antes [da pandemia] procuravam a melhoria contínua e veem aqui uma necessidade. São empresas que se desafiam e desafiam os seus parceiros com projetos inovadores e tecnologias de última geração. Estão particularmente ativos e vemos aqui projetos que revolucionam a forma de trabalhar. Temos depois a maioria das empresas que procuram mais a evolução. Não sendo disruptivas, procuram a melhoria de processos, automatização e escalabilidade. Há aqui um imenso potencial de melhoria, recorrendo a tecnologias estabilizadas, capazes de resultados muito significativos com necessidades de investimento perfeitamente contextualizadas face ao retorno expectável ou mesmo assegurado. Por fim temos um grupo cujo desejo é também investir na melhoria, mas cujo negócio foi afetado pelo contexto de pandemia”, explica em declarações à LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE (L&TH).

O business consultant da Zetes conta que durante o estado de emergência decretado pelo Governo devido à covid-19 houve várias empresas que deram um salto tecnológico de dez anos em apenas alguns meses e a logística não foi exceção.

Estamos naturalmente a falar de tecnologias massificadas de colaboração, partilha, produção ou até mesmo sistemas em empresas algo desatualizadas, no entanto, este dado é relevante no que à necessidade e velocidade de reação diz respeito (…) [A logística] Teve de reagir de forma imediata às alterações do mercado. Numa primeira fase, de forma bastante reativa, estacando ineficiências e procurando aumentar a capacidade de resposta com vista a manter a eficácia. Neste momento assistimos, com a estabilização dos novos fluxos e do novo normal, que a logística está a adotar uma aproximação mais proactiva, desta feita em busca de eficiência. Esta eficiência aportará consigo a digitalização de muitos processos na logística indoor ou outdoor com vista a garantir a otimização do uso dos nossos recursos, a escalabilidade face a flutuações de negócio e a simplificação de processos”, acrescenta Luís Freitas.

O especialista em tecnologia diz ainda que soluções como Big Data, IA, automação, realidade virtual, realidade aumentada, blockchain e robotização poderão trazer vários benefícios para o setor, embora haja ainda algum atraso no investimento feito em algumas delas.

“Para simplificar, diria que eventualmente poderíamos separar em dois grandes grupos: Big Data, Inteligência Artificial e blockchain; e automação, robotização, realidade virtual e aumentada. No caso do segundo grupo, hierarquicamente mais abaixo na cadeia, são tecnologias de terreno, ou execução shop floor. Infelizmente ainda não vemos o nível de investimento que esta área merece e necessita. Muitas empresas continuam a adotar uma política em que o aumento da produtividade e o aumento da qualidade podem ser obtidos em função do operador no terreno, com um trabalhar mais rápido e mais concentrado. Ou seja, não é necessário qualquer investimento, basta o esforço humano (…) Tecnologias como realidade virtual, aumentada ou mesmo outras, acrescentam a capacidade de controlo, a eliminação do erro e o foco no aumento de produtividade à flexibilidade do desempenho por um operador e à capacidade de reação e adaptação de um ser humano. Por outro lado, a automação e a robotização focam-se em processos monolíticos, estáticos, processos repetitivos em que a intervenção humana aporta pouco valor. São sem dúvida tecnologias muitíssimo válidas em áreas com muito volume e intensidade. Nos próximos anos, o seu crescimento será uma realidade e começaremos a assistir ao início da democratização das mesmas, no entanto, em geografias com economias menos fortes, será difícil chegarem ao grosso do tecido empresarial pelo investimento que requerem”, explica.

Luís Freitas refere, no entanto, que num mercado como o português poderá ser “utópico” pensar no uso de algumas destas tecnologias, nomeadamente “as que são suportadas por sistemas e com elevado nível de automação e especificidade, como forma massiva de automatizar a logística.”

Grande parte do tecido empresarial a operar no setor logístico em Portugal são pequenas e médias empresas sem capacidade de investimento e, em abono da verdade, sem necessidade de sistemas demasiado focados em processos específicos. Para a generalidade do mercado, a adoção de tecnologias como a execução por voz ou luzes que têm por base o conceito de olhos e mãos livres, os sistemas de visão ou RFID, que permitem controlo automatizado de fluxos ou sistemas embarcados para acompanhamento de entregas, que garantem o mesmo nível de controlo da logística indoor quando em operação outdoor, representam saltos qualitativos enormes na sua operação sobretudo hoje que estão suportados por componentes analíticas e de visibilidade que permitem a melhoria contínua. A acrescentar, seguindo a tendência da indústria, hoje a maior parte das tecnologias está disponível como serviço, SAAS ou PAAS (Software/Platform As A Service), possibilitando à generalidade das empresas aceder às mesmas quando há pouco estavam só ao alcance de empresas de topo”, conclui.

Flávio Guerreiro, country manager da LPR Portugal, acredita que “num futuro próximo, a diferenciação não será feita por quem incorporou a digitalização, mas sim por quem não o fez.”

“Num mercado cada vez mais incerto, volátil, complexo e exigente, com cadeias de abastecimento mais extensas e complexas, a capacidade de analisar e processar dados, levando a previsões e níveis de gestão mais eficientes e rigorosos serão, mais do que nunca, fatores críticos de sucesso. E é precisamente neste campo que tecnologias e soluções como Big Data, IA, automação, realidade virtual, realidade aumentada, blockchain e robotização irão servir de ferramentas para assegurar os níveis de eficiência e produtividade exigidas pelas empresas. Hoje a maioria das empresas muito dificilmente terá a capacidade, know-how e recursos para processar toda a informação disponível e menos ainda em tempo útil, que é cada vez mais curto, levando desta forma à necessidade de adoção de alguns destes sistemas. Por outro lado, existem ganhos inequívocos do ponto de vista de eficiência com a adoção de sistemas como a automação e a robotização, permitindo simultaneamente – sobretudo em setores com elevados níveis de utilização de mão-de-obra – uma maior independência de RH e ganhos efetivos de produtividade”, sublinha.

Francisco Abreu Rocha, senior manager e supply chain & logistics expert da Capgemini Portugal, corrobora esta opinião e diz que “os impactos [da tecnologia] podem ser muitos e muito relevantes. Haja imaginação e poder de concretização e este setor pode converter-se em algo muito diferente do que é hoje em dia. Obviamente a essência mantêm-se, pois continuamos a necessitar de mover mercadoria de um lado para o outro, seja para produzir outros bens, seja para aproximá-los do cliente final. O modo como o fazemos, ou os meios que utilizamos para o fazer, é que podem ser radicalmente diferentes.”

Ver um camião de condução autónoma, por exemplo, a partilhar as estradas com os veículos convencionais, enquanto realiza uma viagem entre uma fábrica e um armazém, pode ser uma realidade ainda distante, mas cada vez mais assistimos a experiências e implementações de soluções de mobilidade autónoma dentro de recintos fechados. Veja-se o exemplo de realizar inventários por drones ou a sua utilização para realizar pequenas entregas entre diferentes partes de um grande complexo industrial. Outra muito evidente é a impressão 3D pois trata-se de algo relativamente simples de fazer e implementar, mas que pode revolucionar completamente a logística de pequenos componentes. Por que não imprimir os componentes ao lado das linhas de produção em que serão consumidos, ao ritmo que forem sendo necessários, em vez de trazê-los em grandes quantidades do outro lado do mundo e ter de gerir toda essa movimentação e armazenamento?”, lembra o especialista da Capgemini Portugal.

Um mundo de vantagens

Também João Moutinho, diretor de Negócio e Internacionalização do Built CoLab, não tem dúvidas de que quem souber tirar partido da digitalização pode facilmente conseguir ganhos financeiros e de eficiência importantes.  O especialista acredita que a pandemia veio despertar a necessidade de tornar os processos logísticos mais expeditos e mais eficientes e diz ainda que permitiu que muitos descobrissem que “as entregas de ‘última milha’ podem ser uma realidade do dia-a-dia como um modo prático das pessoas se abastecerem ou de fazerem compras.”

“A Mckinsey estimou recentemente, num artigo, que a retoma do crescimento das global unconstrained trades poderá apenas acontecer em um ou dois anos. Se por um lado se criou uma imagem de maior necessidade logística – os bens vão ter com as pessoas e não as pessoas com os bens -, por outro lado, a crise gerada a nível da produção, das matérias-primas e dos meios de transporte vai sem dúvida colocar as expectativas de crescimento em espera já que se preveem sinais de quebras que podem ir aos 22% até ao final deste ano. Passado esse tempo prevejo, contudo, um crescimento maior do que o que sentíamos antes da pandemia, já que o setor irá adaptar-se a uma maior procura e beneficiar dos ensinamentos resultantes do confinamento que passámos. A digitalização do setor será, por isso, uma necessidade”, afirma em declarações à LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE.

De acordo com João Moutinho, será essencial que o setor tome medidas para garantir que com o aumento da procura a oferta acompanha a garantia do nível de serviço de um cliente cada vez mais exigente. “Para que tal aconteça sem alterar significativamente a capacidade das vias de comunicação e dos meios que podem ser afetos, a eficiência dos processos terá de aumentar. Tal só é possível com processos inovadores de digitalização que façam uso de ter pessoas, mercadorias e meios de transporte conectados à Internet das Coisas (IoT). Acredito, por isso, que esta pandemia tenha trazido pelo menos este aspeto positivo: uma necessidade de acelerar uma tendência de digitalização para suprir uma procura que, daqui a algum tempo, terá um crescimento nunca visto”, acrescenta.

Mas o diretor de Negócio e Internacionalização do Built CoLab adverte: a digitalização nunca representará uma vantagem competitiva para as empresas se os dados recolhidos não forem utilizados “para algo útil, proveitoso ou habilitador.”

“(…) A digitalização torna-se interessante quando subimos um nível no patamar da ambição e se habilita um conjunto de tecnologias que realmente aumentam a competitividade, a eficiência e a inovação. Dou alguns exemplos: uma transportadora que registe dados ‘digitais’ da sua operação – a localização geográfica dos veículos, das cargas, dos dados do veículo, da rota, etc. – pode ter isso tudo registado num sistema de informação para consulta posterior para efeitos de avaliação de desempenho, rastreabilidade de não conformidades ou simplesmente controlo de operação. Mas será que está a tirar todo o proveito desta digitalização? E se estes dados da frota, numa quantidade Big Data, passarem por um mecanismo de Inteligência Computacional? Poderemos então aspirar a melhorias na otimização de rotas, na gestão da condução dos veículos, na decisão dos condutores e da sua alocação a veículos. Se esses dados forem cruzados com dados externos como a meteorologia, sistemas inteligentes de transporte (ITS) de smart cities, dados do estado de conservação das vias, agenda das cidades – para efeitos de evitar eventos como jogos de futebol, concertos, etc. -, é fácil perceber que os ganhos por quilómetro rapidamente se refletem em milhões de euros. E tudo isto já é uma realidade, não é futurologia”, revela João Moutinho.

Uma realidade são já também a formação de condutores por realidade virtual, sistemas de realidade aumentada para os locais de armazenamento ou gestão de mercadorias, armazéns automáticos com carregamento automático de veículos, utilização de realidade aumentada para assistência remota de forma a evitar deslocações de técnicos altamente especializados ou até o rastreamento de cargas. Mas abrir a porta ao blockchain, diz João Moutinho, cria um novo conjunto de possibilidades para os vários stakeholders da logística.

“Tipicamente, pelo menos três empresas são envolvidas num processo logístico – vendedor/produtor, transportador de distribuição e transportador de proximidade – e é difícil estabelecer de entre essas organizações quem é o responsável pelo material e em qual momento. Com o blockchain, a forma como se pode fazer o rastreamento da mercadoria muda porque todas as empresas acedem à mesma rede e conseguem verificar a informação diretamente da fonte. Além disso, qualquer decisão referente ao transporte da mercadoria – rota, frete, etc. – é tomada a partir de um consenso entre as partes. A corrida começou e quem arrancar primeiro vai, provavelmente, ganhar vantagem sobre a concorrência. Aliás, tudo isto já parece muito óbvio e muito convencional, mas ainda não está a ser aproveitado pela maioria dos operadores logísticos”, acrescenta João Moutinho.

E se todas estas tecnologias têm já um impacto real no setor, há várias outras que estão a caminho e que poderão trazer, ainda mais, ganhos e eficiência para a logística e para os transportes.

“Se o que referi anteriormente já impacta em milhões e pode ser uma realidade amanhã, novas tecnologias, além das referidas, irão certamente ainda mais além. Posso adiantar que a Computação Quântica irá abrir algumas portas – e constituir alguns riscos – para mecanismos computacionais intensivos. A inteligência computacional irá por isso dar um grande salto e abrir possibilidades ainda mais abrangentes. As redes de nova geração como o 5G, na sua versão Stand Alone, irão também revolucionar a forma como podemos conectar tudo e como podemos alavancar uma obtenção ainda maior de dados a todo o momento ao longo das vias de comunicação. Basta pensar nos passos que estão a ser dados na mobilidade conectada, cooperativa e automatizada. Veículos autónomos terrestres ou aéreos poderão diminuir os custos de operação, a sinistralidade e os tempos de deslocação. Estes veículos irão precisar das características do 5G SA (eMBB/URLLC/mMTC) para poderem processar as informações em Edge e em Cloud Computing em tempo real. As redes atuais de comunicação – até o 4G – serão insuficientes para esse nível de exigência”, afirma ainda o diretor de Negócio e Internacionalização do Built CoLab.

Neste momento, estão já a ser dados os primeiros passos para que, em 2021, existam este tipo de redes nas cidades nacionais. Um desses projetos é o 5G-Mobix, um projeto H2020, financiado pela Comissão Europeia, que visa explorar todas as vertentes técnicas, económicas e até regulamentares numa das situações mais difíceis: atravessar uma fronteira entre dois países com diferentes operadores móveis, usando 5G, com diferentes aplicações e serviços, diferentes regras e leis e em zonas onde as comunicações móveis de última geração (5G) chegariam provavelmente apenas em fases mais posteriores.

Segundo João Moutinho, “realizado este projeto teremos tudo que precisamos de saber para termos veículos – carros ou camiões, por exemplo – a viajar autonomamente entre países usando toda a tecnologia mais avançada de que dispomos à data (…) Quando tudo isto estiver disponível, a parada vai aumentar e viveremos num mundo em que a componente do transporte na logística será levada a um extremo da eficiência. Trabalho todos os dias para que cheguemos lá brevemente.”