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Portos

Canal do Suez: O Ever Given foi libertado, mas o problema continua

Após quase uma semana de impaciente espera, na segunda-feira, o navio cargueiro Ever Given foi finalmente libertado da posição que ocupava no canal do Suez. No entanto, os impactos deste incidente vão continuar a ser sentidos durante os próximos dias ou semanas, isto porque depois de seis dias a entupir o canal, mais de 350 embarcações congestionavam esta via marítima, ao mesmo tempo que, com o desbloqueio a efetivar-se, uma investigação ao que originou toda a situação foi, entretanto, aberta.

De acordo com o portal Splash247, por estes motivos, é esperada uma ‘inundação’ de contentores nos portos europeus durante as próximas semanas. Tanto que a autoridade do canal do Suez confirma que das mais de 350 embarcações à espera para fazer a travessia, apenas 165 embarcações já transitaram no canal, isto desde que foi libertado o Ever GIven. Até à normalidade ser restabelecida, este será um processo que poderá demorar vários dias.

Neste sentido, o projeto 44, com base nos seus dados, afirma que existiam, à data da publicação dos números, um total de cerca de 70,91 mil milhões de euros (83,21 mil milhões de dólares) de mercadoria contentorizada presa ao redor do canal na semana passada. Situação pela qual a empresa japonesa responsável pelo Ever Given, aliás, já pediu desculpa, mas pela qual, até agora, segundo confirmou à Reuters, ainda não originou qualquer reclamação formal ou ação judicial.

Por outro lado, citado pela Sputnik, o presidente do presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sissi, afirmou, na terça-feira, esperar que o congestionamento dos navios seja eliminado dentro de três dias. Abdel Fattah al-Sissi prometeu, na mesma altura, que o país iria adquirir equipamento adequado para evitar a repetição destes incidentes, no que pode ser entendido com um assumir de culpas, ainda que parcial. “Vamos adquirir todos os equipamentos necessários para o canal” para evitar incidentes semelhantes, assegurou.

Impacto nos portos europeus

O fundador da SeaIntelligence Consulting, Lars Jensen, escreveu recentemente no LinkedIn, que é expectável “uma série de consequências que vão durar bastante tempo”. Para o responsável da consultora, dentro de alguns dias, “a chegada de embarcações ao Norte da Europa vai diminuir significativamente, isto devido ao impacto do fecho do canal. Este processo deverá durar uma semana”.

No mesmo registo, Lars Jensen antevê que possa existir um pico de chegadas, uma situação que vai pressionar de forma aguda os portos. Porém, o problema não se fica por aqui: É que a juntar-se a isto haverá também a chegada de embarcações que escolheram ir pela rota africana, levando a outro pico de desembarques novamente. Esta sequência de eventos “vai impactar a disponibilidade de contentores na Ásia”, refere o fundador da SeaIntelligence Consulting.

Face à expetativa de congestionamento, a Hapag-Lloyd – empresa de transporte marítimo e contentorizado – alertou os seus clientes, na segunda-feira, que o terminal da PSA Antuérpia foi forçado a implementar uma regra de “7 day cargo opening rule” para todas as embarcações do Médio e Extremo Oriente. Isto significa que a PSA não aceitará nenhum contentor de exportações chegado com mais de sete dias antes do tempo estimado de chegada dos navios confirmados.

A vice-presidente sénior da Mediterranean Shipping Company (MSC), Caroline Becquart, alertou igualmente durante o fim de semana que “não há dúvida de que o atual bloqueio do Canal do Suez vai resultar numa das maiores perturbações no comércio global dos últimos anos”.

“Prevemos que o segundo trimestre de 2021 seja mais perturbado do que os primeiros três meses, e talvez ainda mais desafiante do que o final do ano passado. As empresas devem esperar que o bloqueio do Suez conduza a uma restrição da capacidade e do equipamento de transporte e, consequentemente, alguma deterioração das questões de fiabilidade da cadeia de abastecimento nos próximos meses”, acrescentou a responsável.

Investigação em curso

A autoridade do canal do Suez anunciou, como já mencionado anteriormente, que começou a sua própria investigação às razões sobre todo a situação gerada pelo ‘despiste’ do Ever Given no canal do Suez, sendo que, para já, não está descartada a possibilidade de todo o problema se ter devido a um erro humano.

O presidente da autoridade do canal do Suez, Osama Rabie, sugeriu que as condições atmosféricas e o erro humano seriam as melhores hipóteses para apurar ‘culpados’, sendo que as investigações vão incluir um exame de navegabilidade do navio e também um exame às ações do seu capitão, isto para ajudar a determinar as causas do incidente, informou o assessor do presidente da autoridade do canal de Suez, Sayed Sheasha, à Reuters.

Como já anteriormente reportado pela LOGÍSTICA & TRANSPORTES HOJE, a Bernhard Schulte Shipmanagement (BSM) – empresa responsável pela gestão técnica do Ever Given – tinha afirmado que “as investigações iniciais descartavam qualquer falha mecânica ou motora como causa da situação”.

A International Transport Workers’ Federation (ITF), em comunicado no seu site, confirmou também que a equipa de 25 elementos da embarcação ainda não estavam sob contrato  e que estavam todos a bordo do Ever Given há menos de seis meses.

O presidente da secção marítima da IFT, David Heindel, afirmou que uma investigação completa seria necessária para verificar se o cansaço da tripulação ou outros problemas foram um fator determinante. “Não vamos precipitar-nos e fazer um julgamento até que todos os factos sejam apurados”, referiu o responsável.