Quantcast
Transportes

Cargueiro ‘encalhado’ no Suez: Do processo de libertação aos custos operacionais

Cargueiro ‘encalhado’ no Suez: Do processo de libertação aos custos operacionais

Um navio cargueiro tem estado preso no Canal do Suez deste terça-feira. A situação poderá só ser resolvida dentro de semanas e até agora já impediu mais de 100 navios de fazerem a travessia comercial.

O navio, o Ever Given, estava a dirigir-se da China para o porto de Roterdão, na Holanda. A fraca visibilidade e os ventos fortes provenientes de uma tempestade de areia que atingiu o Egito levaram a embarcação a encalhar, revela o porta-voz da autoridade do Canal do Suez, George Safwat. A tempestade provocou uma “incapacidade de dirigir o navio”, afirmou em comunicado, consultado pelo New York Times.

Face à grande dimensão da embarcação, esta bloqueou quase toda a largura do canal, criando um engarrafamento numa das artérias marítimas mais importantes do mundo. Na quinta-feira, a autoridade do Canal do Suez, em comunicado, revelou que a navegação através do canal estava temporariamente suspensa, até que as ações de libertação do navio estejam completas.

O chefe da autoridade do canal, o tenente-general Osama Rabie, revelou que um cenário alternativo foi adotado, implicando que 13 embarcações ancorassem na área de espera de Bitter Lakes. Depois, a entidade responsável pela gestão do canal abriu a via antiga, na tentativa de escoar algum do trânsito marítimo.

Entre os navios que estão impossibilitados de fazer a travessia estão petroleiros, que transportam cerca de um décimo do consumo total de petróleo global de um dia, de acordo com a empresa de investigação de mercado, Kpler.

“Se existir um atraso, então irá ver-se uma acumulação de navios na sua chegada à Europa também”, afirmou, ao The New York Times, o vice-presidente de gestão global de transportadoras na SEKO Logistics em Hong Kong, Akhil Nair.  “É só mais um fator que não precisávamos”, acrescenta.

Processo de libertação do navio

Em declarações ao programa televisivo holandês Niewsuur, na quarta-feira, Peter Berdowski, CEO da companhia holandesa Boskalis – responsável por libertar o navio – afirma que “pode levar semanas” para retirar o navio, possivelmente exigindo “uma combinação de redução de peso removendo contentores, petróleo e água do navio, rebocadores e dragagens de areia”.

Este especialista acrescenta que, enquanto o canal tem 25 metros de profundidade no meio, rapidamente fica raso em ambos os lados. “Vai para os 15 metros, até aos 11 metros, e depois ainda menos até às extremidades. O navio tem 15,7 metros de profundidade”, explica.

Barcos rebocadores – o maior com a capacidade rebocadora de 160 toneladas – estão a tentar libertar o navio cargueiro, afirmou a Bernhard Schulte Shipmanagement (BSM), a empresa responsável pela gestão técnica do Ever Given.

Em comunicado, a BSM revela que os dois pilotos do canal estavam a bordo da embarcação quando encalhou. A equipa de 25 pessoas está segura e “não existiram relatos de feridos, poluição ou danos de carga e as investigações iniciais descartam qualquer falha mecânica ou motora como causa da situação”. A empresa afirma que as “prioridades imediatas são reflutuar a embarcação em segurança e que o tráfego marítimo no Canal do Suez retome”.

A BSM revela, em comunicado a que Agência Lusa teve acesso, que uma operação para “desencalhar o navio” foi realizada esta sexta-feira, mas “não teve sucesso”.  “Dois rebocadores adicionais de 220 a 240 toneladas” vão chegar ao local no dia 28 de março para ajudar a resgatar o navio.

Os Estados Unidos da América já apresentaram à autoridade do Canal do Suez disponibilidade para ajudar na operação. Em comunicado, a autoridade do Canal do Suez agradeceu a oferta, expressando “sincera gratidão por todas as ofertas que tem recebido de assistência nesta situação”.

Impactos da situação

Em entrevista à NPR, o CEO da empresa dinamarquesa SeaIntelligence Consulting, Lars Jensen, afirmou que a situação só estava a complicar ainda mais os problemas de supply-chain causados pela pandemia. “Existe um engarrafamento de um grande porto. Existem faltas de capacidade de embarcações, faltas de contentores vazios”, explica.

Esta situação é reforçada pela instituição de crédito Banco Carregosa, em declarações ao Dinheiro Vivo. “Neste início de ano, o preço dos fretes marítimos já se tinha elevado para máximos de quase dez anos, o que auxiliou empresas como operadores marítimos globais como a MAERSK ou a EVERGREEN (cujo navio da sua frota origina este bloqueio), registaram cotações máximas deste ano, e agora com este bloqueio já fez aumentar o valor dos fretes.”, explica a instituição bancária

Os peritos em transporte marítimo, ouvidos pela NPR, afirmam que se o canal não puder ser limpo nas próximas 24 a 48 horas, os navios que percorrem rotas entre a Europa e a Ásia poderão ser forçados a desviar-se em torno de África. aumentando a viagem em até 12 dias.

A empresa japonesa detentora do Ever Given, Shoei Kisen Kaisha, já admitiu que libertar o navio estava a ser “extremamente difícil” e pediu desculpas pela disrupção causada aos transportes de mercadorias. Numa tradução do seu comunicado, feita pela NPR, a empresa disse que iria “continuar a trabalhar no sentido de uma resolução antecipada da situação”.

Estima-se que entre 10% e 15% do comércio mundial passe pelo canal do Suez. As estimativas do Lloyd”s List apontam para um custo de 8,5 mil milhões de euros por dia de paragem.