Transportes

Efeitos (a curto prazo) do Coronavírus no transporte marítimo

Efeitos (a curto prazo) do Coronavírus no transporte marítimo

É muito cedo para avaliar todos os efeitos económicos e comerciais do surto de Coronavírus (COVID-19). No entanto, os dados de fretes marítimos, com base em observações em tempo real das posições dos navios (AIS) e informações sobre as cargas a bordo desses mesmos navios, mostram já uma mudança no comportamento operacional dos navios porta-contentores e na quantidade de derivados de petróleo na água. Esta é, para já, uma das conclusões de um relatório efetuado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD – United Nations Conference on Trade and Development).

As chegadas de navios porta-contentores aos portos chineses, medidas tanto no número de navios com escala programada como na capacidade acumulada em TEU, caíram no final de janeiro e no início de fevereiro. Ao mesmo tempo, a proporção de escalas perdidas nos portos (ou seja, escalas programadas que não ocorreram) subiu acentuadamente para os níveis normalmente vistos no final de fevereiro e março.

Normalmente, as empresas operadoras de navios reduzem a capacidade nas semanas seguintes às férias de duas semanas do Ano Novo Lunar na China. O número de escalas perdidas – as companhias de navegação ignoram um porto devido à falta de volume de carga e vão diretamente para o próximo porto na rotação programada – aumentam durante esse período. Antes do feriado, os remetentes costumam encomendar mercadorias antes da queda na produção chinesa, o que ajuda a minimizar o número de escalas de porto perdidas.

Este ano, a desaceleração do tráfego, com menos escalas agendadas e canceladas, está ocorrer muito antes. Isto acontece, apesar de muitas companhias aéreas terem anunciado o cancelamento do serviço de voo, reduzindo a capacidade de carga aérea e forçando os fabricantes a mudarem para o transporte por via marítima, mesmo para cargas de maior valor e com maior sensibilidade ao tempo.

Contentores_China_CoronavirusMais significativamente, diz a UNCTAD, “é a desaceleração nas escalas portuárias que está a ocorrer em todo o mundo, não apenas na China”. As companhias de navegação reduziram a capacidade programada desde agosto de 2018 na maioria das rotas comerciais, à medida que as “guerras comerciais” diminuem a procura global por capacidade de carga. “Na segunda quinzena de janeiro e início de fevereiro, essa queda acelerou significativamente”, conclui a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

A centralidade da China na movimentação de mercadorias em todo o mundo explica isso: se os portos chineses não estão a carregar ou descarregar contentores, não há razão para parar no porto para onde a remessa deve ir ou vir. A mudança para navios contentores maiores é outro fator importante neste jogo: “uma escala de porto perdida agora tem um impacto mais profundo na capacidade disponível”, salienta a UNCTAD.

O transporte marítimo de mercadorias e a logística relacionada enfrentam dificuldades um pouco em todo o mundo com a consultora sueca Sea Intelligence a estimar que a epidemia já fez perder 1,7 mil milhões de dólares (aproximadamente 1,6 mil milhões de euros) de receitas à indústria.

portos_do_mundoEste valor equivale a um ano de operação do Porto de Sines, cujo  Terminal XXI estabeleceu o recorde de movimentação em 2018, com 1,75 milhões de TEUs.

A consultora sueca já concluiu, também que a epidemia, que teve epicentro em Wuhan, na China, deixou bloqueados 1,7 milhões de TEUs em portos e terminais marítimos das principais rotas do shipping internacional.

Já os dados compilados pelo Fórum Económico Mundial confirmam que 90% do comércio internacional é feito por via marítima e a China responde por 40% do movimento nos 50 maiores portos marítimos que operam contentores no mundo.

Contas feitas, a perda de 1,7 mil milhões de dólares é igual a 1% do volume global total em 2019. “Outra maneira de ver isto é notar que o volume global de contentores cresceu 0,7% em 2019”. Partindo deste pressuposto, a epidemia já anulou mais do que o crescimento global total de 2019″, observa a Sea Intelligence no seu relatório semanal.