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Robotização

Armazéns inteligentes: No admirável mundo da robótica logística

logística armazém

A transformação digital ganhou velocidade na atual conjuntura e está a gerar modelos de negócios novos no mercado. O setor da logística pode beneficiar de muitas vantagens no domínio da robotização e evoluir para um futuro onde as linhas de produção e armazenagem tradicionais já não existirão.

A prova é que a utilização de robots em ambiente industrial aumentou com a pandemia, mas, de acordo com a Federação Internacional de Robótica, não é a grande responsável pelo potencial da transformação digital que o mercado vive. Neste âmbito, são os avanços tecnológicos que contribuem para a adoção cada vez mais generalizada de robots, garante Susanne Bieller, secretária-geral da IFR, para quem “a Covid-19 não deu início a uma nova tendência”, contudo, “acelerou o uso da robótica” e “a pandemia provou ser o maior fator de mudança na indústria.”

Neste sentido, IFR adianta que a instalação anual de robots industriais mais do que triplicou em dez anos (2010-2019), atingindo um total de 381 mil unidades em fábricas a nível mundial. Defendendo que “a missão de combinar a produção tradicional com as ‘estratégias digitais go’ coloca os robots numa posição de destaque”, a organização apresenta as suas previsões sobre as tendências em robótica, em 2021.

Assim, a automação robótica com aumentos de produtividade, flexibilidade e segurança; as novas gerações de robots com sistemas de inteligência artificial, conectáveis e integráveis em estratégias de automação e Indústria 4.0; o investimento em robótica moderna impulsionado pela necessidade de reduzir a pegada de carbono, são algumas das tendências. Porém, são os avanços na conectividade a contribuir para o aumento da adoção de robots em setores que só recentemente apostam na automação, como o alimentar e bebidas, têxtil, produtos de madeira e plástico. O futuro pertence à interação em rede de robots e veículos autónomos guiados, os chamados robots móveis autónomos (AMRs), equipados com a mais recente tecnologia de navegação, bem como à integração nas estações de trabalho de robots colaborativos.

Eficiência logística obrigatória

No que respeita a tendências de robótica no setor da logística, o Fórum Económico Mundial traça, no estudo “O futuro do ecossistema da última milha”, uma perspetiva integrada da entrega de última milha, antevendo que, a partir de 2021, os drones de entrega de última milha e os parcel lockers comecen a ser implementados de forma crescente. Países como os EUA, França e Colômbia já utilizam drones terrestes de entrega, e outros países estão a adoptar drones terrrestes e aéreos, parcel lockers e veículos semi-robotizados. Assim, o WEF prognostica a implementação, entre 2021 e 2023, das parcel shops, espaços dedicados ao recebimento de pedidos de diferentes marcas e lojas num único ponto de recolha.

Realizado pela McKinsey & Company e o World Business Council for Sustainable Development, o estudo propõe mais de 20 intervenções na cadeia de abastecimento a nível tecnológico que podem reduzir as emissões de dióxido de carbono, o congestionamento e os custos de entrega para a última milha urbana. Isto porque o WEF estima que a crescente procura por entregas de comércio eletrónico resultará num acréscimo de 36% de veículos de entrega em cidades do interior até 2030, provocando um aumento nas emissões e congestionamento de tráfego. Sem “uma intervenção efetiva”, nas 100 principais cidades do mundo, as emissões geradas pela entrega de última milha urbana e o congestionamento, deverão também mais que triplicar.

O mercado de automação logística foi, por isso, avaliado em 52,19 mil milhões de dólares em 2020, e previsivelmente deverá alcançar os 104,23 mil milhões em 2026, estima a consultora Mordor Intelligence, registando uma taxa de crescimento anual (CAGR) de 12,42%, durante o período 2021-2026. O robustecimento da Internet das Coisas Industrial (IIoT) e uma rede de sistemas conectados contribuirão para que as indústrias realizem uma infinidade de tarefas de modo cada vez mais automatizado, o que “ajuda a melhorar a eficiência operacional por grandes margens”. Os investimentos em automação de armazéns traduzem-se em mais robots móveis com tamanhos de paletes menores, e de robots articulados e paletizadores em grandes armazéns, conclui a consultora.

De acordo com a Association for Packaging and Processing Technologies, 94% das operações de embalagem de alimentos já utilizam robótica e o aumento nos níveis de automação permite que fábricas de processamento e embalagem introduzam novos produtos nas mesmas linhas de montagem.

A análise massiva de dados, a automação de processos robóticos e a tecnologia IoT destacam-se, assim, como tendências no setor de logística, conclui outro estudo apresentado no final de 2020. Identificando as tecnologias quick win capazes de enfrentar os desafios no setor de logística gerados pelo impacto da pandemia e pelas mudanças nas tendências de consumo, o relatório da consultora Everis e da UNO – Organização Empresarial de Logística e Transporte espanhola-, aponta, entre estes novos reptos da logística, a melhoria da gestão omnicanal, o incremento da segurança sanitária com maior automação na cadeia de abastecimento e a sustentabilidade ecológica.

As tecnologias seleccionadas, entre as cerca de 20 analisadas, sobresaíram neste estudo devido ao impacto imediato na operação diária e pela velocidade do retorno de investimento, num contexto em que “a crise da Covid-19 adiantou cinco anos a evolução do sector, no que concerne inovação e digitalização”. Segundo o presidente da UNO, Francisco Aranda, a eficiência converteu-se numa obrigação para assegurar a viabilidade do negócio, e, neste cenário, a inovação e a digitalização são absolutamente imprescindíveis”.

Com e-commerce a ser o ‘novo normal’ das compras, evoluindo em volume e oferta, a pandemia acelerou a transformação digital em toda a indústria, o que rapidamente conduzirá ao ‘new-commerce’, cujos automatismos associados ao recurso a robótica e a inteligência artificial permitirão transações mais interativas e convenientes, estimam os especialistas.

Robots agilizam pedidos no retalho

Na área do retalho, em constante mutação para acompanhar a rápida evolução das cadeias de fornecimento e os novos hábitos dos clientes, a robótica é crucial para dar resposta à pressão a que as empresas estão sujeitas. Segurança e facilidade de utilização são duas premissas para qualquer estratégia de automação, que grandes empresas como a Amazon e a Walmart já têm em curso: os dois gigantes utilizam robots móveis nos seus armazéns e lojas, para funções que incluem gestão de inventário ou manuseamento de materiais.

Por exemplo, nos centros de distribuição da Amazon, os sistemas da Amazon Robotics transportam o stock armazenado. Estes AMRs carregam com eficiência cargas até 340 quilos enquanto manobram no armazém. À medida que os pedidos são recebidos, os robots deslocam as mercadorias das prateleiras para contentores e, posteriormente, para caixas, cujo tamanho é sugerido por mecanismos de Inteligência Artificial. Depois, entregam as mercadorias no seu destino, incluindo a deslocação até aos veículos de entrega. Totalmente autónomos, equipados com sensores, transportam milhares de pedidos por dia e são responsáveis pelas operações diárias dos armazéns da Amazon em todo o mundo.

A Walmart, por seu lado, anunciou a abertura, nos EUA, de dezenas de centros logísticos operados por robots. Estes pequenos armazéns automatizados, e integrados nas lojas da marca, permitem uma preparação dos pedidos muito mais rápida. Os robots são encarregues de levar os artigos às estações de separação, onde se embalam e entregam os pedidos aos clientes, encurtando o processo de modo a permitir a recolha ou entrega em uma hora.

Os robots da Walmart Warehouse são, assim, a ferramenta-chave da empresa na batalha tecnológica com a Amazon. Integrado na loja do sul de New Hampshire, o Alphabot é um armazém automatizado de quase 2 mil metros quadrados que acopla “a tecnologia mais promissora lançada nos últimos anos para transformar o retalho alimentar”, de acordo com alguns analistas. A cadeia prevê iniciar a construção de mais dois sistemas Alphabot ainda este ano, para apoio às suas lojas em Mustang, no Oklahoma, e Burbank, na Califórnia. Este investimento “terá um impacto transformador para a cadeia de fornecimento da Walmart”, sublinha Brian Roth, senior manager da Walmart. De momento, já contribuiu para que a empresa ficasse à frente da rede Whole Foods, da Amazon.

Por seu lado, em Portugal, o retalho alimentar é uma das áreas que começa a apostar na automação dos seus centros de distribuição e logística. A Auchan testa desde o ano passado a utilização de robots para verificação de stock. Em parceria com a empresa tecnológica Trax, a retalhista está a utilizar, na sua loja de Alfragide, em Lisboa, um robot que identifica as ruturas de stock e deteta problemas com a etiquetagem de preços dos produtos.

Este robot recolhe informação, convertida em relatórios com métricas através da visão computacional e tecnologia de IoT, que é transmitida em tempo real às equipas de loja, que assim podem repor produtos, colocar etiquetas de preço em falta e ajustar o espaço de prateleira de cada artigo em função do ritmo de consumo específico de cada espaço. A Auchan pretende utilizar o robot para mapear a loja, facilitar a recolha de produtos para encomendas online e fornecer um mapa interativo ao cliente com a localização de cada artigo. O objetivo é estender o projeto a um total de 34 lojas, em 2021, implementando um conjunto de soluções autónomas de monitorização online, para melhorar o serviço ao cliente e aumentar a produtividade nos pontos de venda da marca.

Por sua vez, em Portugal, o Lidl inaugurou, também em 2020, o seu maior entreposto logístico semi-robotizado. Este centro logístico traduz num “investimento diferenciador” em tecnologias de automação e em sustentabilidade, e, em entrevista, Hélder Rocha, diretor-geral Norte do Lidl Portugal, comenta a aposta do Lidl nesta tecnologia.