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Intralogística: Dos robots aos drones, o que está a mudar no interior dos armazéns

A pandemia de Covid-19 trouxe condições que aceleraram, e muito, as tendências inovadoras que estão a mudar o cenário dentro dos armazéns. Fomos tentar perceber o que está a mudar e a que ritmo, numa tentativa de dar pistas para o que poderá ser o futuro dos armazéns em Portugal.

O gigantesco centro de distribuição da Kroger em Delaware, Ohio, começou a ser renovado com tecnologia de ponta da Knapp em julho, depois de um salto pandémico das vendas que continua em direção ascendente.

A segunda maior retalhista dos Estados Unidos, com 3242 lojas e meio milhão de empregados, está a modernizar o centro originalmente aberto em 2003 com soluções inteligentes de intralogística. O objetivo é expandir a capacidade do centro de distribuição para que seja mais eficiente na reposição de produtos nos supermercados.

Entre as inovações estão veículos Knapp OSR (acrónimo em inglês que significa encomenda, armazenamento e recolha) que transportam caixotes com mercearias numa sequência exata para os paletizadores robóticos RunPick. Serão também adicionados 12 mil metros quadrados de área útil ao centro.

“A expansão das instalações faz parte da transformação em curso da nossa cadeia logística, e este projeto mais que duplicará a nossa capacidade ao mesmo tempo que entrega inovação e escalabilidade que poderá crescer com a procura”, disse o vice-presidente da cadeia de distribuição da Kroger, Tony Lucchino, no comunicado sobre o investimento.

O acordo entre a Kroger e a Knapp é um exemplo da injeção de tecnologia em armazéns e centros de distribuição que explodiu no último ano e meio. A tendência de afinação e adição de inteligência intralogística já existia, mas tal como em tantas outras indústrias, a pandemia de Covid-19 provocou um autêntico terramoto no sector.

Confrontadas com restrições, distanciamento social e um aumento súbito da procura por comércio eletrónico e entregas sem contacto, as retalhistas – grandes e pequenas – foram obrigadas a transformar rapidamente as suas operações logísticas para acomodar as mudanças. Marcas como a Whole Foods apostaram em “lojas escuras” e microcentros de distribuição, enquanto gigantes como a Walmart e a Kroger investiram fortemente no aumento da capacidade dos seus armazéns.

As previsões para os próximos anos espelham esta aceleração. De acordo com a LogisticsIQ, uma firma de pesquisa na área da logística e cadeias de abastecimento, o mercado de automação de armazéns vai crescer 14% ao ano até 2026, ano em que valerá 30 mil milhões de dólares (aproximadamente 26 mil milhões de euros). É o dobro do que valia no ano passado.

O crescimento do mercado, diz o relatório da firma, deve-se à subida do comércio eletrónico, à distribuição multicanal, à compra de mercearias online e à emergência de robots autónomos móveis.

“O ano de 2020 e a pandemia de Covid-19, que trouxe muita incerteza, puseram em foco o uso de automação dentro dos armazéns em todo o mundo”, sublinhou a LogisticsIQ. Isto é patente “quer estejam a adaptar-se a regras de distanciamento social, sob pressão para distribuir um maior volume de bens essenciais, com dificuldade de fazer entregas no próprio dia, ou a tentar adicionar mais capacidades de trabalho remoto”, continuou.

A empresa reconhece que a tendência para automatizar armazéns já existia, mas indica que a pandemia global forçou as empresas a mudarem a sua estratégia de automação de “é bom ter” para “é obrigatório ter.”

Um indicador interessante desde relatório é que o mercado de AGV (Automated Guided Vehicles, ou veículos autoguiados) e AMR (Autonomous Mobile Robots, ou robots autónomos móveis) também está em grande expansão, prevendo-se que cresça a um ritmo de 32% ao ano até chegar aos 5 mil milhões de dólares (aproximadamente 4,2 mil milhões de euros) em 2026. Aqui, a LogisticsIQ indica que os AMR serão particularmente importantes nos armazéns de retalhistas “devido à elevada procura no sector do comércio eletrónico e a flexibilidade de instalar o robots sem grandes mudanças na infraestrutura existente.”

A Amazon Robotics, por exemplo, tem agora mais de 200 mil robots autónomos móveis, um aumento de 600% em relação ao que tinha em 2015. E a DHL está a investir 300 milhões de dólares (cerca de 250 milhões de euros) para modernizar os seus centros com robots autónomos e Internet das Coisas (IoT), tendo também anunciado a instalação de 1000 robots LocusBots, que ajudam na logística de distribuição.

Segundo a LogisticsIQ, os AGV/AMR vão captar 18% do total de automação nos armazéns dentro de cinco anos. Fabricantes como a Geek+, Grey Orange, HikRobot, Locus Robotics, Fetch Robotics, Shopify, Teradyne e Quicktron serão dos players mais importantes neste mercado, mas há inúmeras marcas a lançarem novidades.

A Safelog, por exemplo, apresentou em julho o primeiro modelo AGV de nova geração, o AGV M4, com novidades como mais opções de velocidade, carregamento por indução e capacidade de bateria escalável.

“As expectativas dos nossos clientes em relação ao desempenho e flexibilidade operacional dos AGV estão a aumentar de ano para ano”, disse Mathias Behounek, diretor-geral da empresa alemã. “Ir ao encontro delas é um objetivo importante para nós, e como tal, dá forma às exigências que temos de nós próprios – melhorar os modelos AGV e explorar o máximo potencial.”

Também proveniente da Alemanha, a idealworks, uma nova subsidiária do grupo BMW especializada em robots AMR, venceu em julho o prémio International Intralogistics and Forklift Truck of the Year com o iw.hub, um empilhador autónomo, rápido e flexível, particularmente eficaz a apanhar cargas que estão mal posicionadas.

Os exemplos sucedem-se, em várias áreas. Nos Estados Unidos, a Raymond apresentou em junho uma nova geração de sistemas de localização em tempo real para armazéns, o iWarehouse RTLS. A tecnologia está patenteada e determina as posições das etiquetas nos empilhadores e nos crachás dos trabalhadores com uma precisão elevada, no raio de um metro. Usando geofencing, o sistema ajuda a assegurar que os empilhadores, operadores e peões estão no sítio certo no momento certo. A gestora de produto da empresa, Erica Moyer, explicou que o sistema foi desenhado com base nos desafios operacionais que os clientes reportaram.

Um sinal de que este mercado está em explosão foi a DLL, especialista em financiamento de ativos, ter anunciado a intensificação das suas operações no mercado de intralogística. Segundo a Asset Finance International, a firma pretende oferecer soluções e serviços direcionados a projetos de automação de armazéns, uma decisão relacionada com o salto do comércio eletrónico e com as previsões de crescimento deste sector.

“O mercado de intralogística tem sido uma área de crescimento sustentado e antecipamos a continuação de desenvolvimentos positivos à volta do globo”, sublinhou Marco Wagner, responsável por esta área de negócio na DLL.

Drones dentro de portas 

Se os AGV e AMR andam pelo chão do armazém a otimizar o trabalho dos operadores, o espaço aéreo das instalações também pode ser aproveitado nesta onda de transformação. A utilização de drones dentro de armazéns não é novidade, mas registou uma aceleração notória no último ano e meio. Os drones, que são basicamente robots voadores, podem ser instalados para ajudar na intralogística com a vantagem de ser um ambiente controlado, ao contrário do que acontece lá fora no mundo real – onde estão a ser testados drones para todo o tipo de entregas.

São, no entanto, modelos com características diferentes, mais pequenos que os de exterior, e desenhados para tarefas distintas. Um exemplo de como a pandemia influenciou este sector foi a criação do “primeiro drone de interior do mundo com ultravioleta”, o Aertos 120-UVC, que a Digital Aerolus desenvolveu especificamente para desinfetar edifícios sem intervenção humana.

Nos Estados Unidos, a start-up Corvus Robotics começou a produzir drones para controlar o inventário dentro de armazéns e fazer inspeções em centros de logística. A Flyability, que vem da Suíça, também desenvolveu drones para inspeção aérea de espaços confinados. Outra start-up nesta área é a Ware, de São Francisco, que desenvolveu uma solução em cima daquele que é considerado um dos drones mais poderosos deste mercado, o Skydio 2. Da África do Sul chega o DroneScan e de volta à Califórnia, a FlytBase está a trabalhar numa plataforma empresarial de automação que fornece soluções para drones independentemente do fabricante dos veículos aéreos.

Há muitas vantagens de usar drones dentro de armazéns, para lá da maior capacidade de controlo, retorno do investimento mais seguro e menores riscos que o seu uso no exterior. Pequenos e leves, são particularmente úteis a transportar componentes de um lado para o outro dentro do armazém, navegando bem até entre as prateleiras mais altas e estreitas.

É isso que faz a construtora automóvel Audi, que emprega drones no transporte de componentes do armazém para a assemblagem a voarem a 8 km/hora dentro das instalações.

Outra área importante é a do inventário anual, uma tarefa manual de grande desgaste mental que passa a contar com estes “ajudantes” mecânicos com câmaras de alta resolução e tecnologias de scanning para contabilizar os itens. É o que faz a Walmart, cujo objetivo é ter um processo de contabilização de inventário totalmente feito por máquinas.