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Transportes

“Não há progresso sustentável sem custos”

“Não há progresso sustentável sem custos”
O que deveriam ser três dias de trabalho em prol dos transportes e mobilidade, foram adiados para 2023. O responsável pela ITS Portugal, Rui Camolino, deixa a certeza de que, seja em 2020 ou em 2023, “a crescente necessidade de complementaridade entre os diversos modos de transporte de forma a garantir a multimodalidade continua a ser um desafio”.

O evento estava programado para meados de maio. Mas como tantas outras organizações, a COVID-19 veio alterar tudo e “empurrou” o evento para o mesmo mês, mas em 2023. A LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE entrevistou Rui Camolino, presidente da Associação para o Desenvolvimento da Mobilidade e Transportes Sustentáveis (ITS Portugal) antes de se saber deste adiamento do Congresso Europeu ITS-ERTICO e traz-lhe a conversa (adaptada) para esta edição.

Estava previsto para meados de maio, a 14.ª edição do Congresso Europeu ITS-ERTICO, a realizar pela primeira vez em Portugal. Entretanto, o evento foi adiado para 2023. Que importância tem este evento para o nosso país?

No congresso propriamente dito, são apresentados os últimos desenvolvimentos e implementações de Sistemas e Serviços Inteligentes de Transportes (ITS). Já na exposição, estão presentes os principais fabricantes nacionais e europeus de soluções ITS, bem como muitos projetos financiados pela Comissão Europeia, que mostram o sentido em que o setor está a evoluir. Além disso, existe o parque de demonstrações onde as empresas mostram alguns dos seus sucessos mais recentes.

Mas o Congresso Europeu de ITS, patrocinado pela ERTICO – ITS Europe, tem, por norma, diversas componentes que esperamos sejam transpostas para 2023, nomeadamente, um debate sobre as últimas novidades existentes de sistemas inteligentes de transporte – tanto de pessoas como de mercadorias.

As empresas nacionais participantes apresentam sempre, não só os seus últimos produtos/trabalhos, mas também o seu envolvimento nos projetos europeus, onde se começa a garantir a interoperabilidade dos sistemas entre os vários países europeus.

Para Portugal, para a edição de 2020, e possuindo o nosso país uma tradição marítima significativa, as soluções que começam a ser experimentadas com a JUL (Janela Única Logística) em diversos portos nacionais eram um dos destaques não só das empresas que as têm vindo a desenvolver, mas também dos seus beneficiários comunicando os impactos resultantes das experiências em que participem.

No que toca à mobilidade, quais os desafios mais importantes que estão a ser colocados na atualidade?

A crescente necessidade de complementaridade entre os diversos modos de transporte de forma a garantir a multimodalidade continua a ser um desafio.

Também o acesso bilateral à informação continua a ser desafiante pois por um lado tem criado problemas relacionados com a concorrência e a colaboração em prol dos utilizadores, e por outro levanta as questões de sigilo e segurança dos dados individuais.

Finalmente é crucial garantir a democratização do acesso da mobilidade sustentável e conectada a todos, pois é conhecida a tradicional assimetria entre o litoral e as zonas interiores assim como a diferença entre as áreas urbanas e as rurais.

Mobilidade inteligente e digitalização dos transportes. Estes são dois dos temas a serem desenvolvidos a breve trecho?

A Mobilidade Inteligente e a digitalização dos transportes são centrais nos sistemas inteligentes de transportes pois visam uma mobilidade mais ágil e sustentável que se torna mais fácil de alcançar através da digitalização – desde que acautelados todos os aspetos relevantes. 

Como é que se pode reduzir o impacto que o transporte de mercadorias e a logística urbana têm no bom funcionamento das cidades e redes urbanas?

Existem várias soluções para alcançar o objetivo referido, mas o normal é haver uma definição de enquadramento pelos municípios, como tem vindo a ser feito por Lisboa. Com base nesse enquadramento, as empresas definirão as suas estratégias de resposta ao mercado e desenvolvimento da sua atividade.

Em Lisboa, têm vindo a ser definidas diversas medidas na limitação de acessos para veículos com determinadas idades ou níveis de emissões, nas horas em que a distribuição das mercadorias pode ocorrer entre outras.

Muitas das soluções apontadas para a problemática da mobilidade passam pela inovação que decorre da possibilidade de aceder a informação em tempo real e a muito baixo custo. A implementação da tecnologia 5G poderá facilitar todo este processo?

A implementação da tecnologia 5G poderá facilitar o processo, mas terá de ter em conta os sistemas já implementados e que podem ser afetados. A título de exemplo surgem as portagens que temos em Portugal e que correntemente já suportam um conjunto adicional de novos serviços, nomeadamente de estacionamento.

Cada vez mais se fala em partilha e colaboração. É por aí que, também, se poderá solucionar as questões principais da mobilidade?

A partilha e colaboração são certamente das muitas soluções que a mobilidade sustentável pode e tem vindo a oferecer. Atualmente já existem experiências muito interessantes em vários países e cidades que têm como força motriz o conceito de mobilidade das novas gerações, mais dissociado da posse de meios próprios de transporte. Nesta perspetiva a partilha e a colaboração nos custos pode trazer o benefício da eficiência e da satisfação das necessidades individuais que podem ser económicas, ecológicas ou outras.

Portugal está, geograficamente, localizado como porta de entrada para a Europa. Esta porta faz, contudo, que seja necessário o transporte a partir dos portos. A ferrovia tem sido, no entanto, negligenciada ao longo dos últimos anos, em favor da rodovia. Esta é uma situação que tem de ser revista ou mantida?

A resposta já foi dada pelo Governo que resolveu avançar com investimentos significativos na ferrovia. Mantendo-se essa orientação, importará assegurar a colaboração entre os vários modos, nomeadamente aéreo, ferroviário, fluvial, marítimo e rodoviário, criando os pontos de interligação que facilitem essa colaboração e onde os ITS serão fulcrais.

Falar de mobilidade é falar, também, de energia, eficiência energética e descarbonização. Dada a urgência que se vive, é exequível estarmos de falar de medidas a longo prazo?

O ponto fraco de Portugal até agora tem sido a falta de definição de objetivos a longo prazo, pois se esses objetivos estiverem definidos e acordados entre as principais forças políticas, então pequenos ajustes serão facilmente integrados com medidas de mais ou menos curto prazo e sem grandes custos para a sociedade. A questão energética é naturalmente central na mobilidade.

Em qualquer caso, a atual emergência climática exige que, no futuro próximo, as medidas nacionais sejam enquadradas por diplomas europeus sobre o clima com objetivos europeus de longo prazo e vinculativos dos Estados.

O Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, admitia há tempos que se devia taxar os países mais poluidores. Isso seria aplicável às cidades e diversas indústrias?

Essas são questões mais do foro político, no entanto os ITS poderão apoiar esse tipo de abordagem em situações muito diversas, consoante a opção política internacional no âmbito das Nações Unidas e/ou União Europeia.

A questão da mobilidade passa, contudo, muito pelo planeamento das cidades. Como é que se pode fazer algo neste campo, sem ir contra os orçamentos (limitados) que cada urbe possui?

A crescente digitalização da informação das cidades parece-nos ser o caminho para apoiar um planeamento mais célere e económico das cidades, contudo a fase inicial pode não ser tão económica quanto desejável, em particular nas grandes cidades. 

Falando de transportes, logística, mobilidade, estamos perante um setor que precisa de uma abordagem evolutiva ou disruptiva?

Julgo que perante o panorama atual são necessárias as duas e que será sobretudo na sua complementaridade que o desenvolvimento sucederá. Dito isto, os ITS poderão apoiar ambas, pois serão as ideias que serão mais ou menos disruptivas e os sistemas dar-lhes-ão o suporte necessário.

“A crescente digitalização da informação das cidades parece-nos ser o caminho para apoiar um planeamento mais célere e económico das cidades”

Essa evolução ou disrupção irá contra ou ao encontro do que são, atualmente, as necessidades e exigências dos consumidores?

Essa evolução ou disrupção irá sempre ao encontro das necessidades e exigências dos consumidores, podendo, em alguns casos, dar origem a novas necessidades e exigências.

Mas isto não significa que não haja custos, não há progresso sustentável sem custos. O importante é que os benefícios alcançados favoreçam claramente o futuro da sociedade como um todo. 

Que mobilidade teremos dentro de 10 anos? E que mobilidade seria desejável termos dentro de 10 anos?

Anseio que daqui a 10 anos a mobilidade seja mais eficiente, multimodal e que os ITS contribuam para minimizar os seus custos e maximizar a sua utilização. Simultaneamente, espero que contribuam para se ter uma utilização energética o mais limpa possível para o padrão de desenvolvimento da altura, em suma, que seja sustentável.

Algo que seria desejável nessa janela temporal seria garantir a sua acessibilidade, tanto a nível de oportunidades como facilitando a sua utilização para toda a população.

*Artigo publicado originalmente na edição de maio/junho da revista LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE.

Mob Lab Congress 2020