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Logística

“Nunca tivemos a experiência de trabalhar com uma cadeia de ultrafrio assim”

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O processo logístico e de distribuição que agora se inicia com a aprovação de vacinas para a covid-19 coloca enormes desafio aos mais diversos “atores” interveniente no presente. Falámos sobre este quebra-cabeças com o médico Suman De, atual Head of Government Healthcare Solutions and Chief Medical Consultant da Infosys Public Services, que trabalha a partir de Connecticut, para perceber como se procederá no país mais afetado no mundo.

A distribuição das várias vacinas para a covid-19 a uma escala sem precedentes vai colocar sérios desafios aos sistemas logísticos do mundo inteiro. Não apenas pela dimensão da tarefa e da corrida contra o tempo, mas pelas características delicadas das vacinas, que requerem acondicionamento frio ou ultrafrio durante o armazenamento e transporte. Acresce a esta questão a necessidade de segmentar os grupos populacionais que vão receber as doses primeiro, o que também terá impacto no formato de distribuição.

A revista LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE esteve à conversa com Suman De, Head of Government Healthcare Solutions and Chief Medical Consultant da Infosys Public Services, no Connecticut (EUA). A Infosys Limited detém uma tecnológica inovadora sediada em Salt Lake City, Simplus, que desenvolveu uma solução pioneira de gestão para a vacina da covid-19 em cima da plataforma da Salesforce

Os Estados Unidos têm um território gigante com 320 milhões de habitantes. O processo de administração da vacina para a covid-19 será feito ao nível local ou central?
Será controlado ao nível federal, pelo governo central. Esta é uma situação muito única e não pode ser enquadrada na estrutura existente de gestão de vacinas – aquela pela qual todos passamos, o programa de vacinação de crianças, adultos, a vacina para a gripe, etc.. Isto é algo diferente. É uma situação de pandemia que tem de ser endereçada e requer muito controlo e execução de políticas, para gerir as coisas de forma uniforme sem comprometer a equidade e justiça social.

Vamos ter várias vacinas. Começou com a Pfizer e Moderna, depois Astra Zeneca, Johnson& Johnson e outras se seguirão. O governo federal já delineou como irá adquirir as vacinas e administrá-las. Nenhum Estado ou Condado poderá dizer que quer esta ou aquela vacina. Esta é uma autorização de uso de emergência, para resolver a crise pública.

Não haverá escolha, será usada a vacina mais segura assim que estiver disponível. Os estados não estão a despender dinheiro neste processo.

O exemplo americano
Como será distribuída a vacina?
Há uma missão chamada Operation Warp Speed (OWS), que foi estabelecida pela administração Trump e vai responsabilizar- se pela distribuição da vacina pelas 64 jurisdições dos Estados Unidos. Estas incluem os 50 Estados, grandes áreas metropolitanas, e territórios como Porto Rico e Guam.

A operação “Operation Warp Speed” controla a distribuição da vacina dentro do país e está também a trabalhar com o distribuidor central McKesson, que foi escolhido pelo governo federal para gerir a rede de distribuição e vai trazer a sua própria capacidade logística. A “Operation Warp Speed” vai também trazer o exército para ajudar na distribuição.

Quais serão os maiores desafios na distribuição das vacinas?
As coisas serão um pouco diferentes com a vacina da Pfizer, que será a mais desafiante. No longo prazo tem de ser mantida a uma temperatura de -70º C, o que é um pesadelo, e, por isso, a Pfizer vai gerir a logística da distribuição. Estão a preparar contentores com dispositivos IoT (Internet das Coisas) para monitorizar a temperatura e com tec Pfizer será diferente da Moderna e da Astra Zeneca, sendo que nestas a temperatura e acomodação serão geridas pela McKesson.

vacinas_covid

Mas todas terão um problema na “última milha”. Será este o maior desafio?
De facto, é um desafio, e um dos grandes. No caso da Pfizer, vai transportar as doses a partir da fábrica na Bélgica para um local de armazenamento central, como Chicago ou Los Angeles. As vacinas têm de ser colocadas em contentores especiais do tamanho de malas de viagem, onde todas estas doses precisam de ser acondicionadas com gelo seco. As vacinas ficam estáveis durante dez dias se os contentores de distribuição não forem abertos. Depois, é preciso ir adicionando gelo seco a cada cinco dias para que se mantenham viáveis e estáveis.

O gelo seco é um material tão perigoso que não pode ser transportado pelo ar ou água, tem de ser por estrada. Isso coloca um desafio em relação à distribuição em áreas mais remotas. Vários dias de viabilidade das vacinas poderão ser perdidos devido a este problema do trânsito e transporte, disponibilidade de gelo seco, os contentores certos e tudo isso.

É um tremendo desafio para gerir a logística. Não será apenas acomodar num sítio e manter à temperatura certa, é assegurar todas as variáveis quando se põem os lotes em trânsito.

A tecnologia em prol da logística
Qual é a solução para isto? Poderá funcionar ter grandes locais centrais de vacinação?
Não. A jurisdição usará um sistema chamado “VTrckS”, uma plataforma do CDC (Centro de Controlo e Prevenção de Doenças). Uma vez que o sistema recebe a encomenda, esta é aprovada e depois enviada para a McKesson, pedindo X número de vacinas para um condado da Carolina do Norte, por exemplo.

A McKesson vai então ao armazém central, onde as vacinas foram acomodadas depois de chegarem, e pegam na encomenda. São eles que se asseguram que os lotes e o gelo seco são geridos de forma apropriada, e vão transportá-los por estrada para o estado e depois distribuir à jurisdição que encomendou e pôr no seu armazém. Dali, um agente de distribuição mais pequeno poderá então levá-los para a clínica onde será feita a vacinação.

Mencionou dispositivos IoT. Que outras tecnologias podem ajudar neste processo, incluindo a triagem de quem receberá as vacinas primeiro?
O papel da tecnologia será grande. Essa é a razão pela qual a Infosys desenvolveu uma solução, a plataforma de gestão de vacinas.

Primeiro que tudo, é preciso recolher a informação sobre a população, para perceber melhor as suas características. Uma vez que haverá um problema de procura e oferta nos primeiros meses, não será possível oferecer vacinas a toda a gente por igual, como fazemos hoje com a vacina da gripe. É preciso dar prioridade, de acordo com certas características da população, olhando para a idade, os riscos de saúde, os riscos de exposição à covid-19 e se apresentam maior risco de morbilidade se contraírem a doença.

Olhamos para todos os aspetos que influenciam algo que chamamos “determinantes sociais de saúde”, que abrangem o padrão de vida, o local de residência, os traços pessoais, as condições físicas, a medicação prescrita, o risco. Com base nisso, determina-se um índice de vulnerabilidade à covid. A partir daí, pode-se segmentar a população.

Esta estrutura de analítica baseada em dados ajuda a dar prioridade, mas neste momento nos Estados Unidos há três diferenciais a determinar quem vai receber a vacina primeiro, em três fases. A primeira camada é composta pelos profissionais de saúde que estão na linha da frente, e trabalham com doentes infetados por covid todos os dias, e nas instalações de cuidados prolongados, em paralelo com os cidadãos acima dos 65 anos que têm maiores riscos.

Depois há a camada dos trabalhadores considerados essenciais, mais a população geral acima dos 65 e aqueles que estão em maior risco de contrair covid. A terceira camada, que só deverá vir lá para a primavera, é aquela que já estará aberta a todos. Aí haverá maior disponibilidade e as pessoas poderão ir a uma clínica receber a vacina. 

Esta triagem é feita pelos algoritmos programados na plataforma?
Sim. Na nossa plataforma já estão embebidos estes critérios.

“É um tremendo desafio gerir a logística”

Esta ordem de prioridade é a nível federal?
Toda a gente está a olhar para a ordem federal. Há pouca latitude para a mudar. Um Estado pode segmentar as fases e ter subcamadas, segmentando a população a um nível mais granular, mas é muito pouco provável que haja uma subversão. Esta ordem é vista, globalmente, como sendo a mais bem aceite. Trazer primeiro as pessoas vulneráveis e não aquelas que podem pagar.

A plataforma também permite seguir as pessoas vacinadas e monitorizar os seus efeitos?
Sim. Organizámos um workflow de gestão das vacinas que faz todo este registo, quem recebe a vacina, onde, qual o lote da vacina, a que horas, em que instalações, qual a condição do doente, alergias, interações medicamentosas, etc. Todos estes dados são registados na plataforma que construímos em cima do sistema Salesforce. Isso ajuda a fazer a monitorização, porque um doente precisa de duas doses da vacina e entre as mesmas o médico pode olhar para a informação e avaliar se há contra-indicações e o paciente é um candidato imediatamente elegível para receber a segunda dose ou deve ser adiada para mais tarde

Se tiver uma reação adversa, pode não ser e ter de esperar mais alguns dias. Os pacientes também têm acesso a um portal onde podem registar quaisquer reações adversas à vacina.

Já estão a trabalhar com cidades ou condados nos Estados Unidos?
Estamos em discussões ativas com muitos governos regionais – estados, condados, cidades, entidades do sector privado como grandes cadeias de farmácias, fornecedores de saúde/hospitais, grandes ONG, tanto nos Estados Unidos como noutros países.

O sistema pode então ser usado em qualquer país, não só Estados Unidos?
É uma solução global. Tenho estado a falar com a nossa equipa no Reino Unido, falei com a Nova Zelândia, Austrália, estou em contacto com uma organização irlandesa. Ninguém foi poupado nesta pandemia e a vacina é a nossa última esperança. Toda a gente terá de fazer esta campanha de vacinação. Embora tenhamos começado a desenhar a solução para o mercado norte-americano, neste momento estamos em conversações globais e a falar com cerca de 15 a 20 países.

“O papel da tecnologia será grande”

Trabalharam com autoridades no desenvolvimento da plataforma?
Sim, tivemos muitas conversas e validámos junto dos nossos clientes governamentais o que estávamos a fazer.

Trabalhar hoje, com olhos postos no futuro
Será possível usar tecnologia para prevenir – ou gerir melhor – pandemias futuras?
Absolutamente. Foi com essa visão que fizemos esta plataforma. A covid-19 é a crise imediata que tem de ser resolvida, mas as capacidades disto poderão endereçar outros desafios relacionados com vacinas, incluindo pandemias futuras.

Nunca na história da humanidade de desenvolveu uma vacina em 12 meses, com tecnologia que usa as nossas partículas genéticas. É um avanço científico grande, porque a covid nos encurralou a um canto e tivemos de desenvolver coisas novas, que poderão ser usadas em pandemias no futuro.

Antecipa que haverá também avanços no setor da logística por causa desta pandemia?
Sim, absolutamente. É a primeira vez que estamos nesta situação única. Nunca tivemos a experiência de trabalhar com uma cadeia de ultrafrio assim. Há algumas drogas especializadas que precisam, e talvez o transporte de órgãos, mas não nesta escala gigante, em que temos de vacinar o mundo inteiro e é preciso manter uma vacina a -18º, -20º ou -30º. É uma lição que aprendemos. A tecnologia está a trazer ideias novas, tais como estes dispositivos de monitorização IoT e o blockchain como plataforma, para não comprometer a segurança dos dados e estes serem imutáveis desde a origem até ao destinatário final.

Desta forma, ninguém pode dizer que um camião parou a meio do caminho e houve um problema num frigorífico e a temperatura aumentou, mas não tinha registo disso e, portanto, não sabemos qual o frigorífico e quais os frascos que foram comprometidos.

É aqui que entra o sistema de IoT, GIS (localização geográfica), blockchain – tudo de forma colaborativa.

Isso quer dizer que a logística da distribuição é tão essencial quanto a ciência que desenvolveu a vacina?
Olhando para todos os aspetos, o desenvolvimento da vacina pelas farmacêuticas é um avanço científico. Mas como administrá-la? Como monitorizar os vacinados? Como gerir a temperatura, a cadeia de frio, a logística?

Estes são requisitos operacionais para que as vacinas sejam efetivamente administradas na população. Podemos ter uma excelente vacina com 95% de eficácia, mas se não pudermos administrá-la como deve ser, monitorizar a rastrear o desempenho, não é eficaz a controlar a pandemia.