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Portos

Tecnologia para potenciar os portos e os transportes

Tecnologia para potenciar os portos e os transportes

Reduzir custos operacionais, diminuir a pegada ecológica e as emissões poluentes, aumentar a eficiência operacional, ter mais e melhor informação. Estes foram alguns dos objetivos mencionados pelas 11 startups que participaram no Bluetech Accelerator. Um programa que aplica a última tecnologia ao mundo dos oceanos.

No ano passado Portugal, na figura do Ministério do Mar, e com a participação da FLAD (Fundação Luso-Americana de Desenvolvimento), levou a cabo um programa único. O Bluetech Accelerator pretendia incentivar a participação de start-ups que tinham como objetivo trazer inovação para a indústria de Portos e Navegação. De um total de 87 participações (de 29 países) foram selecionados 11. 11 projetos que foram depois testados e levados a cabo com os seis parceiros do programa: APDL – Porto de Leixões; APS – Administração do Porto de Sines e do Algarve; Grupo E.T.E.; Inmarsat; Portoline Ocean; e Tekever. Independentemente das startups e parceiros selecionados, o objetivo foi sempre o mesmo: encontrar soluções que resolvessem problemas/ desafios (reais) da indústria. Nomeadamente no que concerne à otimização de processos na zona portuária; na gestão do desempenho de carga e frota; na conetividade de navegação e ainda na sustentabilidade ambiental. Os resultados, apresentados no final do ano passado, foram mais do que satisfatórios. De tal forma que muitos desses projetos terão continuidade. A LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE ouviu todos os 11 projetos selecionados e dá a conhecê-los.

Eco Wave Power

Em parceria com a APDL e com a APS este piloto pretende aproveitar a energia das ondas e, com isso, criar energia limpa. A diferença reside no facto deste projeto ficar localizado na costa, o que facilita não só a instalação do equipamento necessário, mas também a sua manutenção. Por outro lado, não está condicionado à luminosidade, tal como a energia solar, podendo produzir energia durante as 24 horas do dia. Os equipamentos utilizados no projeto têm a “inteligência” para recolherem automaticamente caso as condições do mar sejam adversas. Um outro ponto a favor deste tipo de produção de energia, segundo a Eco Wave Power, reside no facto de ter o mesmo custo que a energia solar. Melhor ainda, Portugal tem a capacidade para gerar, segundo a Eco Wave Power, através da energia das ondas, entre 3 a 4 GW de energia. O que daria para fornecer energia a uma região com três a quatro mil casas. No caso concreto de Leixões e de Sines os estudos concluíram que têm capacidade para gerar 5 MW e entre 4,5 e 10 MW, respetivamente. Mas tão ou mais importante do que a geração de energia por si só, é o facto de esta ser uma energia limpa. Ou seja, com pouca emissão de CO2. Só para se ter uma ideia a “simples” produção de 4,5 MW de energia no Porto de Sines significa uma redução (expectável) anual de 7,864 toneladas de CO2. Energia que pode ser usada não só no próprio funcionamento dos portos, reduzindo, com isso, a sua pegada ecológica, mas também para ser injetada da rede, assumindo o papel de uma nova fonte de receitas. Isto é importante dado que, segundo dados da estratégia para as energias renováveis marítimas, elaborada pelo Governo português, o setor da energia marítima pode gerar 254 milhões de euros em investimento, 280 milhões de euros em Valor Acrescentado Bruto (VAB), 119 milhões de euros em negócio e criar 1.500 novos postos de trabalho. Este ano. Dado o potencial de Portugal, com todos os seus quilómetros de costa, e o apoio dado pelo governo, a empresa considera que o país é um bom local para investir, estando disposta a custear a instalação dos equipamentos.

Bound4Blue

Sabia que a maioria dos bens (90%) que consumimos é transportada por navios – cerca de 10 mil milhões de toneladas por ano? O que implica a existência de cerca de 90 mil navios a navegar pelos mares do planeta Terra. Com as consequentes consequências em termos de consumo de combustível – pode chegar às quatro toneladas por hora e representando 80% dos custos operativos – e de emissões poluentes. Segundo a Bound4Blue, as 16 maiores embarcações geram tantas emissões de enxofre como toda a frota mundial de veículos. O que coloca um sério desafio às companhias de transporte marítimo, dado que as regulamentações europeias obrigam a uma diminuição das emissões até 2025. E é aqui que entra a Bound4Blue. A empresa desenvolveu um sistema de velas (com a forma de asas de anjo) dobráveis e autónomas (significa que são retratáveis) que prometem
otimizar o desempenho dos navios e reduzir, até 40%, o consumo de combustível. A ideia não é substituir os motores das embarcações, mas funcionar como um sistema de propulsão complementar. Ao potenciar os ventos existentes o sistema permite reduzir o recurso ao motor principal, e com isso, diminuir o consumo de combustível e de emissões poluentes. Outra vantagem adicional, comunicada pela empresa, reside no facto de o retorno do investimento ocorrer num período de cinco anos.

SurClean

Quando se fala em navios só se pensa na sua atividade enquanto estão na água. Mas as embarcações têm de vir a terra e, principalmente têm de ser feita a manutenção das mesmas. Que inclui a limpeza dos navios. E é aqui que a SurClean entra. A empresa aposta em métodos de limpeza que utiliza ablação a laser em detrimento de químicos. O que é, por um lado, mais amigo do ambiente, mas também mais económico e rápido. Sem esquecer que é muito mais seguro para os funcionários que estão a fazer a limpeza do navio. Melhor ainda. O laser tem um nível de precisão que os atuais métodos não disponibilizam. Sem esquecer a grande diferença de custo. Segundo dados disponibilizados para empresa o investimento passa dos cerca de 29 milhões em custos operacionais (usando métodos de jato de areia) para apenas 8 milhões (recorrendo a operações de jato a laser). Mais segurança, menos tempos de paragem, menor poluição e menos custos. É esta a promessa da SurClean.

TechWorks Marine

Imagine ter, em tempo real, dados fornecidos por equipamentos oceanográficos, permitindo uma monitorização da envolvente marinha ao redor dos portos. Os sensores recolhem dados sobre a temperatura, o oxigénio na água, a salinidade da água, o pH, os hidrocarbonatos, entre outros, e envia para a cloud, sendo posteriormente analisados. Os benefícios, em termos de impacto direto são evidentes: permite a redução dos custos, elimina a necessidade de amostras manuais; é de fácil implementação; permite o envio de informação em tempo real e de forma contínua; e é simples de utilizar. Adicionalmente (e aqui entra o impacto indirecto) reduz a pegada ecológica e reduz o risco de poluição, dado que tem integrado um sistema de alertas. Este tipo de monitorizações é especialmente importante, não só pelo aumento da pressão sobre a linha costeira, mas também pela sua conveniência. Consegue dar mais dados e mais fiáveis, exigindo um investimento substancialmente menor do que os sistemas até aqui utilizados.

Sensefinity

Conseguir rastrear, em tempo real, todos os contentores. Saber onde andam, e em que condições. Isto é especialmente importante se tivermos em conta que existem, no mercado, certa de 20 milhões de contentores, espalhados por cinco milhões de navios, camiões e comboios. Um erro num desses contentores tem consequências financeiras, e não só, representativas. Os números apontam para perdas anuais na ordem de mil milhões de dólares (cerca de 900 milhões de euros) e consequente perda de 30% da carga. A utilização de tecnologias como a Internet das Coisas (IoT) permite atenuar (ou mesmo eliminar) este problema. Com uma vantagem extra. Este tipo de soluções pode ser usado não só para rastrear a carga, mas também monitorizar o seu estado. Imagine que o contentor tem carga que exige o controlo de temperatura. Ter um sistema que monitoriza e alerta em caso de anomalia assegura a qualidade da carga (no caso específico a Sensefinity deu o exemplo do pescado e da indústria farmacêutica). O resultado final permite uma redução do desperdício, do custo de transporte e das emissões (em 30%).

I4Sea

Perceber o impacto que as condições atmosféricas e as condições de mar têm sobre as operações de cada navio. Este é o objetivo do sistema criado pela I4sea: o I4cast. O facto de saber, com dias de antecedência qual o calado dinâmico para cada navio, nomeadamente no berço, na bacia de evolução e no canal de acesso permite atracagem muito mais seguras. A análise da informação disponibilizada pelos sensores permite definir qual a melhor altura, ao nível da segurança, para que os navios entrem (ou saem) dos portos. Isto é benéfico não só para as embarcações para todos os players envolvidos nas atividades portuárias. O piloto realizado em Portugal permitiu verificar que, apenas num trimestre, foram afetadas 19 operações (navios que, por algum motivo, não puderam atracar), o que significou perdas na ordem dos 2,736 milhões de euros. Com o piloto a decorrer, no Porto de Sines, e apenas no mês de setembro, realizaram-se 22 operações (mais 700 TEUs por navio), o que representou uma receita adicional de 2 milhões de euros. O facto de a aplicação disponibilizar forecasts em tempo real e com uma antecedência de uma semana ajuda a tomada de decisão no quotidiano portuário, permitindo uma maior integração entre os vários serviços.

Bizcargo

Imagine um marketplace onde encontra todos os produtos e serviços de logística, onde pode procurar e comparar os serviços de transporte e logística com soluções simples ou multimodais porta-a-porta, onde pode pedir cotações grátis, gerir as suas reservas e acompanhar a execução do transporte. Um local onde compara e adquire o serviço de logística e transporte necessário para o seu negócio e onde consegue a tramitação processual do transporte e a gestão de documentos, suportados eletronicamente. O objetivo é facilitar e tornar o processo transparente, potenciando o negócio. Adicionalmente os clientes podem adquirir serviços complementares, tais como despachos aduaneiros, seguros, crédito, embalamento, armazenamento, consolidação e desconsolidação, entre outros. Este é um serviço pensado não apenas para grandes clientes e operadores, mas também para negócios de menor dimensão, permitindo, inclusive, a entrega na porta do cliente final. Com a vantagem adicional de toda a informação estar centralizada e atualizada em tempo real. O que diminui, consideravelmente, o número de email trocados entre os vários players e reduz, drasticamente, a probabilidade de erro e, com isso, não só diminui os custos como permite uma redução do tempo da operação.

ARX Maritime

Há carga especialmente sensível à amplitude térmica. Onde a mudança de alguns graus pode danificar e causar prejuízos avultados. O piloto da ARX Maritime, realizado entre junho e setembro do ano passado, analisou a temperatura da carga, algo possível a cada 10 minutos (ou a cada x horas, dependendo do determinado). A solução não só garante a estabilidade do contentor (e com isso assegura a qualidade da encomenda) como alerta em caso de anomalia. Desta forma o cliente é beneficiado porque tem a garantia de que os produtos não sofrem alterações e o navio porque consegue gerir, com mais eficiência, o consumo de combustível (por exem
plo, a necessidade de baixar a temperatura, de forma urgente, obriga a um consumo extra) e, com isso, a uma melhor gestão dos custos de transporte. Feitas as contas, a utilização e monitorização de sensores de temperatura beneficia quer os navios, quer os clientes, mas também o meio ambiente, dado que evita utilização desnecessária de combustível.

T-mining

Aumentar a eficiência (operacional e administrativa) através do recurso a soluções de Blockchain, que asseguram a fiabilidade da informação transmitida e partilhada pelos vários players da logística e da cadeia de distribuição marítima. Em termos concretos isto permite não só a alocação dos contentores certos, no local correto, mas também que apenas o motorista com a chave especifica desse contentor o consegue retirar do terminal. Por outro lado, o recurso ao Blockchain assegura a autenticidade e fiabilidade das informações, eliminando, com isso, todo um conjunto de formulários em papel e permitindo ganhar tempo no processo. Há fase do processo que podem, inclusive, ser automatizadas, diminuindo, em simultâneo, a probabilidade de erro. Como se verificou no Porto de Leixões, assim como no Porto de Antuérpia, no de Roterdão e no de Singapura, onde a empresa também tem pilotos, a digitalização e utilização de Blockchain potencia a colaboração entre os vários intervenientes. Ou seja, permite que o negócio não só seja mais eficiente como sustentável.

Geckomatics

Imagine digitalizar o acesso aos portos e ter toda a informação necessária para permitir uma melhor operação? A Geckomatics alia Inteligência Artificial a câmaras e equipamentos de mapeamento por forma a fornecer informação essencial à passagem dos navios. Um exemplo prático? Imagine a vantagem de ter toda a informação sobre o leito do mar e da costa costeira que faz “fronteira” com o Porto de Sines. Isso permite gerir com mais eficiência a aproximação dos navios.

Sevways X3 Shipping

O recurso a aplicações móveis e à utilização de armazenamento na cloud é cada vez mais essencial ao negócio. A Sevways X3 Shipping desenvolve soluções de gestão específica para o setor da logística, com especial foco na automatização do trabalho e na visibilidade (para o cliente) das várias fases de transporte. Para conseguir isso a empresa avança com projeto em duas fases. Primeiro há que integrar as operações para permitir o correto workflow das mesmas e, depois, o reporte das mesmas, permitindo uma gestão financeira mais fiável. O objetivo final é o de, por um lado, reduzir o trabalho manual, mas, por outro, aumentar a visibilidade e usabilidade, contribuindo, desta forma, para a redução das emissões carbono e do desperdício de papel.

Mob Lab Congress 2020