Energia

A Hora H2?

Estivemos no “Laboratório do Futuro” da Daimler, em Wörth am Rhein, na Alemanha e falámos com os engenheiros que decidem o futuro de uma parte significativa da indústria automóvel. O diesel ainda está para durar como combustível que usamos para abastecer camiões, mas com as restrições ambientais a apertarem cada vez mais o cerco aos combustíveis fósseis, a solução pode ser o Hidrogénio. Explicamos porquê.

Governos e fabricantes parecem estar de acordo: é necessário reduzir a dependência do petróleo até 2030 e reduzir as emissões que provocam o efeito de estufa em 30% quando comparado com 2005. E enquanto as motorizações elétricas são, para já, a solução limpa mais viável para os veículos ligeiros de passageiros, com os pesados de mercadorias a situação pode estar a mudar: o hidrogénio liquefeito pode ser transportado em depósitos de tamanho similar aos do diesel, pesando menos:

Atualmente, um depósito de camião que leve 275 litros de diesel, pesando 200 Kg, tem uma autonomia de 800 km, e produz 490 Kg de dióxido de carbono. A estrutura do tanque de combustível pesa 17 Kg. Num camião elétrico, uma carga permite viajar 200 Km e a bateria pesa 3000 Kg (!) e, claro, não produz emissões.

Já um camião que transporte Hidrogénio Liquefeito consegue transportar 830 litros de combustível, com um peso de 58 Kg. A segurança, garantem os engenheiros da Daimler, está perfeitamente assegurada.

O principal obstáculo é a quantidade de Hidrogénio disponível. Segundo os cálculos da gigante alemã, seriam necessários 210 Milhões de toneladas de Hidrogénio por ano para suprir as necessidades energéticas para o transporte de mercadorias. No entanto, com as condições atuais, só é possível produzir 30 Milhões. Por outro lado, a distribuição do Hidrogénio teria de ser efetuada na sua forma líquida e para mover esta carga seriam necessárias 11 mil viagens do maior navio existente à data, enquanto são apenas necessárias 2600 num navio petroleiro.

A casa mãe alemã, que alberga a Mercedes-Benz, sublinha, no entanto, que irá continuar a manter o foco nas motorizações elétricas no futuro. Sobretudo no que concerne a cargas pesadas que têm de ser entregues em ambiente urbano, uma vez que o silêncio das operações é um dos fatores preponderantes. Outro é o facto destas motorizações ganharem com as constantes paragens, travagens e acelerações. Isto porque os motores podem recuperar energia destas situações.

Outra das alternativas de combustível já foi tema de capa há duas edições da LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE: trata-se do Gás Natural. Trata-se de uma energia mais limpa que o Diesel e, por isso, requer um tratamento menos complexo no sistema de escape, reduzindo custos e peso total. O Gás Natural gera, segundo a Daimler, 10% menos gases que produzem efeito estufa do que o Diesel, e 20% menos que a gasolina. Se bio metano for adicionado, as emissões são ainda mais baixas.

A tecnologia de células de combustível que a Daimler está a desenvolver usa uma reação química entre o hidrogénio e o oxigénio para gerar energia, que permite aos motores elétricos trabalhar. Aumenta a eficiência até 55%, tornando o motor mais eficiente que um motor a combustão. A opinião é consensual na comunidade científica, garantem, sobre a potencialidade da utilização do hidrogénio como fonte de energia. Até porque a única emissão daí resultante é água.

Além de ser amigo do ambiente e de ter uma elevada performance, o hidrogénio como fonte energética é fácil de transportar e permite um abastecimento rápido. São estas características que fazem os engenheiros da Daimler apostar neste combustível para o transporte de longo curso. Para isso, no entanto, é necessário expandir a rede de abastecimento de H2, praticamente inexistente na Europa.

Recorrendo à velha máxima e que quem controla a distribuição controla o mercado, há já –  para a Alemanha – um consórcio para o desenvolvimento desta rede de abastecimento, estabelecido em 2015. O H2 MOBILITY Deutschland Gmb H & Co é composto por “Air Liquide”; “Linde”; “OMV”; “Shell”; “Total” e Daimler. O objectivo é terem 400 postos de abastecimento espalhados pelo país em 2023. Neste momento existem 45. Há projetos semelhantes no Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos da América.

Muitas destas empresas fazem parte do Hydrogen Council, “um grupo de 39 empresas de energia, transporte e indústria que trabalham juntas para promover o hidrogénio como um componente-chave da transição energética”.

Este organismo prevê que, até 2050, locomotivas a hidrogénio possam substituir 20% das locomotivas a diesel, e que este combustível possa também fornecer energia a aviões e navios de carga. Ao todo, preveem que o sector dos transportes consuma menos 20 milhões de barris de petróleo por dia se o hidrogénio for adotado.

 *O jornalista viajou a convite da Mercedes-Benz