Mercados

Afinidade secular supera Brexit

A saída do Reino Unido da União Europeia vai ter consequências na relação com Portugal mas as relações comerciais entre os dois países são muito anteriores à criação da UE e não estão em causa. Ainda é cedo para fazer previsões sobre o que se vai passar, embora seja de esperar um aumento das burocracias e, talvez, um aumento dos custos do transporte. Por outro lado, é possível que Portugal beneficie nalguns aspetos, por exemplo acolhendo empresas britânicas que queiram relocalizar-se e sair do Reino Unido.

Portugal e o Reino Unido estão unidos por uma aliança comercial com mais de 600 anos de história, a mais antiga do mundo. A aliança entre os dois países foi estabelecida na Idade Média, com a celebração de dois tratados internacionais entre os reis de Portugal e Inglaterra, em 1373 e 1386. O Tratado de Windsor, assinado em maio de 1386 pelos reis D. João I e Ricardo II, confirmou formalmente a aliança que tem servido de alicerce às relações bilaterais entre ambos os países.

Esta antiga aliança teve um papel relevante em vários momentos históricos, incluindo no âmbito das duas Guerras Mundiais, e favoreceu as trocas comerciais entre os dois países, por exemplo de lanifícios ingleses em Portugal e vinhos portugueses em Inglaterra. Só no final do século XIX as boas relações foram ensombradas, quando o Reino Unido decidiu criar um corredor em África, entre a Cidade do Cabo e o Cairo, numa altura em que Portugal procurava manter o controlo do território entre Angola e Moçambique. A proposta do mapa cor-de-rosa pelos portugueses originou o ultimato britânico de 1890. Portugal recuou e as relações restabeleceram-se.

As relações económicas entre os dois países baseiam-se num volume relevante de trocas comerciais, na promoção de investimento estrangeiro e no turismo. No que respeita às trocas comerciais, o Reino Unido era, no ano passado, o quarto maior parceiro comercial de Portugal, depois de Espanha, França e Alemanha, de acordo com dados do INE – Instituto Nacional de Estatística. As exportações para aquele país totalizaram 3349 milhões de euros (6,7% do total de exportações portuguesas de bens), enquanto as importações representaram 1884 milhões de euros (3,1% das importações portuguesas de bens). O crescimento das exportações para o Reino Unido em 2015 foi superior ao crescimento global de todas as exportações portuguesas face a 2014: mais 14% no caso do Reino Unido, contra 3,7% no caso das exportações nacionais globais. No topo das exportações de bens portugueses para o Reino Unido estão as máquinas, aparelhos e material elétrico. Representaram 633,8 milhões de euros para Portugal em 2015. Segue-se o material de transporte, cujas vendas para o mercado britânico totalizaram 526,8 milhões de euros, e depois têm peso os setores têxtil e moda e alimentar e bebidas.

Oportunidades do Brexit

As boas relações comerciais que Portugal e o Reino Unido mantêm há largos séculos não serão prejudicadas pelo Brexit, que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), na sequência do referendo de 23 de junho. O secretário-geral da Câmara de Comércio Luso-Britânica (CCLB), Chris Barton, reconhece que “uma boa parte da população britânica e do resto do mundo ficou chocada e desiludida com os resultados do referendo, mas Portugal e o Reino Unido são aliados maturais, há uma grande afinidade que vai manter-se, faça ou não o Reino Unido parte da UE”.

Na sua opinião, as empresas vão ter capacidade de adaptar-se à nova realidade e poderão mesmo existir oportunidades interessantes para Portugal. Chris Barton acredita que Portugal pode ser uma excelente localização para as empresas britânicas que preveem relocalizar as suas empresas, abandonando o Reino Unido ou criando filiais na União Europeia. E não são poucas as empresas que pensam fazê-lo.

Um estudo da consultora KPMG, divulgado em setembro passado, revelou que 76% dos empresários britânicos ponderam deslocar a sede ou secções das suas empresas para o estrangeiro, como resultado do Brexit. O estudo baseia-se na consulta a 100 executivos britânicos das áreas da produção, vendas e telecomunicações, que têm lucros entre os 115 milhões e 1,15 mil milhões de euros.

“Espero que Portugal anuncie novas oportunidades para iniciativas de relocalização de empresas britânicas. Portugal tem ótimas condições para acolher empresas, em especial instituições financeiras, mas também indústrias, que queiram relocalizar-se fora do Reino Unido. Um elevado número de pessoas fala inglês, os custos imobiliários são reduzidos, há voos frequentes entre os dois países, o clima é muito bom. Há muitos fatores que tornam Lisboa, e Portugal em geral, um bom destino para as empresas que pensam abandonar Londres ou o Reino Unido”.

Com o Brexit “haverá uma tendência natural para aumentar os custos de transporte”, admite Chris Barton. Na sua opinião, “é errado e perigoso especular, sem haver mais fatos” e “para já o Reino Unido continua a ser parte da UE”. De qualquer forma, o responsável defende que Portugal e o Reino Unido devem “criar acordos comerciais para determinados tipos de produtos, como os vinhos, por exemplo”.

Complicações burocráticas

O Brexit deverá trazer, num primeiro momento, “um aumento de movimentações dos cidadãos do Reino Unido para os seus países de origem, assim como de portugueses para as suas terras maternas, perspetiva o Sales Manager da empresa de mudanças internacionais, transportes internacionais e serviços de relocation GIR – Global International Relocations. Na sua opinião, será uma fase momentânea a que se seguirá um aumento das complicações burocráticas.

De qualquer forma, Luis Duarte considera que não vai existir uma quebra de movimentações substancial. “Os recursos humanos continuam a ser uma mais-valia muito importante e Portugal tem um conhecimento muito forte e importante, em áreas como as tecnologias e a indústria, para um mercado como o do Reino Unido”.

Luis Duarte acredita que países como a Irlanda irão beneficiar com a saída do Reino Unido da UE, pela sua proximidade geográfica e benefícios às empresas. Acredita também que o Brexit trará dificuldades em termos alfandegários, mas acredita que poderão ser ultrapassadas por acordos semelhantes aos realizados com a Suíça. “Todavia, poderá haver complicações pela posição que a CE poderá implementar no sentido de afastar o Reino Unido”, nota.

Já Peter Dawson, Presidente do Grupo Garland, considera prematuro, nesta fase, comentar o que quer que seja sobre o Brexit, porque ainda se desconhecem as condições em que o mesmo se realizará. “Apesar disso, considero que continuam a existir condições favoráveis à manutenção das relações comerciais entre Portugal e o Reino Unido e acredito que as mesmas se manterão como até aqui”.

Na sua opinião, tem havido desde sempre boas relações entre as populações portuguesa e britânica, o que gera bons negócios entre os dois países, os quais existem há séculos. “Para que as relações de negócios continuem a existir e se prolonguem, apenas é necessário produzir produtos de qualidade e com vantagens competitivas para o mercado inglês, e vice-versa”.

 Transportes para todos os gostos

 As empresas britânicas que se dedicam à exportação / importação têm vantagens em negociar com Portugal, em que os transportes são frequentes em todos os modos: rodoviário, marítimo e aéreo. Viajar entre Portugal e Inglaterra também é fácil, com saídas e chegadas de avião a todo o momento em Lisboa, Porto e Faro.

Na opinião do Presidente do Grupo Garland, a oferta de serviços de transporte entre Portugal e o Reino Unido é “mais do que suficiente e inclui saídas diárias expresso, saídas diárias de paqueteria, saídas diárias de paletes, saídas diárias de avião. Todos os serviços são premium. Depois, há serviços de economia de contentor e camião pelo menos duas vezes por semana. Como em todos negócios, há serviços bons e maus, mas todos a preços competitivos”, afirma Peter Dawson.

Também Luis Duarte, da GIR – Global International Relocations, está satisfeito com as opções de transporte existentes entre os dois países. “Os transportes são eficientes e, de certo modo, competitivos. Temos várias opções em termos logísticos, tanto no modo marítimo como no rodoviário ou mesmo aéreo. Em termos de capacidade não temos tido motivos de queixa, pois têm uma frequência  semanal, o que é suficiente para o volume que temos para este país”, explica.

Prós & Contras

Oportunidades 

  • A ligação histórica entre os dois países favorece a afinidade.
  • Os ingleses geralmente gostam de Portugal pela boa comida, bom clima, boa oferta hoteleira e pela hospitalidade da população. Todos estes fatores ajudam ao negócio.
  • Em Portugal, uma grande parte das pessoas fala inglês.
  • Há muitas oportunidades no mercado britânico, onde cada categoria de produto tem centenas de marcas. Há sempre espaço para uma nova marca.
  • A rede de transportes é ótima, seja para as mercadorias, com transportes frequentes via camião, contentor ou aérea, seja para passageiros, com saídas e chegadas de avião a todo o momento em Lisboa, Porto e Faro.
  • O mercado é mais maduro e mais competitivo, o que reforça as aprendizagens de competitividade corporativa e favorece as experiências de formação.
  • O Reino Unido tem uma cultura rica e diversificada e há fácil acesso a outros mercados dentro da Europa.
  • O reconhecimento e progressão corporativa são mais significativos e constantes do que, por vezes, em Portugal, o que gera motivação.

Dificuldades, riscos e ameaças

  • O mercado britânico é mais sofisticado do que muitos outros. Para vencer não basta ter experiência internacional e sucesso noutros mercados, como o espanhol ou o italiano.
  • Conte com um investimento avultado no marketing e no branding para conseguir afirmar o seu produto/marca.

Conselhos para ser bem-sucedido

  • Antes de exportar/investir no mercado britânico prepare-se bem! Entre as medidas preparatórias considere um estudo de benchmarking exaustivo sobre o setor onde quer entrar, que inclua informações sobre preços, embalagens, distribuidores, etc.
  • Prepare-se para grandes audiências e diferentes públicos. Quando expõe nas grandes feiras que decorrem no Reino Unido não terá apenas de enfrentar compradores britânicos, mas de muitos outros países, como o Médio Oriente, a Rússia ou a Escandinávia.
  • Quando pensar na Grã-Bretanha não pense apenas em Londres. É verdade que é um mercado único, mas há muitas geografias a ter em conta e cada uma tem as suas especificidades.
  • Antes de entrar no mercado britânico defina claramente quem é o seu mercado-alvo: os consumidores individuais, retalhistas, grossistas, distribuidores?
  • O e-commerce ou vender a lojas especializadas, por exemplo de produtos gourmet, se for o caso do seu produto, pode ser uma boa primeira abordagem ao mercado britânico. Permite colocar o produto no mercado e obter reconhecimento, sem necessidade de investir numa loja física, armazém e serviços de distribuição.

Câmara de Comércio Luso-Britânica

Os apoios com que pode contar

Fundada em 1911, a Câmara de Comércio Luso-Britânica tem como missão promover os interesses dos seus 400 membros, promovendo as ligações comerciais e negócios entre o Reino Unido e Portugal. Para isto desenvolve um programa de eventos de networking, promove a ida de delegações de expositores portugueses a feiras no Reino Unido e disponibiliza um conjunto de serviços, quer para os membros quer para os não membros.

Alguns dos serviços com que pode contar são pesquisas de mercado, organização de eventos, certificação e autenticação de documentos, ações de marketing e promocionais, serviços de tradução, serviços de interpretação / tradução simultânea e facilitação de contactos e encontros.

Grupo Garland

“Inglaterra continua a ser um dos nossos principais serviços terrestres”

O Grupo Garland iniciou as suas relações comerciais com o Reino Unido em 1973, com um serviço de importação e exportação entre Lisboa e Southampton, através do ferry Eagle. “Tínhamos um parceiro em Londres que exportava produtos de consumo e importava 80% de têxteis. O ferry era semanal e transportava passageiros, viaturas ligeiras e camiões. Desde então mudámos de parceiro duas ou três vezes mas, desde 1984, mantemos um serviço de transporte terrestre, via Espanha e França, movimentando entre 20 e 30 camiões por semana”, recorda Peter Dawson, Presidente do Grupo Garland.

Hoje a empresa assegura saídas à terça-feira e à sexta-feira de Portugal e nos mesmos dias de Inglaterra, com tempos de trânsito de quatro dias e entregas nas principais cidades de Portugal e Inglaterra em 24 horas. O serviço tem como destino/origem Lisboa, Marinha Grande, Aveiro e Maia (em Portugal) e Londres, Hinckley (Birmingham) e Manchester (em Inglaterra). Este serviço é apoiado pelo serviço de contentores via marítima e carga aérea.

O serviço com a Inglaterra continua a ser “um dos nossos principais serviços terrestres dentro da Europa”.

Peter Dawson e Bruce Dawson - Garland

Os principais produtos de exportação são têxteis, calçado, moldes, metalomecânica, mármore, mobília, cerâmica e componentes para a indústria automóvel. De Inglaterra, chegam essencialmente produtos de consumo e matérias-primas para as principais indústrias nacionais.

A Garland oferece um serviço de recolha de carga na fábrica, armazenagem (que inclui picking, preparação de encomendas e distribuição por todo mundo), dispondo de mais de 85 mil m2 de área logística de norte a sul de Portugal, equipada com o software Warehouse Management System, que permite ao cliente fazer o track and trace da carga. “Temos clientes estrangeiros, incluindo britânicos, que produzem em Portugal e usam os serviços da Garland na preparação e expedição de encomendas para o destino final. Na importação, temos capacidade também para receber os produtos do exportador inglês nos nossos armazéns, fazer o picking e a preparação das encomendas e distribuí-las até ao cliente final em Portugal”, conclui Peter Dawson.

GIR – Global International Relocations

“Reino Unido é um dos  mais fortes mercados na mobilidade internacional”

O Reino Unido é, desde sempre, um mercado especial para esta empresa dedicada à prestação de serviços nas áreas das mudanças internacionais, transportes internacionais, serviços de relocation, armazenagem, embalagens especializadas e outros serviços específicos relacionados com as mudanças internacionais.

KODAK Digital Still Camera

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“É um dos  mais fortes mercados na área de mobilidade internacional, não fora um dos países com mais nacionalidades ali residentes, assim como um país onde temos muitas sedes de multinacionais e universidades muito conceituadas. Todos esses fatores influenciam a que haja muitos movimentos para o  Reino Unido, e dado que não realizamos apenas movimentos de Portugal, mas sim de todo o mundo, acabamos por ter este como um mercado bastante bom”, explica Luis Duarte, Sales Manager da GIR.

Enquanto empresa de mobilidade internacional, a GIR tem como serviços disponíveis mudanças internacionais de bens pessoais, transportes de animais domésticos, serviços de  Relocation e Imigration, assim como serviços de apoio às famílias durante o tempo que estiverem no Reino Unido.