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“As soluções digitais ganharão cada vez mais um posicionamento determinante no setor logístico”

De acordo com o Guia do Mercado Laboral 2019 da Hays, 2018 foi um ano positivo para o setor da Logística e Supply Chain. A crescente escassez de profissionais altamente qualificados para o setor colocará uma enorme pressão salarial num mercado já bastante concorrencial. Tiago Ribeiro, manager da Hays Portugal, explica os desafios que este setor encontrará para este ano.

O setor da Logística e Supply Chain apresentou uma clara tendência de crescimento, revela o Guia do Mercado Laboral 2019 da Hays. Por um lado os prestadores de serviços e operadores logísticos apostaram na inovação e eficiência das suas operações; do lado do cliente final, assiste-se a uma modernização e profissionalização dos quadros, num mercado cada vez mais competitivo.

No atual contexto de aumento de competitividade, aumentaram os novos investimentos em tecnologias inovadoras nas áreas de Automação, Robótica e Mecatrónica, que trouxeram grande potencial para aumentos de produtividade e eficiência.

A competição pelos melhores talentos potenciará também um reforço de benefícios e uma maior preocupação e esforço na apresentação de projetos atrativos e inovadores aos profissionais do setor, como fator diferenciador entre as diversas propostas apresentadas entre empresas concorrentes.

Em entrevista exclusiva à LOGÍSTICA & TRANSPORTES HOJE, Tiago Ribeiro, manager da Hays Portugal, traça o que será o ano de 2019 em termos de dinâmicas de recrutamento.

Que correlação faz entre o crescimento económico registado em Portugal nos últimos dois anos e a tendência de crescimento no mercado laboral no setor da Logística e Supply Chain e quais os maiores desafios colocados tanto a empregadores como a profissionais?
É inequívoco que o setor de Logística e Supply Chain tem sido um dos principais impulsionadores deste crescimento. Muito em parte, pelo elevado volume de exportações e importações, mas de igual modo pelo fato de as grandes empresas procurarem parceiros que maximizem eficiências ao nível das várias tipologias de transporte a custos competitivos. Dada a atualidade de crescimento económico e forte competitividade, os parceiros logísticos apostam cada vez mais em soluções integradas e adaptadas à realidade de cada cliente. A melhoria tecnológica e em ferramentas Lean surgem cada vez mais como fatores de diferenciação nesta realidade. Profissionais que igualmente dominem e desenvolvam estas matrizes, são certamente valorizados por estes empregadores.

Os fortes investimentos a nível tecnológico por parte do setor da Logística e Supply Chain parecem não afetar o mercado laboral. Contudo, é generalizada que, em determinadas funções, mais qualificadas, existe uma lacuna muito grande na oferta. Como é que os empregadores poderão ultrapassar estas dificuldades?
Cada vez mais os principais players com capacidade de investimento apostam na modernização das suas operações e inovação de ferramentas que possibilitem aos seus clientes obter informação em tempo real. Por sua vez, os clientes do sector logístico procuram igualmente parceiros que apostem na modernização das suas infraestruturas tecnológicas. Esta aposta possibilita que estas empresas prestadoras de soluções logísticas se tornem pilares importantes ao nível do crescimento dos seus clientes.

A procura por profissionais qualificados nas posições mais críticas tornou-se, portanto numa luta feroz dentro do mercado, onde o fator salarial voltou a ter um certo peso.

Por outro lado, profissionais com experiência acima da média a nível operacional, liderança, técnicas e gestão de equipa, serão certamente valorizados.

Isto quer dizer que a “vantagem” está do lado de quem procura um novo desafio profissional e não tanto do lado de quem emprega e que a pressão poderá significar um aumento salarial?
Sem margem de dúvida que atualmente assistimos a um candidate led market e que isso se traduz num aumento da pressão salarial para posições mais qualificadas. Estamos perante uma realidade de forte competitividade pelo talento, sendo que o fator salarial/projeto será preponderante. De igual modo, empresas com planos de desenvolvimento de carreira efetivamente implementados, terão melhores possibilidades de “captar” e reter este talento. Atualmente o candidato detém possibilidade de oferta variada para mudança, sendo que irá optar por aquela que reunir maiores e melhores perspetivas de crescimento, quer ao nível de condições, responsabilidades, mas igualmente de carreira.

Por outro lado, Portugal precisa de valorizar a experiência. Temos talento sénior de altíssima qualidade disponível para novos projetos e que constituiria uma enorme mais-valia para organizações que necessitam de pontos de vista mais experientes para contrabalançar as suas equipas jovens.

Cada vez mais high-tech
O mercado laboral no setor da Logística e Supply Chain está a tornar-se cada vez mais tecnológico? Que desafios e oportunidades poderão surgir deste novo paradigma?
Atualmente existe uma grande procura por perfis com conhecimentos destas metodologias, (Lean, SIX SIGMA, 5S). Antes associávamos estas metodologias às indústrias mais avançadas (automóvel), agora tornou-se transversal a outros sectores inclusive ao logístico. Permitem a redução de custos, eficiência dos processos, etc.. A valorização destes profissionais será cada vez maior.

“As soluções digitais ganharão cada vez mais um posicionamento determinante no setor logístico” [1]O facto de muitos dos clientes do setor da Logística e Supply Chain estarem a enveredar por ofertas cada vez mais digitais nas vendas (e-commerce) significa que a tendência de um setor cada vez mais tecnológico será reforçada?
As soluções digitais ganharão cada vez mais um posicionamento determinante no setor logístico, sendo que soluções e-commerce detém no imediato um peso importante nos principais players ao nível de volume de vendas e mecanismos operacionais. Contudo, apesar de haver uma aposta clara nesta tipologia, os canais tradicionais irão certamente manter-se e evoluir, acompanhando o crescimento tecnológico. Contudo é claríssimo que o canal e-commerce terá um papel fulcral no sector logístico e supply chain.

Da teoria à prática
As instituições de ensino na área da Logística e Supply Chain estão a formar profissionais capazes de entrar neste mercado de trabalho cada vez mais desafiante, pressionante e tecnológico?
Tem havido claramente uma melhoria da oferta de formação para o setor. Cursos de Gestão da Distribuição e Logística, Engenharia e Gestão Industrial, Formações Lean e Pós-Graduações em Supply Chain Management, têm evoluído favoravelmente.

Existe sem margem de dúvida uma melhor preparação pedagógica e prática a nível de formação no setor. Contudo, é fulcral haver igualmente uma integração eficiente ao nível de estágios, projetos, que permitam aos profissionais transitar eficazmente para realidades operacionais.

Que benefícios poderá um empregador oferecer, de modo a tornar a sua oferta mais atrativa para o profissional? Existem outras formas de “cativar” os profissionais a optarem por determinadas ofertas laborais?
Empresas com planos de desenvolvimento de carreira efetivamente implementados, terão melhores possibilidades de “captar” e reter este talento. Fatores como benefícios, ambiente de trabalho, reputação da empresa no mercado, possibilidades de formação terão igualmente impacto. 82% dos empregadores pretendem recrutar em 2019.

É urgente que as empresas nacionais procurem acompanhar, dentro das suas possibilidades, os exemplos mais atrativos do mercado. Centenas de empresas estrangeiras estão a entrar no país, apresentando uma estratégia de employer branding forte, planos de carreira reais e pacotes salariais igualmente atrativos.

“As soluções digitais ganharão cada vez mais um posicionamento determinante no setor logístico” [2]Com o mercado laboral cada vez mais sob pressão no setor da Logística e Supply Chain verifica-se, contudo, que o interesse numa mudança de emprego está a decrescer e as perspetivas indicam que assim se manterá. Qual a razão para esta análise?
Este é um paradigma geral e não apenas no setor Logístico e Supply Chain. Assistimos de há dois anos para cá a uma realidade de forte intenção de recrutamento por parte das empresas e a uma maior resistência à mudança por parte do empregador. O fator oferta salarial vem em primeiro lugar, sendo que atualmente o candidato guia-se muito em função do projeto, sustentabilidade do mesmo e perspetivas de evolução/desenvolvimento de carreira. Existe de igual modo um aumento das políticas de retenção por parte dos empregadores, sendo que a contraproposta cada vez mais acontece.

Existem algumas discrepâncias quando analisadas as médias salariais entre Lisboa e Porto. A que se deve esta realidade?
Eventuais discrepâncias salariais entre Lisboa e Porto, têm vindo cada vez mais a sofrer uma redução. Lisboa tem um forte pólo logístico terrestre, assim como o Porto detém um posicionamento forte ao nível marítimo. De igual modo, o tecido industrial tem grande peso a este nível, mais concretamente na zona Centro / Norte, realidade que igualmente tem vindo a evoluir na capital.

A tendência será cada vez mais de haver uma uniformidade de oferta salarial entre estas duas zonas geográficas em que o gap seja minimizado. Contudo, haverá exceções, sendo que irão variar consoante o setor de negócio da empresa e não tanto pelo perfil/competências do candidato.

Denota-se que este ainda é um setor com um perfil profissional claramente masculino. Acredita que no futuro poderá existir uma alteração desta realidade e aparecerem mais mulheres no setor?
É uma conotação que tem vindo a diminuir. Cada vez mais assistimos ao género feminino a assumir posições de relevo e cariz estratégico no setor. A tendência será claramente de equilíbrio entre os dois géneros.

*este artigo foi originalmente publicado na edição 138 da revista LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE