Transportes

“Estamos a trabalhar para construir o camião do futuro”

“Estamos a trabalhar para construir o camião do futuro”

Depois da nova ronda de financiamento, em fevereiro, a startup sediada em San Diego tornou-se oficialmente um unicórnio. A TuSimple vale agora mil milhões de dólares e está a executar um plano agressivo de desenvolvimento para pôr a sua tecnologia de condução autónoma em frotas comerciais dentro de poucos anos.

A LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE falou com o diretor de relações públicas da empresa, Robert Brown, sobre a ambição da empresa neste mercado prestes a explodir – o dos camiões de mercadorias que não precisam de condutor.

A TuSimple obteve uma nova ronda de financiamento. Será usada para expandir a frota de camiões autónomos?

Sim, estamos muito entusiasmados – ainda temos os balões-unicórnio nos nossos escritórios (risos). Temos 11 camiões e queremos ter 50 em junho, fizemos essa preparação antes do anúncio. Teremos uma frota mista com dois tipos de camiões.

Quantos clientes têm neste momento?

Já temos mais clientes do que capacidade para os servir. É um bom problema para ter. Estamos muito entusiasmados para trabalhar com todos eles, vai ser um grande ano para a TuSimple. Temos agora 13 clientes e à medida que vamos tendo mais camiões poderemos aumentar a capacidade,

Onde estão a operar os vossos camiões?

No Arizona, e vamos expandir para o Texas. Será a primeira rota capaz de realmente mostrar o potencial desta tecnologia, já que vamos atravessar a fronteira de múltiplos Estados a utilizar a condução autónoma.

O Texas é um Estado excelente para trabalhar nisto, as autoridades são ótimas. Tal como o Arizona, criaram já um caminho legal para a utilização comercial de camiões autónomos.

Alguma zona específica do Texas?

A primeira será por El Paso e a segunda mais para leste.

Que tipo de empresas estão interessadas neste serviço de transporte autónomo?

É um misto de expedidores, frotas e empresas de manufatura. Tem sido bom para podermos treinar o sistema com aspetos diferentes do mercado de transporte.

Os camiões são autónomos em todas as condições de viagem?

Autonomia de nível 4. Resolvemos os problemas com a chuva e ventos fortes, com tempestades de poeira o protocolo é encostar. Ainda não abordámos a neve, não a temos no Arizona, mas está na lista de condições climatéricas que estamos a resolver.

É sempre necessário ter pelo menos uma pessoa dentro dos camiões que vão a conduzir autonomamente?

Sim. O sistema ainda está a ser desenvolvido e temos que o validar para chegar ao ponto em que temos a confiança para não precisar de pessoas lá dentro. Temos um condutor de pesados certificado atrás do volante enquanto testamos o sistema, bem como um engenheiro no lugar do copiloto.

Os nossos camiões ainda não estão no nível comercial mas já são bastante robustos.

Robert Brown, Diretor de Relações Públicas da TuSimple

 

Há algum tipo de mercadoria que ainda não podem testar?

Estamos apenas a transportar carga do tipo pacotes e parcelas. Usamos o tamanho standard de 16,5 metros que se veem habitualmente na estrada.

O que é que vos diferencia de outras startups e grandes empresas que estão a tentar fazer o mesmo?

Penso que é a nossa tecnologia e a forma como ela se relaciona com as decisões de negócio. Todas as outras startups estão a falar de condução autónoma nas autoestradas – o que é excelente e relativamente fácil, quando comparado com outros níveis de autonomia. Mas nós automatizamos a condução desde um centro de distribuição para o outro, ou seja, passando pelas estradas locais. Essa tecnologia vai escalar. Ter apenas autonomia na autoestrada e com isso precisar de ‘hubs’ de transferência é, no mínimo, uma complicação logística. No nosso caso, a tecnologia insere-se bem nas frotas e expedidores existentes. Será mais uma ferramenta na sua caixa de ferramentas, que pode ser usada de imediato em vez de obrigar a reinventar a forma como se movimentam mercadorias neste país.

Ultrapassar o ceticismo

Qual a recetividade das empresas a esta proposta, tendo em conta que ainda há muito ceticismo e que houve alguns acidentes mediáticos com veículos autónomos no último ano?

Para nós, a chave é a transparência. Os clientes podem vir andar nos nossos camiões. Somos uma das poucas companhias que pomos a nossa tecnologia assim em demonstração para que clientes, responsáveis governamentais, meios de comunicação possam ver. A indústria como um todo precisa de fazer um trabalho melhor ao nível da transparência, para construir confiança junto do público e da indústria motorizada, para mostrar que estes veículos são seguros.

Que características demonstram isso?

Os nossos camiões conseguem “ver” até um quilómetro de distância, 360º à sua volta em todos os momentos, nunca ficam cansados, nunca têm sono, não enviam mensagens de texto no telemóvel. É como ter um condutor ultra-vigilante em todos os momentos a monitorizar a situação.

“Um condutor de pesados faz muito mais longas horas na autoestrada, que é o problema que a autonomia consegue resolver”. 

Se os camiões são melhores, como fica esta área de emprego?

Os condutores profissionais são excelentes e valorizamos o que eles fazem. Mas dá para notar à nossa volta na estrada que muitos condutores são maus. Um veículo que consegue “ver” todos os espelhos retrovisores ao mesmo tempo, à frente e atrás, é um elemento de segurança muito importante.

A vossa visão é de que estes camiões venham a circular sem condutor, ou haverá sempre necessidade de ter humanos associados?

Será ambos. Estamos em conversações com clientes. Veremos algumas rotas a ligar centros de distribuição em que os camiões serão totalmente autónomos sem ninguém lá dentro, e depois veremos rotas em que haverá humanos devido a necessidades de segurança ou suporte ao cliente. E também veremos situações em que é preciso ter um condutor humano naqueles últimos quilómetros, por exemplo do centro de distribuição até à porta da loja. Ainda não conseguimos resolver essa parte.

Transformar uma indústria

Estamos então a falar de uma transformação dos empregos na indústria dos pesados, em vez da simples substituição de pessoas por máquinas?

Um condutor de pesados faz muito mais que longas horas na autoestrada, que é o problema que a autonomia consegue resolver. A indústria está com dificuldade em recrutar novos condutores para as rotas de longo-curso, porque implicam estar fora de casa durante meses e a geração Millennial não aceita isso. A idade média dos condutores de pesados era 49 há alguns anos e agora é 55. É um sector que está pronto para uma disrupção positiva.

A TuSimple pretende licenciar a sua tecnologia ou mantê-la de forma proprietária?

Teremos uma abordagem faseada. A fase um é construir a frota da TuSimple, em que transportamos mercadorias para os nossos clientes. Estamos a fazer no curto prazo para validar o sistema nas perspetivas ambiental e de segurança, para que os reguladores e a sociedade fiquem familiarizados com a tecnologia. Estamos a trabalhar para construir o “camião do futuro”, com empresas OEM, usando o pacote de tecnologias TuSimple. Aí poderemos tornar-nos no que queremos, operando o software e os serviços.

Que horizonte temporal prevê para isso?

Três a quatro anos. Do ponto de vista tecnológico, a TuSimple deverá estar pronta para licenciar dentro de dois anos, mas são precisas outras coisas para fazer acontecer.

Têm planos de expansão para fora dos Estados Unidos? 

Sim, queremos ser um OEM neutro para camiões elétricos. Gostaríamos de entrar na Europa, já me disponibilizei para ir quando chegar a altura.

Como poderão destacar-se das outras empresas que estão a investir no mercado?

Por causa das regulações, trabalho de perto com os nossos concorrentes e respeito todos. Tento não ter a ‘conversa’ do marketing, mas acredito realmente que somos os líderes deste espaço e vamos continuar a sê-lo, devido à vantagem tecnológica que temos.