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“Mesmo o 5G vai ser obrigado a coexistir com as redes que existiam anteriormente”

“Mesmo o 5G vai ser obrigado a coexistir com as redes que existiam anteriormente”

Antes de muitos dos desenvolvimentos que têm avançado a indústria automóvel em direção à autonomia, a Veniam antecipou tendências e desenvolveu um software que permite gerir as ligações às redes e pôr os veículos a comunicarem entre si e com a infraestrutura. João Barros, CEO da Veniam, explicou à LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE porque considera que a indústria não terá necessariamente de optar por um ou outro standard e que a coexistência será inevitável.

Quanto mais se ouve e fala da influência das tecnologias no nosso dia-a-dia, mais certeza existe de que estamos perante algo que não é uma possibilidade longínqua, mas que, de facto, é já algo do presente e que ditará o futuro. O 5G não é/será a única tecnologia disponível, mas o certo é que todas as novas soluções virão abrir uma panóplia de novas funcionalidades e o setor automóvel e, consequentemente, os transportes serão influenciados e terão novos caminhos a percorrer.

O 5G vai trazer uma diferença gigante ao V2X?
O C-V2X não é necessariamente 5G, é um standard separado. A diferença é que se baseia nos protocolos usados pelas redes celulares dos operadores de telecomunicações, enquanto que o DSRC é muito mais parecido com o Wi-Fi tradicional e, portanto, mais anárquico. A diferença entre o C-V2X e o DSRC é semelhante à diferença entre o celular e o Wi-Fi. Vemos que hoje ambos têm o seu lugar no ecossistema, as redes celulares são muito centralizadas e controladas pelo operador e as redes Wi-Fi são mais distribuídas.

Algum dos protocolos é melhor?
Vejo vantagens tanto num como outro. A Veniam faz a gestão dessas ligações todas de forma agnóstica, e, portanto, acreditamos que a melhor solução para os sistemas de mobilidade e para os fabricantes de automóveis é terem um software de rede inteligente que permite tirar o maior partido de todas as redes existentes, quer seja Wi-Fi tradicional, Wi-Fi para os veículos, C-V2X ou redes celulares. Mesmo o 5G vai ser obrigado a coexistir com as redes que existiam anteriormente.

Quando pensamos num cenário futuro em que os veículos estarão conectados e a comunicar, o ideal é que possam aceder a redes diferentes?
Exatamente. Da mesma forma que os smartphones têm várias interfaces wireless e vão acedendo às várias redes conforme elas estão disponíveis, e muitas vezes é o próprio utilizador que decide, o mesmo se aplica aos veículos. Até hoje os veículos não fizeram isso porque os únicos dispositivos que existiam ligavam os veículos à rede através de um cartão SIM celular. A partir do momento em que estão a sair da fábrica também com o Wi-Fi tradicional, há a possibilidade de se ligarem a redes desse tipo.

Uma das grandes novidades que a Veniam trouxe para o mercado foi permitir aos fabricantes automóveis e operadores de sistemas de mobilidade ligar aos milhões de hotspots Wi-Fi que existem, até porque alguns operadores de cabo transformaram os routers em casa das pessoas em hotspots Wi-Fi públicos, em que há um canal privado para a pessoa e um canal público. É uma oportunidade gigantesca para os veículos fazerem upload e download de dados mesmo quando estão a andar a 30 km/hora, a uma fração do custo do celular.

Os chipsets V2X já estão a ser preparados para Wi-Fi e 5G em simultâneo?
Se olharmos para as tecnologias específicas para veículos, já existem chipsets tanto com DSRC como C-V2X. E há fabricantes, como a Autotalks, que põem os dois no mesmo chipset.

O país mais rápido a adotar esta tecnologia é a China e vai ser Cellular V2X. Todos os fabricantes com que trabalhamos, quer nos EUA quer na Europa e Japão, estão a acelerar os seus roadmaps para incluir estes chipsets a partir de 2021, para poderem operar na China.

“Mesmo o 5G vai ser obrigado a coexistir com as redes que existiam anteriormente”

O software desenvolvido pela Veniam é uma camada que fica entre o chipset e o dashboard?
Correto, e depois tem também componentes na cloud que fazem a orquestração de todos os fluxos de dados. Permitimos aos operadores de logística e de frotas e aos fabricantes automóveis definir na cloud quais são as políticas de acesso às várias redes que os veículos vão utilizar. O nosso software traduz para regras locais que os veículos seguem.

Vemos também que as frotas e os fabricantes automóveis utilizam para funções diferentes. Outros já descobriram que os dados que têm acerca das ruas e sensores dos veículos, são muito valiosos para as frotas e logística mas também para mapas nos futuros carros autónomos, seguradoras ou até comércio, por aí adiante, e todas as aplicações de smart cities podem beneficiar muito do tipo de informação urbana que os veículos vão recolhendo.

Há alguma coisa no 5G tenha que seja uma vantagem em relação ao Wi-Fi, e vice-versa?
O 5G promete ter uma latência mais baixa que as outras redes e largura de banda muito superior. Só que aquilo que promete e a realidade não é bem a mesma coisa. Enquanto que no 4G temos raios de transmissão de 3 quilómetros, no 5G são 350 metros; isso implica instalar muito mais equipamentos em prédios e casas. Conseguir locais e arrendar 10 vezes mais equipamento é um problema muito grande, quer financeiro quer operacional. Vamos ter ilhas em que os operadores colocam 5G em zonas densas, onde precisam de largura de banda, porque conseguem aceder a partes do espetro que não conseguem com o 4G ou Wi-Fi.

Quer dizer que não vamos ter uma cobertura completa em todo o lado, nem sequer nas cidades. O 5G vai coexistir com o 4G. Daí a importância de haver um software de rede inteligente como o da Veniam, que consiga tirar o máximo partido de todas as interfaces.

Além da segurança, que outros benefícios traz o V2X?
Vale a pena salientar o potencial enorme da comunicação veículo-a-veículo além da segurança. O que também provámos é que podemos utilizá-la para partilhar conteúdos, mapas, informação de tráfego, atualizações. Porque é que cada veículo há-de ir buscar um mapa por ligação celular quando o pode fazer de forma segura e mais barata a partir do veículo que está ao lado? A Veniam foi pioneira nesta tecnologia e acreditamos que esse é um caso de utilização muito relevante para a comunicação veículo-a-veículo, que até agora a indústria não tinha considerado.