Logística

O cliente pede, eles entregam

O cliente pede, eles entregam

De moto ou bicicleta (elétricas ou não), os novos serviços de entregas provam que a oferta de conveniência está em crescimento em Portugal.

Entre as 21h e as 4h, a Night Shift resolve dois problemas de uma vez só: o habitual encerramento das mercearias e supermercados neste horário e a sua falta de vontade de sair de casa. Fundada em outubro do ano passado por Miguel Sena e Bernardo Uva, esta startup portuguesa dedica-se à entrega de produtos de mercearia à noite. A ideia surgiu quando os dois sócios — o primeiro com um percurso na área do marketing e o segundo na área da educação física, mas também da logística e eventos — estavam a jantar em casa e surgiu a vontade de beber mais um copo de vinho. Sem nada no frigorífico, nem na garrafeira, como explicam no website da empresa, nasce então a ideia de criar um serviço de entregas profissional noturno, que neste momento entrega produtos de mercearia, cigarros, bebidas alcoólicas, saca-rolhas, pinças e carregadores de telemóvel um pouco por toda a Lisboa.

Miguel Sena diz que a Night Shift é fruto tanto da perceção de uma lacuna no mercado, como da alteração dos comportamentos de consumo. “Continuo a trabalhar noutra empresa [na área de marketing] e percebi que houve uma alteração dos hábitos de consumo. Antes, as pessoas ou traziam uma marmita para o almoço ou encomendavam pizza. Entretanto, começaram a aparecer vários projetos, e vi que indivíduos entre os 40-50 anos começavam já a encomendar pratos como bacalhau à Brás”, explica. “Na maioria dos serviços de entregas que tínhamos utilizado, a experiência tinha sido amadora. Talvez fosse altura de entrar no mercado”.

O cliente pede, eles entregamDisponível apenas em plataforma web — «mas com bom comportamento mobile», garante Miguel —, a empresa demorou cerca de sete a oito meses a ser operacionalizada. Um ponto diferenciador é a ausência de intermediários: “Temos stocks próprios, o que nos garante prazos de entrega mais rápidos e um preço mais competitivo. Comparamos preços e, em cerca de 80% a 85% dos casos, o nosso preço é igual ao do Continente. Em produtos mais óbvios, que não se conseguem comprar aquela hora, cobramos mais”, salienta o fundador.

Com cerca de 470 referências ativas, a Night Shift oferece uma experiência simples ao utilizador: este tem de inserir a sua morada para perceber se se encontra na área de entregas da empresa (que vai do eixo Restelo-Parque das Nações no sul de Lisboa, passando pelo Lumiar, Telheiras e Benfica a norte), selecionar o que quer comprar, e fazer check-out. É nesta fase que lhe são pedidos dados como o nome, NIF, morada e forma de pagamento, que pode ser realizado por MBWay, PayPal ou através de uma referência multibanco. “Não gostamos de apontar tempo de entrega. No passo antes da confirmação da entrega, damos uma estimativa, que geralmente é de 20 a 30 minutos”, explica Miguel Sena, acrescentando que o tempo médio decorrido entre a encomenda e a chegada dos produtos é de 22 minutos. Já o custo médio de entrega é de €2,65, mas funciona por tarifa dinâmica, à semelhança da Taxify ou Uber. “Se vamos demorar mais, o cliente paga menos. É quase uma questão de quanto mais procura há, menos paga, mas não é linear”. As entregas são feitas atualmente em scooters normais (a empresa tem um número variável de estafetas, entre dois a cinco), mas o objetivo é que seja feita apenas em motos elétricas no futuro, assim que a empresa tenha capacidade para lidar com a sua autonomia mais reduzida. “Esta questão tem uma influência gigante para uma nanoempresa. Nascemos agora e ainda não temos capacidade para isso”, assume o fundador.

Com um histórico de mais de mil entregas em apenas quatro meses de atividade, um dos maiores segredos operacionais da Night Shift é a localização da sua unidade de armazenamento de stock. Miguel Sena revela apenas que se situa “num local que cumpre todas as normas de segurança alimentar HCCP de uma mercearia aberta ao público”. Já outro dos segredos da marca é quais são os produtos mais vendidos: “É um dado valioso, saber o que as pessoas gostam de consumir à noite”, diz o fundador. Contudo, Sena explica que existem três segmentos claros de clientes — estudantes, jovens adultos que moram sozinhos (35-45 anos) e clientes mais velhos, entre os 45 e 55 anos, a que chama de early adopters, ou seja, pessoas que aderiram rapidamente e que compram produtos mais caros, que muitas vezes nem são de primeira necessidade. “É neste último segmento que começamos a ter os clientes que procuramos, compradores com maior poder económico e que fazem as compras de fim de semana connosco para não saírem de casa, por exemplo”. No geral, estes segmentos compram produtos que não se encontram em mais lado nenhum em horário noturno, como carregadores de telemóvel — que entraram no portefólio da empresa quase como brincadeira e têm vendido bem —, “gulosos”, isto é, tudo o que seja doce, como gelados e gomas; e congelados, como pizzas, lasanhas e gelados.

O cliente pede, eles entregamEmbora não revele o volume de vendas até agora, Miguel Sena diz que a Night Shift já ultrapassou, em quatro meses de operação, as estimativas que os dois sócios haviam feito para os primeiros seis meses de negócio. O sucesso, afirma, passa também por uma curadoria contínua dos produtos, que exige grande atenção a tendências e aos pedidos dos clientes. “Estamos a fechar acordos com mais dois fornecedores finais, mas o crescimento passa pela consolidação e expansão para outros sítios. Há duas zonas à volta de Lisboa onde queremos atuar até ao verão e que representam uma expansão natural para nós, e temos recebido muitas solicitações do norte do País”. Por agora, o objetivo seguinte é conseguir garantir a venda de produtos frescos. “Não temos hortaliças e uma mercearia sem hortaliças não é uma mercearia”, conclui.

A última milha
A operar no segmento de business to business (B2B) e não para o consumidor final (pelo menos não diretamente) está a Ecoscooting, uma empresa espanhola que faz parte do mesmo grupo que a firma de aluguer de scooters B2B Cooltra, e da sua respetiva subsidiária, a eCooltra, que introduziu uma rede de partilha de scooters elétricas no mercado luso. Tirando proveito da frota, armazém e conhecimento local da casa-mãe, a Ecoscooting iniciou atividade no nosso País em fevereiro de 2017 e passou de algumas milhares de entregas no início de 2018 para mais de dez mil em dezembro do ano passado, um número que a empresa prevê duplicar ou triplicar até ao final deste ano.

A firma espanhola opera no segmento da “última milha”, ou seja, no passo final do processo de entrega a partir de um centro de distribuição suburbano para o utilizador final. “Para lhe dar um exemplo, pode compreender a entrega de bens de uma instalação nos arredores de uma cidade para o seu centro, ou até entre localizações no mesmo centro urbano”, explica Robain de Jong, CEO da Ecoscooting. “A última milha é a parte mais cara dos custos totais de logística, representando até 58% destes, e, ao mesmo tempo, é uma tremenda dor de cabeça, por causa da substancial diferença entre como os fornecedores tradicionais a executam e o que os consumidores esperam em termos de experiência de entrega. É também notoriamente baixa em investimento tecnológico”, salienta.

O que a Ecoscooting fez foi alterar este panorama através de tecnologia desenvolvida internamente e que proporciona opções de entrega flexíveis, como intervalos de entrega de uma a duas horas, realização de alterações de última hora, e o seguimento em tempo real com notificações altamente personalizáveis — opções que agradam a muitas empresas.

Segundo Robain de Jong, a empresa tem clientes em três segmentos principais: a distribuição de bens alimentares, retalho e e-commerce (especialmente supermercados), e operadores de logística. A primeira, diz, é o tradicional modelo de recolha no restaurante e entrega ao cliente final, enquanto a segunda se dirige mais a lojas e supermercados que entregam as compras aos seus clientes ao domicílio. Já a terceira, acrescenta, permite a entrega eficiente e económica de pacotes nos centros urbanos com a ajuda da aplicação móvel Ecoscooting Play, que é completamente personalizável.

O cliente pede, eles entregamCom uma frota de motos 80% elétrica (e com esperança de chegar aos 100%, assim que a autonomia dos veículos o permita), a Ecoscooting realiza entregas na zona da Grande Lisboa, Almada e Braga. “Contudo, há planos de expansão para outras grandes cidades”, assegura o CEO. Quanto a limites de dimensões de entrega, Jong explica que não há restrições de tamanho e peso, já que quando a empresa não consegue fazer a entrega nas suas scooters, que contam com uma caixa com capacidade para 210 litros, recorrem a outro tipo de veículos, como carrinhas movidas a gás natural. “Por exemplo, para os nossos clientes de supermercado, trabalhamos geralmente com carrinhas. Porém, 90% da nossa frota é composta por scooters e, em linha com a filosofia do grupo, estamos convencidos de que a micromobilidade (elétrica) é o futuro da mobilidade urbana, também no segmento de transportes”.

O modelo de negócio da empresa aloca equipas próprias de condutores e scooters a cada um dos seus clientes, ou seja, a Ecoscooting não recorre a condutores freelancer. Atualmente, a firma tem cerca de 60 pessoas a trabalhar para si em Portugal.

Já do lado do cliente, estes podem aceder ao serviço através de uma plataforma web ou pela app, podendo controlar em tempo real a localização do condutor (através de geolocalização) e obter informações sobre o horário e a prova de entrega, como uma fotografia dos bens ou a assinatura do cliente final.

Glovo a preço fixo
A provar que os nossos vizinhos ibéricos estão mesmo com um pé no setor da logística em Portugal, surge um nome que dispensa apresentações: a Glovo. A empresa iniciou atividade em Barcelona, em 2015, e entrou no mercado nacional, mais concretamente em Lisboa, em outubro de 2017. A chegada ao Porto deu-se uns meses depois, em março de 2018. “Os portugueses aderem com facilidade a novas tecnologias e a comodidade que a Glovo oferece através da aplicação para pedir, para comprar, recolher e entregar tudo é muito apreciada”, sublinha Oscar Pierre, fundador e CEO da Glovo.

A operar não só nos centros urbanos, mas também nas áreas circundantes — Algés, Alfragide, Almada, Amadora, Belém, Benfica e Matosinhos — o serviço de entregas via scooter ou bicicleta tem um preço médio de entrega de €1,9, dependendo do tipo de estabelecimento e da distância entre a morada do utilizador e a loja ou restaurante que lhe irá fornecer o produto. O modo de utilização é semelhante ao de outros serviços de entregas presentes no mercado, sendo efetuado através da aplicação móvel da empresa, e o tempo de entrega médio é de 30 minutos.

«Lançámos recentemente uma inovação que consiste na possibilidade de, mediante o pagamento de uma avença de 5,99 euros/mês, efetuar o número de pedidos que desejar, com exceção da categoria “qualquer coisa” e “recolha/entrega”. É um lançamento inovador, único, que traz muitas vantagens aos utilizadores e aumenta a dinâmica comercial da Glovo de forma exponencial no mercado português», garante Oscar Pierre.

O cliente pede, eles entregamAfirmando que a empresa se encontra em crescimento em Portugal e que está a contratar novos funcionários, o CEO explica que a Glovo conta atualmente com cinco mil estafetas independentes que fazem log in na sua plataforma e que se deslocam maioritariamente de moto ou bicicleta. Já o número de entregas realizadas ou a sua faturação anual são valores que se recusa a revelar.

Com um perfil de clientes que “não é estanque”, a empresa espanhola responde às necessidades tanto de particulares, como de empresas (através do serviço Glovo Business). “Tanto podemos ser contactados por famílias, que querem fazer um jantar e pedem KFC; ou por um estudante universitário, que comemora o aniversário e quer que lhe entreguemos tudo para a festa; ou mesmo por alguém que vive sozinho e que quer encomendar sushi e um vinho especial para passar um bom momento”, enumera Oscar Pierre.

A restauração é a área de maior sucesso da empresa espanhola — “Provavelmente, porque é uma área que já tem alguma tradição de takeaway, mas sobretudo porque os nossos parceiros correspondem a múltiplos gostos”, diz o CEO —, mas a comodidade das compras entregues em meia hora em casa, através da parceria da Glovo com os supermercados Continente, é outro dos maiores segmentos da firma. Além disso, os pedidos de outros tipos de produtos estão também a crescer: “A variedade dos pedidos é infinita, tanto pode ser um objeto íntimo, como uma pizza ou sanduíche especial”.

Frisando que o seu core business é a tecnologia e que a empresa pretende ser “a referência em termos de apps de entregas, tanto em Portugal como a nível global”, a Glovo quer expandir a sua área de operação de forma “muito intensa” em Portugal este ano. “Tivemos várias rondas de investimento de grande sucesso, uma de 115 milhões e outra de 134 milhões de dólares e, portanto, somos uma startup que desperta interesse e que continua a evoluir globalmente de forma consistente”.