Mercados

Países Baixos: mercado incontornável

O país das túlipas é um dos mais importantes parceiros económicos de Portugal. Os Países Baixos deverão continuar a ser uma “âncora segura e indelével” para as exportações nacionais, segundo o delegado da AICEP naquele país.

Ao longo da última década as relações comerciais entre os dois países têm-se mantido estáveis e recentemente têm-se mesmo intensificado. Nota-se, da parte dos Países Baixos (também conhecida com Holanda), um renovado interesse em Portugal, visível no aumento do turismo, mas também no interesse por parte da indústria, potenciais investidores e prestadores de serviços, de acordo com a Secretária-geral da Câmara de Comércio Portugal Holanda (CCPH). “Podemos verificar isso mesmo no aumento de start ups fundadas por holandeses em Lisboa”, exemplifica Marjon van Dinther.

Tem existido uma aproximação entre os dois países, que favorece o desenvolvimento das relações comerciais. A vinda dos reis da Holanda, no ano passado, contribuiu positivamente para o reforço de laços entre os dois países. Como explica a responsável da CCPH, “temos uma expressão na Holanda que diz: o desconhecido não é amado. Neste momento, o público holandês parece estar mais familiarizado com Portugal, de modo que os empresários holandeses mais facilmente tomam o passo de pensar em Portugal como destino de expansão para as suas atividades”.

Também os portugueses estão “muito mais ativos” no campo de exportação para a Holanda, diz Marjon van Dinther. “O limiar para fazer negócios com a Europa do Norte agora parece ser menor para muitas empresas portuguesas”.

Já são mais de 2500 as empresas portuguesas que exportam regularmente para a Holanda, o que comprova o interesse dos nossos empresários neste mercado, que é visto como uma alternativa à expedição para outros mercados comunitários. Já empresas holandesas que exportam para Portugal serão quase 3500.

A vantagem das reexportações

Os produtos mais exportados são sobretudo calçado de couro, petrolíferos refinados, amino-resinas, plásticos, sulfato de celulose química, pastas e papel, produtos agrícolas, vinho, máquinas e vestuário.

Já no que respeita a investimentos portugueses na Holanda, há poucos setores representados. “Só conhecemos algumas fábricas e investimentos ligados à cortiça, embalagens, agro-alimentar”, diz Marjon van Dinther.

Miguel Porfírio, da AICEP, acha que as boas perspectivas para as empresas portuguesas que querem apostar na Holanda vão continuar, até porque as perspectivas para a economia holandesa são positivas. Este ano prevê-se um crescimento de 3,1% do PIB, o que “ultrapassa as expetativas mais otimistas”. O setor da construção deverá continuar a ser o motor da economia e o desemprego deverá continuar a baixar.

Por outro lado, o interesse da Holanda para as empresas portuguesas advém ainda da posição de destaque da Holanda como país exportador, para a qual muito contribuem as reexportações, que constituem cerca de 40% das vendas ao exterior. “Com um grau de abertura da economia bastante acima dos 100%, a Holanda é hoje o oitavo maior importador e o quinto maior exportador a nível mundial”, explica Miguel Porfírio. Os principais parceiros comerciais da Holanda são os dois países limítrofes, a Alemanha e a Bélgica, seguidos do Reino Unido e da França.

Exportações crescem

A Holanda mantém a quinta posição como fornecedor de Portugal e a sexta como cliente. No turismo é o quinto maior mercado emissor. No ano passado, as exportações para a Holanda aumentaram 337 milhões de euros. “Foi o sexto maior contributo para o crescimento total das exportações nacionais em 2017”, nota o delegado da AICEP na Holanda.

Segundo dados do INE – Instituto Nacional de Estatística, as exportações portuguesas para a Holanda cresceram 18%, no ano passado. Foi o maior aumento entre os dez maiores destinos no continente europeu. Este incremento ocorreu em 19 dos 20 grupos de produtos mais exportados para a Holanda, com destaque para as prestações dos combustíveis, produtos agrícolas e químicos, com crescimentos entre os 30% e os 59%. Os combustíveis são o produto mais exportado, representando 15% do total, seguidos de perto pelo calçado, com 13% de quota, e dos plásticos, com 12%.

Nos últimos cinco anos, Portugal viu as exportações para a Holanda aumentarem 22%, de acordo com informação da AICEP. O crescimento das exportações contribuiu para o desagravamento significativo da balança comercial bilateral desde 2011.

Não obstante o grande desenvolvimento das relações económicas bilaterais registado nos últimos anos e da colaboração em muitas áreas, há ainda muitas oportunidades de cooperação entre as empresas portuguesas e holandesas em múltiplos setores, como os bens alimentares e bebidas, vestuário e calçado, tecnologias de informação e tecnologias do ambiente.

No que respeita às importações de produtos provenientes da Holanda, estas aumentaram 18%, relativamente a 2016, segundo dados do INE. No top está o grupo de produtos “máquinas e aparelhos”, com um quarto do total exportado para Portugal. Seguem-se os químicos e os produtos agrícolas. Estes três grandes grupos representam cerca de metade do total das exportações holandesas com destino ao nosso país.

Transporte mais caro

Depois da Polónia, os camiões de mercadoria holandeses são os que mais serviços internacionais fazem, 80% dos quais para os países vizinhos, Alemanha e Bélgica.

Miguel Porfírio, da AICEP, explica que “os fluxos de transporte de mercadorias com Portugal ‘padecem’ do sentimento geral no mercado, caracterizado pelo esmagamento das margens de lucro, não obstante o aumento do índice de preços: o aumento foi de cerca de 14%, entre 2016 e 2017”.

Este aumento explica-se por dois fatores: a escassez de motoristas de transportes internacionais, por um lado, e o fato de a procura ser maior que a oferta, por outro. “É expectável que o lucro das empresas transportadoras venha cada vez mais a ser procurado num planeamento mais eficaz e no aumento da eficiência de processos”, diz Miguel Porfírio.

O transporte de mercadorias por via marítima entre Portugal e a Holanda tem vindo, nos últimos tempos, a ganhar maior preponderância para os portos holandeses, principalmente o de Roterdão, nomeadamente o tráfego Ro-Ro – Roll on Roll off. “O tráfego com o nosso país foi mesmo um dos que denotou uma maior taxa de crescimento. De uma forma geral, os navios vão cheios no sentido Holanda-Portugal”, nota o responsável da AICEP.

A Alimentativa, agência de produtos alimentares que presta serviços na distribuição de produtos alimentares em Portugal e Espanha, assim como na exportação da Península Ibérica para a Europa, e principalmente a Holanda, nunca sentiu problemas com a oferta de transportes entre Portugal e a Holanda, nem no sentido contrário. “A relação preço-qualidade é boa”, garante Ron Franken Beheer, gerente da empresa.

Também Júlio Silva, gerente da Transportes Moura, empresa que colabora com o mercado holandês desde o ano 2000, considera que há uma grande oferta de transporte, e regularidade nesse transporte, entre Portugal e a Holanda.

Prós e Contras

Benefícios

  • O mercado holandês conta com 18 milhões de habitantes e um elevado poder de compra. Além disso, a Holanda é uma porta aberta para outras latitudes.
  • A Holanda tem uma localização estratégica: na porta da frente da Europa, constitui o trampolim perfeito para o mercado europeu, com acesso em 24 horas a 95% dos mercados de consumo europeus mais lucrativos, a partir de Amesterdão ou Roterdão.
  • As comunicações são, regra geral, fáceis e diretas.
  • As empresas holandesas são normalmente pagadores de confiança e a 30 dias.
  • Alguns produtos portugueses têm conseguido maior reconhecimento no mercado holandês nos últimos anos, como o calçado e o vestuário, mas também o setor de moldes e Tecnologias de Informação.
  • Por regra, as reuniões não se prolongam para além do horário oficial de trabalho. Todos os níveis de hierarquia da empresa respeitam este princípio, que vem do hábito de preservação da vida privada.

 

Desafios

  • Prepare-se para enfrentar um clima competitivo e um mercado maduro e exigente em termos de qualidade e eficiência. Quem vence no mercado holandês tem boas perspectivas de sucesso noutros países.
  • A forte concorrência, que vem de muitos países, gera muita pressão ao nível dos preços. Nem sempre os exportadores portugueses conseguem suficiente competitividade económica.
  • É precisa muita agilidade para dar resposta às exigências das empresas holandesas, que querem negociar produtos de qualidade e entregas atempadas.
  • Há o risco de tornar-se “also-ran”, pois já quase tudo existe, vindo de outros países.
  • As empresas holandesas têm geralmente pouco conhecimento de Portugal e dos seus produtos.
  • Nem sempre a qualidade dos nossos produtos é apreciada pelos consumidores holandeses. “Por exemplo, não percebem nada de azeite”, diz Ron Franken Beheer, gerente da Alimentativa.
  • Continua a ser importante educar o consumidor holandês, para justificar o preço mais alto de um produto, mas é uma tarefa dispendiosa e de lento retorno.
  • Nem sempre os exportadores portugueses têm capacidade de resposta, o que gera alguma desconfiança por parte do comércio holandês e dificulta a colocação dos produtos no mercado.

 

Conselhos

  • É preciso dar a conhecer Portugal e os seus produtos às empresas holandesas e aos consumidores. Quando há conhecimento, normalmente há reconhecimento, a impressão é excelente e as competências valorizadas.
  • Tenha em conta as diferenças de estilo de negócio entre os dois países, de modo a adaptar-se melhor ao mercado.
  • Planeie rigorosamente as negociações com os empresários holandeses e agende reuniões com várias semanas de antecedência.
  • Valorize a comunicação direta: os holandeses não dedicam muito tempo a “subterfúgios”. Dizem o que pensam, o que torna os processos de negociação, em geral, bastante rápidos.
  • Aposte numa atitude de rápida resolução de problemas: se não conseguir entregar uma encomenda a tempo, informe os seus clientes o mais cedo possível e forneça alternativas possíveis.
  • Antes de iniciar o processo de expansão da sua empresa peça apoio às entidades que podem aconselhá-lo em termos de negócio e ajudá-lo a abrir portas a clientes e distribuidores. É o caso da AICEP e da Câmara de Comércio Portugal Holanda.
  • Procure confirmar os acordos assumidos, para não dar espaço ao comprador/importador de recuar.