Opinião

Porque o e-commerce não está a acompanhar o crescimento da Internet em Portugal?

Porque o e-commerce não está a acompanhar o crescimento da Internet em Portugal?

Recentemente, a Boston Consulting Group apresentou um estudo sobre o impacto do digital na economia portuguesa.

Neste estudo, a consultora afirma que o digital é preponderante na vida dos portugueses, mas que ainda existe bastante espaço para crescer – o que é possível de observar factualmente na pesquisa. Entre outros dados, a BCG afirma que o digital puro corresponde a quase 5% do PIB português, apresentando um gap de 3,3% em relação à fatia do digital no PIB de outros países – ou seja, bom, mas com capacidade de melhorar.

No entanto, a parte que nos chamou mais a atenção neste estudo foi a secção que diz respeito ao e-commerce. Segundo a eCommerce Foundation, em 2016, Portugal apresentava uma diferença de 40 pontos percentuais entre a penetração da Internet e as compras online.

Por isso tentámos entender o porquê deste gap entre a utilização da Internet e penetração do hábito de compras online.

Uma das maiores razões principais, se não a maior mesmo, para existir uma boa penetração da internet na vida dos portugueses, deve-se à infraestrutura de telecomunicações em território nacional. Se não existe uma boa base que permita a conexão à Internet, as pessoas não se podem efetivamente ligar à Internet.

E tal também foi estabelecido pela BCG. Segundo o estudo da consultora, “o atraso português na economia digital não parece dever-se à falta de investimento em infraestruturas”.

Isso é possível observar, por exemplo, pelo investimento em peso da Altice em infraestrutura de fibra ótica, tal como pela sua aposta no negócio móvel. Este tipo de investimentos é o que permite a que 77% dos lares portugueses estejam ligados à Internet – e a razão pela qual se prevê um salto para 84% até 2020, segundo o mesmo ensaio da Boston Consulting.

Assim, quando olhamos para o digital, de forma geral, é possível concluir factualmente que existe uma infraestrutura que permite o crescimento e desenvolvimento da Internet.

Porém, uma grande componente da economia digital é o e-commerce, e nesta área existe sérias melhorias a ser feitas em relação à infraestrutura.

Infraestrutura: ponto positivo para a Internet, pontos a melhorar para o e-commerce
Recentemente, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) divulgou um estudo que analisa a preparação económica de um país para apoiar o comércio eletrónico.

Este estudo abrange 151 das economias mundiais, sendo que oito dos dez principais países do índice são europeus. A Holanda é o país mais bem classificado, seguido por Singapura, Suíça e Reino Unido. Os países do Norte da Europa também estão entre os países mais bem preparados para compras online, uma vez que a Islândia, a Noruega, a Suécia e a Dinamarca estão representados no Top 10.

Outros países europeus, como Alemanha, Áustria, França e Bélgica, estão, respetivamente, na 16.ª, 22.ª, 23.ª e 28.ª posição.

No entanto, Portugal, quando comparado com o resto da Europa, não se apresenta tão bem no ranking.

Enquanto outros países do Sul da Europa, como Espanha, Grécia e Itália ocupam posições mais acima, respetivamente, a 38.ª, 40.ª e 44.ª, Portugal situa-se na 56.ª posição. Desta forma, Portugal é um dos países europeus mais abaixo na lista da UNCTAD, sendo apenas “ultrapassado” pela Geórgia, Albânia e Arménia.

De forma a entender o porquê desta posição mais baixa, examinámos os quatro principais indicadores responsáveis por este ranking: percentagem de indivíduos que utilizam a Internet, percentagem de indivíduos com uma conta numa instituição financeira ou com serviços móveis capaz de fornecedor dinheiro (acima de 15 anos), servidores de Internet seguros (por 1 milhão de pessoas) e Índice de Confiabilidade Postal. E após uma breve análise, constatámos que Portugal pontuou muito pouco no Índice de Confiabilidade Postal, ou seja, na parte de logística, embora tenha sido bem classificado nos outros indicadores do estudo. Então decidimos investigar o significado deste índice.

Porque o e-commerce não está a acompanhar o crescimento da Internet em Portugal?

Mark Bastiaanssen, CEO e Co-fundador da Shiptimize, e Catarina Fonseca, Content Creator da Shiptimize

Índice de Confiabilidade Postal
Este Índice de Confiabilidade Postal foi criado pela União Postal Universal (UPU) e combina quatro componentes principais:

  • Pontuação de Alcance, que captura o nível de internacionalização das operações pelo número de redes parceiras e pelo volume de intercâmbios internacionais;
  • Pontuação de Relevância, que tem como objetivo avaliar a competitividade dos serviços postais em todos os segmentos-chave, e medir a intensidade da procura de serviços postais completos;
  • Pontuação de Resiliência, que avalia a capacidade dos serviços postais de resistir a choques externos através de modelos de negócios adaptáveis e que indica o nível de diversificação dos fluxos de receitas, a capacidade de inovar, adaptar e integrar o desenvolvimento sustentável nas operações postais.
  • E a Pontuação de Confiabilidade, que reflete o desempenho dos serviços postais em termos de velocidade e previsibilidade de entrega em todos os principais segmentos de serviços postais físicos.

E, embora o índice de confiabilidade seja exatamente o que procuramos, neste estudo, eles fornecem apenas a pontuação média global que combina esses quatro aspetos e mede o desempenho geral de um país.

Assim, no geral, entre 173 países, Portugal ocupa a 71.ª, o que mostra uma grande disparidade dentro da região – Espanha situa-se em 53.ª. Já em relação à pontuação média global, a média dos países industrializados é de 67,9, sendo que a pontuação de Portugal é de 40,9.

E qual é a razão por trás dessa discrepância? Bem, de acordo com a UPU, as assimetrias regionais no desempenho Postal em termos dos quatro critérios principais – confiabilidade, alcance, relevância e resiliência – são mais provavelmente atribuídas à falta de investimento na atualização e transformação da infraestrutura postal.

O que é que isto tudo significa?
Tal como afirma o estudo da Boston Consulting Group, determinadas infraestruturas estão bem estabelecidas em Portugal, como é o caso da infraestrutura da internet.

No entanto, como foi comprovado pelo estudo da UNCTAD, no que diz respeito à infraestrutura logística em Portugal, a situação não aparenta estar tão bem.

E como a logística é uma das partes mais importantes para o funcionamento do e-commerce, e o e-commerce é um ponto vital para o crescimento da economia digital, as infraestruturas postais necessitam de ser melhoradas para, em última instância, melhorar a economia digital portuguesa.

Deste modo, se Portugal pretende nivelar o seu e-commerce, o seu governo, reguladores e players de mercado deveriam investir e criar políticas e regulamentações para impulsionar este elemento crítico que é a infraestrutura logística nacional. E, felizmente, já podemos ver isto a acontecer.

Entre algumas das ações a decorrer, é possível observar que os CTT já estão a investir em equipamentos postais automatizados, e que existe um investimento Ministério da Economia em Portugal, que pertence ao Plano Estratégico dos Transportes e Infraestruturas que pretende “assegurar a mobilidade e acessibilidade de pessoas e bens em todo o território nacional, de forma eficiente e adequada às necessidades”.

No entanto, apesar destas mudanças serem essenciais para o desenvolvimento e melhoria da logística no longo prazo, existem possíveis soluções que as lojas online podem implementar hoje.

Empresas maiores podem ter a sua própria infraestrutura de distribuição ou armazéns locais nos seus principais mercados. No entanto, estas soluções estão fora do alcance de pequenos e médios e-commerces. Por isso, estas lojas online podem utilizar softwares de gestão de envios, que permitem direcionar envios para transportadoras diferentes, cada uma com pontos fortes específicos. Desta forma, as lojas online podem usar a melhor opção possível para cada entrega, melhorando o seu processo logístico ao máximo.

Este artigo foi, originalmente, publicado na edição 141 da revista Logística&Transportes Hoje.