Supply Chain

Seja bem-vindo à supply chain 4.0

Seja bem-vindo à Supply Chain 4.0

Robotização, inteligência artificial, indústria 4.0. Avanços de uma revolução tecnológica que já faz parte da logística atual. Que exigências traz esta evolução? O que esperar no futuro? O setor está pronto para a revolução? Fomos ouvir os especialistas.

Já é uma realidade: a inovação tecnológica já chegou ao setor. A indústria 4.0 acarreta desafios e oportunidades ao supply chain. A LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE foi ouvir o representante de uma consultora e de uma empresa logística para nos ajudarem a traçar o futuro – que já é o presente, em certa medida – desta revolução digital. O futuro digital da supply chain é agora. Estarão as empresas nacionais preparadas? Segundo o estudo ‘Digital Supply Chain Management 2020 Vision’, publicado pela SAP, 90% dos CEO acreditam que a economia digital terá um grande impacto na sua indústria, mas apenas 25% têm um plano de digitalização elaborado.Não há tempo a perder. A velocidade é grande, as mudanças já estão a ocorrer e os clientes estão mais exigentes. “Querem o desenvolvimento e a entrega de produtos / serviços mais rapidamente, pelo que as organizações devem transformar os seus processos de negócio de forma a reduzir tempos de resposta”, refere o estudo da SAP. O documento apresenta uma visão geral das melhores práticas do mundo digital na cadeia de abastecimento, com o apoio de várias empresas líderes de mercado que aceitaram partilhar a sua visão acerca dos desafios e tendências atuais e futuras.O estudo concluiu que as empresas de retalho que adotaram a transformação digital mais rapidamente, “aumentaram as suas receitas em 9%, valor de mercado de 12% e rentabilidade em 16%.” E em Portugal, como é que o setor está a adaptar as novas tecnologias?

“O setor tem evoluído positivamente, com um maior dinamismo por parte dos seus agentes e uma crescente aposta na inovação tecnológica, com várias empresas a dar passos relevantes na transformação digital das suas cadeias de abastecimento. Várias empresas têm vindo a desenvolver iniciativas de revisão e otimização das suas cadeias de abastecimento, desafiando as suas configurações atuais e procurando evoluir de acordo com novos modelos e soluções. É também evidente, na generalidade dos setores, a melhoria consistente dos padrões de eficiência e nível de serviço”, começa por explicar Diogo Santos, Associate Partner da Deloitte.

Apesar das perspetivas positivas, o responsável considera que ainda há trabalho a fazer. “Considero que continua a faltar uma condição de base para que o setor nacional dê um salto disruptivo: a evolução para uma lógica de ecossistema, em que os agentes core do setor colaboram entre si e as entidades adjacentes à esfera da supply chain (e.g. tecnológicas, fornecedores de equipamentos e serviços, meio académico), participam de forma ativa na reflexão e transformação do setor nacional.”

Da parte das empresas, a GEFCO Portugal já sente na prática os efeitos da revolução tecnológica. “Os principais desafios da supply chain são a digitalização com tudo o que isso implica: gestão da informação (Big Data), sistemas de informação de apoio às operações, tecnologias avançadas de planeamento e execução operacional, integração tecnológica com todos os parceiros da cadeia de valor, robotização, sistemas inteligentes de transportes e veículos autónomos, impressão 3D, entre outros. Para além destas questões mais tecnológicas, os outros desafios mais relevantes são as questões ambientais, a diminuição do impacto ambiental das cadeias de abastecimento e ainda a questão das novas competências necessárias para se trabalhar num ambiente de grande mudança tecnológica e comportamental”, explica José Costa Faria, diretor comercial & marketing da empresa.

O foco tem de estar sempre “no ator que recebe o serviço imediatamente a seguir, seja o cliente B2B, seja o consumidor final. A cadeia de abastecimento, que é cada vez mais uma rede de procura, tem intervenientes a darem e a receberem serviços em permanência, em função do local onde se encontram nessa rede”, acrescenta.

GEFCO - SI - Logística e Transportes Hoje

A revolução digital é hoje incontornável. Como conseguir então que as várias empresas, com diferentes competências humanas e diversos agentes consigam acompanhar as tendências? Diogo Santos considera que “sem pessoas com as competências necessárias, as novas tecnologias não poderão ser capitalizadas e todo o seu potencial ficará por explorar. Adicionalmente, nenhuma empresa reúne as condições (capacidade de investimento e know-how) para, de forma autónoma e independente, capitalizar todo o potencial desta supply chain 4.0: será necessário, por exemplo, capitalizar a rapidez de inovação e os novos modelos de negócio de start-ups, beber do conhecimento especializado das empresas tecnológicas, adotar modelos de co-investimento entre entidades de diferentes naturezas (incluindo concorrentes) e estabelecer modelos colaborativos com partilha de dados e informação entre fornecedores e clientes.”

Inteligência artificial

O mundo da logística já beneficia da chamada ‘Inteligência Artificial’. Realidade Aumentada, Smart Glasses, Pick-by-Vision, simuladores nos processos de armazenagem (what-if scenarios), sensores inteligentes, inventários efetuados por drones, gestão dinâmica de rotas, etc. “Tudo isto já está disponível no mundo da logística e da supply chain e ficaremos impressionados daqui por cinco anos quando relermos estas palavras. A tecnologia vai mudar mais o setor, nesse período, mais do que mudou nos últimos vinte anos”, defende José Costa Faria. “Existem assim várias áreas da supply chain em que a inteligência artificial agrega diferentes tipos de dados para suportar de forma mais eficaz o processo de tomada de decisão, como por exemplo, demand management, alimentado por um melhor conhecimento dos padrões de procura, permitindo otimizar stocks (minimizar os mesmos e as ruturas), e manutenção, alimentado por um melhor conhecimento da performance e dos comportamentos de falha dos equipamentos”, explica Diogo Santos. E acrescenta: “A inteligência artificial simula a capacidade humana de raciocinar, perceber, resolver problemas e elaborar soluções, aplicando-a na análise e filtragem de dados provenientes de diferentes tipos de sensores, na interpretação de dados e na recomendação de medidas/ ações em função dos valores recolhidos.”

As maiores exigências, no lado das empresas, prendem-se com a necessidade de “apostar no conhecimento, na inovação, na criação de valor, na capacidade de gerir várias gerações de pessoas no seio da organização retirando o melhor de cada uma delas. Se o setor quiser continuar a ser um fornecedor low-cost, não lhe antevejo grande futuro”, defende José Costa Faria.

A GEFCO está neste momento “num processo de transformação para deixar de ser um transitário convencional para ser um integrador logístico com uma visão end-to-end da supply chain dos seus clientes, integrando-se com eles para melhor conceberem as suas necessidades logísticas futuras. A aposta na tecnologia está em marcha e a grande experiência que temos num dos setores mais exigentes em termos logísticos [o setor automóvel], coloca-nos numa posição privilegiada para partilhar e transferir conhecimento, tanto do ponto de vista setorial, como geográfico”, diz-nos o representante da empresa.

Há dois meses, foi lançado o serviço GEFCO Special, um serviço “time critical, 24/7/365, utilizando o modo rodoviário na Europa e aéreo em todo o mundo, capaz de responder às exigências mais críticas e urgentes dos clientes, em situações limite.” A empresa está hoje em condições de partilhar com os seus clientes “a pegada de CO2 de cada envio / expedição individual que lhe for confiada, independentemente do modo de transporte utilizado.”

Os avanços tecnológicos tornam mais exigentes os processos. Para Diogo Santos, algumas das maiores exigências passam pelo seguinte: “colaboração e partilha entre os diversos agentes do setor, capitalizando os ativos de diversas entidades por oposição a esforços ‘solitários’ e a título individual de cada empresa; capacidade de investimento para adotar as novas tecnologias e práticas, já que a menor escala das empresas nacionais limita a sua capacidade a este nível e desenvolvimento das competências dos quadros do setor, sem as quais os investimentos tecnológicos terão um retorno abaixo do seu potencial”, conclui.