Logística de Produtos Sensíveis

Soluções adaptadas geram valor especializado

Soluções adaptadas geram valor especializado

Cada vez mais os operadores logísticos têm de apresentar propostas de valor diferenciadas em diversos segmentos da indústria com produtos sensíveis, incluindo o setor alimentar e de alta tecnologia. As empresas procuram garantir a qualidade no manuseamento de encomendas com conteúdo classificado como frágil, especialmente nos negócios de e-commerce, em franco crescimento e cujas exigências do transporte e distribuição destes produtos não só estão em conformidade com os procedimentos para o canal tradicional, como até os superam.

O transporte de produtos ditos ‘sensíveis’ – devido às suas características, perigosidade ou fragilidade -, como alimentos frescos e congelados, medicamentos ou equipamentos tecnológicos, sempre se fez e faz-se hoje de forma crescente, mas no que respeita aos cuidados e desafios que o mesmo implica, bem como à evolução de unidades de negócio especializadas para os mesmos, este é um tema pouco debatido.

A LOGÍSTICA & TRANSPORTES HOJE (L&TH) reuniu a perspetiva de duas transportadoras e três empresas de retalho, a propósito das operações logísticas que realizam com este tipo de produtos, quer para entrega de mercadoria nas lojas quer em plataformas de e-commerce.

“Existem múltiplas estratégias de resposta às necessidades logísticas de produtos especiais, como embalagens otimizadas, monitorização 24 horas por dia e otimização das correntes de frio” – UPS

No panorama das empresas de transporte, como a UPS Portugal, “há uma procura crescente por parte de empresas de uma variedade de indústrias para enviar produtos que são classificados como perigosos”, como unidades de saúde que precisam de transportar produtos químicos para limpeza de equipamentos de laboratório e empresas industriais de manufatura que necessitam do transporte de tintas, gases comprimidos, adesivos e baterias. Como adianta o Business Development Manager da UPS Portugal, Carlos Pinheiro, que realiza estes transportes entre 36 países, incluindo Portugal, “as principais preocupações da nossa equipa incluem minimizar os riscos de trânsito, confiando na nossa rede de transporte global, na profunda experiência regulatória que possuímos e na supervisão do início ao fim”.

Carlos Pinheiro, Business Development Manager da UPS Portugal

Cuidados especiais para produtos especiais
Reconhecendo “a necessidade de apresentar propostas de valor diferenciadas em diversos segmentos da indústria com produtos sensíveis”, incluindo o setor aeroespacial, automóvel, industrial, retalho, saúde e alta tecnologia, a UPS aposta numa rede inteligente de logística global e dá resposta a desafios complexos como os que o setor de saúde, por exemplo, enfrenta, com “a expiração contínua de patentes de medicamentos e o panorama de mudança dos requisitos regulatórios que diferem por país”.

Também os produtos sensíveis à temperatura provocam desafios logísticos, “ainda que diferentes, porque dependem de ciclos complexos de transporte”. Nestes casos, e segundo Carlos Pinheiro, a UPS oferece um portfolio de soluções de cadeia de frio que protegem produtos sensíveis à temperatura, combinando embalagens especializadas, camiões refrigerados e contentores criogénicos de transporte marítimo e aéreo. Atualmente administra mais de 6500 remessas aéreas/de frete sensíveis à temperatura para empresas de saúde de 64 origens e 163 destinos, garantindo “o controlo exato em todas as etapas do processo, incluindo registos de dados para monitorização da temperatura de produtos farmacêuticos em trânsito ou armazenados”.

 “Dispomos de mecanismos automáticos específicos que possibilitam a classificação dos produtos mais sensíveis” – NACEX

Defendendo que “o tempo e os recursos necessários para acompanhar e gerir requisitos regulamentares de segurança em constante mudança podem custar milhões”, Carlos Pinheiro garante que os especialistas em assistência à saúde da UPS possuem o conhecimento global em regulamentação para apoiar os clientes a permanecerem em conformidade e alcançarem maior eficiência; e que a empresa tem processos e tecnologia “rigorosos” de cadeia de custódia em vigor na sua rede global de armazéns, em conformidade com os serviços de saúde, e atende a todas as certificações de segurança e regulatórias nacionais necessárias para ajudar a evitar atrasos e multas no desalfandegamento aduaneiro.

Já a Nacex Portugal dispõe de mecanismos automáticos específicos que possibilitam a classificação dos produtos mais sensíveis, “que permitem que sejam cuidadosamente preparados para evitar danos”. De acordo com João Jales, esta classificação contribui igualmente para facilitar as operações de carga e descarga, assim como o acondicionamento deste tipo de envios nos veículos, para que não haja risco de se danificarem durante os percursos entre expedidor, plataforma logística e consumidor final. Na opinião do Country Manager da Nacex Portugal, os principais desafios com estes produtos “passam essencialmente pela articulação entre o manuseamento manual e automático dos envios de produtos sensíveis”.

Sublinhando que “existem múltiplas estratégias de resposta às necessidades logísticas de produtos especiais”, Carlos Pinheiro destaca embalagens otimizadas para perfis ambientais conhecidos, modalidades aprimoradas de embarque, monitorização 24 horas por dia e intervenção especializada da equipa para evitar desperdícios, e análise e otimização das correntes de frio dos clientes da empresa. A UPS tem ainda aplicações tecnológicas para simplificar as remessas, que atendem às diretrizes emitidas pela Associação Internacional de Transporte Aéreo, pelo Departamento de Transporte dos EUA, pelo Acordo Europeu de Mercadorias Perigosas e pela Organização Internacional de Aviação Civil, das Nações Unidas. Os clientes podem usar o aplicativo UPS Worldship para verificar se as remessas de mercadorias perigosas cumprem os requisitos necessários e notificar a UPS quando as remessas estiverem prontas para processamento. De resto, a UPS “concede formação extensiva aos colaboradores” nesta matéria e a sua rede integrada de transporte utiliza embalagens à prova de vazamentos, contentores resistentes ao fogo e coberturas de contenção de incêndio.

Por seu turno, a Nacex começa por exigir aos clientes a utilização de embalagens adequadas e o acondicionamento dos seus envios de forma cuidada. Neste sentido, disponibiliza embalagens específicas para vários tipos de mercadorias, além de meios de transporte adequados, colaboradores devidamente formados e sensibilizados para o manuseamento de encomendas com conteúdo classificado como frágil, e inovadores mecanismos de carga e descarga em segurança, sistemas de rastreabilidade para seguimento de expedições através de sistema de vídeo, e classificação de envios.

E-commerce segue a bom ritmo
No que respeita ao tipo de contratos que mais realiza para o transporte destes produtos especiais, a Nacex trabalha com setores como eletrónica, informática, farmácia e cosmética, que “são, de facto, áreas que exigem a transação de produtos muito sensíveis que, hoje em dia, tanto são entregues nos canais de comércio tradicional, via B2B, mas também via B2C, tendo como destino final o consumidor final”. Segundo João Jales, “temos celebrados contratos para entrega de produtos sensíveis em igual número para lojas e para plataformas de e-commerce, até porque muitas lojas físicas contam igualmente com plataformas de e-commerce para venda dos seus produtos”.

A UPS também realiza transportes para os dois canais, “aproximadamente na mesma taxa para todas as encomendas combinadas”. Carlos Pinheiro adianta que “dependendo das regulamentações locais, estamos a expandir as nossas entregas de encomendas sensíveis para assistência médica residencial”, o que se reflete na aquisição recente de empresas de logística de saúde, como a Marken, que ”reserva carregamentos com a UPS a fim de garantir a conformidade do protocolo, a salvaguarda da identidade dos pacientes e a criptografia de dados, necessários para ensaios clínicos”.

 “Uma encomenda online e de venda à distância obriga a um processo de acondicionamento e expedição dedicado e especializado” – FNAC

As entregas residenciais têm vindo a crescer nas últimas décadas, incluindo no que toca estes produtos ‘sensíveis” e, atenta a essa realidade, a UPS adaptou a sua abordagem para complementar a sua oferta B2B. Considerando que “as nossas pesquisas mostram, periodicamente, que os compradores online “residenciais” querem mais controlo sobre como, onde e quando a sua encomenda é entregue”, a empresa introduziu recentemente em Lisboa e no Porto o UPS My Choice (um serviço e aplicativo móvel que permite à pessoa acompanhar diretamente a entrega da encomenda) e o UPS Access Point (que reúne locais de entrega e recolha convenientes, como postos de combustível e lojas de bairro), explica o Business Development Manager da empresa.

Também segundo o Country Manager da NACEX, nos últimos anos “temos assistido a uma migração do número de entregas dos canais B2B para os canais B2C, graças à “familiaridade dos consumidores no uso das plataformas de e-commerce, que acaba por ser explorado pelos comerciantes”, uma vez que traz vantagens associadas ao marketing direto, e se traduz em menores custos comparativamente às lojas físicas. Para João Jales, “não é expectável que se venha a verificar um retrocesso nesta realidade, e, “neste cenário, a adaptação das transportadoras obrigou à criação de diferentes mecanismos, que permitem atualmente assegurar entregas no menor tempo possível e à primeira tentativa, com o mínimo impacto no dia-a-dia do consumidor final”. O que só é possível “através de um eficaz sistema de rastreabilidade de envios ao dispor do remetente e do destinatário do envio, além de uma comunicação constante assente na flexibilização de processos”.

Esta evolução do mercado de e-commerce não fica comprometida com os produtos cujo transporte incorre em maiores riscos (de quebra ou danificação, por exemplo), já que atualmente “há cada vez maiores garantias no manuseamento cuidado deste tipo de envios, de forma a que sejam entregues nas condições ideais”, como defende João Jales. Em consequência, “há também uma maior confiança por parte de quem utiliza as plataformas de e-commerce para a compra destes produtos, o que se traduz, precisamente, no crescimento global do mercado de e-commerce”.

Efetivamente, e como ressalva Carlos Pinheiro, “a Internet e o comércio eletrónico tornaram as compras verdadeiramente globais”. De acordo com o último estudo da UPS “Pulse do Online Shopper”, sete em cada dez compradores online europeus adquiriram itens de retalhistas fora do seu país de origem, “principalmente por causa dos melhores preços e da busca por uma marca ou produto específico”. O responsável da UPS esclarece que as exigências do transporte e distribuição de produtos sensíveis encomendados via e-commerce estão em conformidade com os mesmos procedimentos de todas as equipas da UPS no mundo.

Segurança acima de tudo
Na perspetiva do retalho, a garantia de qualidade no momento de disponibilizar artigos ao cliente, sejam ou não ‘sensíveis’ é, naturalmente, a maior preocupação. De acordo com Tiago Figueirôa, assegurar este processo “em perfeitas condições e no timing correto” é uma das principais premissas da logística da FNAC Portugal. O que só é possível se o tratamento das mercadorias “tiver um método de qualidade em todos os intervenientes da cadeia logística, desde a receção e processamento até à entrega do  produto”.

Segundo o diretor de Logística & Supply da FNAC Portugal, temos apostado em várias soluções de entrega”, da tradicional entrega em 24h à entrega no próprio dia, passando pelas redes de pontos de entrega ou nas Lojas FNAC.

“O desafio é encontrar alternativas para acondicionar diversas temperaturas e artigos que podem apresentar uma grande diversidade de formatos e tamanhos, sendo alguns muito frágeis” – MAKRO

Já o Lidl escolhe uma transportadora de artigos sensíveis em função dos seguintes critérios: condições da frota (o estado das viaturas em termos de idade e certificados ATP, de forma a garantir o cumprimento dos requisitos de segurança e cadeia de frio na entrega dos produtos); experiência no serviço de distribuição de bens alimentares; e flexibilidade, uma vez que se trata de um setor com sazonalidade, explica à L&TH o seu departamento de logística.

Também a Makro Portugal reúne uma série de condições às quais dá prioridade, no que se refere a estes serviços, “nomeadamente que seja uma empresa dinâmica, moderna e que tenha preocupações com a segurança, o ambiente e com as pessoas que no dia-a-dia são a cara” da empresa. Como esclarece Jorge Alexandre “tudo começa pelos nossos veículos, que são subcontratados aos parceiros”. Trata-se de veículos adquiridos a partir de finais de 2015, equipados com motores de última geração – Euro 6, que asseguram uma redução das emissões de escape e de CO2, além do ruído emitido e consumo de combustível mais baixo.

A contratação de um operador logístico para transportar produtos ‘sensíveis’ passa também pela garantia da cadeia de frio, a partir do momento em que os produtos saem de loja: “todos os carros da empresa estão equipados com frio negativo e positivo, que é registado a todo o momento”, afirma o Head of Services Makro Portugal. As pessoas que, “no momento em que carregam os carros, durante a viagem e descarga, garantem que os produtos são transportados de acordo com as especificidades de cada um e com as condições necessárias” são outro fator de relevo. Face à necessária “flexibilidade de resposta dos transportadores” nas alturas de pico, como o Verão ou o Natal, a tecnologia de suporte ao negócio (GPS, sistemas de informação de suporte, etc.), é fundamental para oferecer “um serviço cada vez mais otimizado”, conclui Jorge Alexandre

Para o Lidl, um dos principais cuidados a ter no transporte de mercadorias é o correto acondicionamento das mesmas. Segundo o seu departamento de Logística, “a construção estável das paletes é uma das bases para que a quebra/dano de mercadoria seja minimizada ao máximo e, como tal, a nossa primeira preocupação”.

Quando envolve a manutenção da cadeia de frio, o transporte de produtos sensíveis torna-se um desafio ainda maior, para o setor do retalho. De forma a não constituírem um perigo para a saúde pública, existem variados artigos que têm de ser armazenados, transportados e mantidos em loja em intervalos de temperatura bastante restritos, que o Lidl cumpre com “um cuidado rigoroso”. Como explica, “consoante o tipo de mercadoria em questão, trabalhamos não só com distribuição de artigos à palete, como também utilizamos Combis e placas eutéticas”.

Com uma visão semelhante, também para a Makro os maiores desafios concentram-se nos produtos mais suscetíveis às variações de temperatura, tais como as frutas e verduras, carnes, congelados e laticínios, face aos quais “são previstos diversos mecanismos para garantir a gestão da variação de temperatura dentro da viatura”. A empresa “atenta à forma como são acondicionados, não colocando pesos por cima, ou usando caixas para os transportar convenientemente”, diz Jorge Alexandre.

Por outro lado, e em relação a artigos frágeis e que têm que ser transportados separadamente dos produtos alimentares, como pratos, copos ou produtos de limpeza, recorre a locais e embalagens que permitem identificá-los e protegê-los.

Acondicionamento e expedição dedicados
Tendo em conta que “no final a expetativa de um cliente é ter o produto que procura a 100%”, o processo de garantia de qualidade na FNAC é transversal ao canal online e ao canal de lojas. Mas, e como explica Tiago Figueirôa, “uma encomenda online e de venda à distância obriga a um processo de acondicionamento e expedição dedicado e especializado, o que causa um maior desafio em relação à entrega de mercadoria para reposição em loja”. Neste sentido, a FNAC “exige que o serviço de entregas e de transporte privilegie o estado dos produtos a 100%”, assim como “a sua chegada no timing certo”. Tendo em conta estas premissas, a empresa tem efetuado um grande investimento em toda a sua logística interna B2C.

Igualmente preocupado com a qualidade, o Lidl exige a certificação das viaturas (ATP, FNA e FRC), a qual assegura a sua adequação para o transporte de mercadorias em frio positivo e negativo, respetivamente, e garante um acompanhamento da temperatura das galerias, medições de temperatura diretamente na mercadoria e um exigente controlo na receção da mesma.

Num mercado tão dinâmico, as necessidades da Makro passam por encontrar soluções para o acondicionamento, sejam elas soluções de palete ou de caixas de transporte. De acordo com Jorge Alexandre o desafio “é encontrar alternativas para acondicionar diversas temperaturas e uma série de artigos que podem apresentar uma grande diversidade de formatos, tamanhos, sendo alguns muito frágeis”. Acresce que “o trade off entre a otimização da rota, o espaço da carga e as slot da entrega são um exercício com alguma complexidade”, como explica o Head of Supply Chain & Logístic da empresa, perante o qual “os nossos parceiros têm que dar suporte ao nível do know-how”.

Na opinião de Ricardo Pomar a entrega ao cliente é sempre um desafio, que requer acompanhamento de modo a “gerir a sazonalidade diária, os constrangimentos em determinadas localizações e o contacto com os clientes. Com relações contratuais com transportadoras de médio/longo prazo e que incluem cláusulas de qualidade, e requisitos mínimos, a Makro procura “preços competitivos e serviços de excelência, tendo sempre em conta uma relação sustentável”, conclui.

“Escolhemos uma transportadora de artigos sensíveis em função das condições da frota, experiência na distribuição de bens alimentares e flexibilidade, uma vez que se trata de um setor com sazonalidade” – LIDL

Quanto ao tipo de contratos para entrega de mercadorias em lojas ou e-commerce, o Lidl Portugal não trabalha nesta segunda vertente, pelo que realiza apenas entregas nos seus espaços comerciais, privilegiando “a proximidade e a frescura na ótica do smart shopping”. No que respeita a frescos, “o recurso a produtores locais permite uma entrega diária destes artigos”.

No âmbito do investimento em toda a logística interna B2C, a FNAC tem parcerias com transportadoras específicas. Na opinião de Tiago Figueirôa, o mercado de e-commerce em Portugal tem vindo a registar “um crescimento significativo, começando a acompanhar, ainda que de forma tímida, o comportamento noutros países europeus”. Este crescimento “verifica-se pela crescente confiança que os clientes têm depositado neste canal, algo que só é possível porque os players (desde retalhistas a distribuidores) têm conseguido garantir uma evolução de processos relativamente rápida e com qualidade percebida”, acompanhando o que já é garantido pelos operadores internacionais.