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Transportes

“Tempestade perfeita” na energia obriga logística a otimizar processos

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A escalada dos preços da energia está a preocupar as empresas do setor dos transportes e da logística. Sem medidas suficientes por parte do Governo, os operadores tentam agora otimizar os seus processos e reforçar a aposta em fontes energéticas alternativas. Os preços finais, dizem, correm já o risco de aumentar.

Depois da falta de contentores, da escassez de motoristas e do quase “colapso” dos portos internacionais, o setor da logística enfrenta agora mais um desafio: a “tempestade perfeita” que se instalou no que diz respeito à energia, com a escalada dos preços da eletricidade e dos combustíveis. Os operadores já se queixam da pressão e avisam que será inevitável um aumento dos preços dos seus serviços, o que terá reflexos também no consumidor final. Para mitigar o impacto de mais esta crise, vão tentando agora otimizar os seus processos e acelerar a aposta em fontes energéticas alternativas.

 

“Otimizar os processos logísticos é o que a distribuição tem estado a fazer de forma ainda mais acentuada desde que vivemos esta pressão dos preços da energia”, conta o diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), Gonçalo Lobo Xavier. O presidente da Associação Portuguesa de Logística (APLOG), Raul Magalhães, explica, por sua vez, que esse caminho de otimização já tinha sido começado “há bastante tempo” pela maioria das empresas e confirma que tal tem sido reforçado mais recentemente, face à tendência crescente dos preços dos combustíveis e da eletricidade. “Neste momento, as empresas olham para todas as áreas onde ainda possa existir possibilidade de otimizar gastos energéticos ou reduzi-los”, salienta o responsável.

Os operadores dos setor da logística garantem que estão a tentar, ao máximo, evitar que a situação que hoje se vive por causa da energia venha a refletir-se num aumento dos preços no consumidor, mas dão como certo que, pelo menos, em alguns produtos tal será inevitável. Da parte do retalho, o LIDL Portugal, por exemplo, atira somente que irá “manter a sua premissa de máxima qualidade ao melhor preço”. Também a Sonae MC – dona do Continente – garante estar a trabalhar para que o impacto não seja sentido pelos clientes, mas não descarta a possibilidade de que tal revisão dos preços possa vir a acontecer.

 

A solução para esta “tempestade”, diz quem está no mercado, poderia passar, pelo menos por agora, por um alívio da tributação aplicada aos combustíveis e à eletricidade, apelo que o Governo de António Costa tem respondido, contudo, com medidas cuja expressão fica aquém do desejável, criticam os operadores.

Afinal, o que está a motivar a escalada dos preços da energia?

A pressão que está hoje instalada sobre os operadores logísticos no que à energia diz respeito tem duas grandes fontes: a escalada dos preços da eletricidade e o disparo dos preços dos combustíveis.

 

Quanto à primeira, ainda a 18 de novembro, o preço grossista da eletricidade no mercado ibérico, o Mibel, voltou a subir e atingiu o valor mais alto das três semanas anteriores, fixando-se em 225,12 euros por megawatt hora. Essa tendência tem sido registada ao longo dos últimos meses e está estritamente relacionada com o aumento da cotação do gás natural, no mercado internacional, mas também com a subida do preço das licenças de emissão de dióxido de carbono.

Vamos por partes. A Deco Proteste explica que, com a progressiva desativação das centrais a carvão, passaram a ser mais usadas as centrais de ciclo combinado, que são alimentadas a gás natural. Ora, desde meados de maio que o custo dessa matéria-prima tem vindo a aumentar (também por força de tensões geopolíticas), logo a produção de eletricidade tem ficado mais cara.

 

Por outro lado, é importante explicar que, quando a produção de eletricidade recorre a combustíveis fósseis, as emissões poluentes têm de ser compensadas. Como? Por via da aquisição de licenças de emissão de dióxido de carbono, cujo preço também está a subir, numa altura em que a União Europeia diz estar comprometida com a redução das emissões de gases com efeitos de estufa e com a descarbonização do Velho Continente. Aliás, essas licenças são um instrumento criado politicamente e são controladas pelo Executivo comunitário.

Outra explicação para a escalada dos preços da eletricidade é a lei do mercado, uma vez que, nos últimos meses, a campanha de vacinação contra a Covid-19 deu azo ao alívio das restrições à mobilidade e à atividade económica, fazendo aumentar a procura por energia. Mais, o verão quente e com vento fraco resultou numa quebra da produção de energia a partir de fontes renováveis, tendo contribuído para o agravamento da procura por combustíveis fósseis. A tudo isto soma-se a pressão que foi exercida, no Inverno passado — estação que foi, especialmente, rigorosa — sobre os stocks de gás natural, que hoje estão, assim, em mínimos históricos. Com menos oferta e mais procura, está em curso, portanto, uma subida dos preços da eletricidade.

Nos combustíveis, a dinâmica é semelhante. Também neste caso, a indústria tem atribuído a subida recente dos preços à retoma económica proporcionada pelo alívio das restrições à boleia da vacinação contra o vírus pandémico, dizendo que o aumento da procura não tem sido acompanhado por uma resposta suficientemente rápida do lado da produção. A propósito, a analista de mercados Catarina Castro sublinhava, numa entrevista recente, que o período pandémico ficou marcado pelo abrandamento da exploração e produção de petróleo, o que ajuda a explicar a referida dinâmica. Novamente, com menos oferta e mais procura, os preços tendem a disparar. E esta situação tem tido reflexo não só numa subida da cotação do petróleo nos mercados, mas também (e consequentemente) no aumento dos preços dos produtos derivados, como o gasóleo, a gasolina, o butano e o propano.

Em reação, os operadores do setor da logística sublinham que estas duas tendências estão já a colocar uma pressão considerável nas suas contas. “Os preços dos combustíveis têm um impacto muito grande em todas as atividades, com especial relevo nos operadores logísticos e empresas de transporte”, frisa Raul Magalhães, da APLOG. Na mesma linha, Gonçalo Lobo Xavier, da APED, explica que a subida dos preços dos combustíveis e da eletricidade tem tido impacto “em toda a cadeia de valor que se relaciona com a distribuição e, de uma forma global, afeta toda a atividade económica”. “O impacto nos custos de transporte, por exemplo, reflete-se, depois, em acréscimos nos preços da distribuição no produto final”, detalha.

Vítor Enes, diretor-geral de business development da portuguesa Luís Simões, confirma que os impactos estão a ser “muito significativos”, ainda que variem entre a atividade de transporte “pura e dura” e as atividades mais relacionadas com operações internas realizadas em plataformas logísticas. Na Zolve, o sentimento é o mesmo:  “Os impactos no nosso negócio são muito preocupantes”, conta a empresa, que opera na área da logística e de transporte de produtos alimentares perecíveis. “Inevitavelmente, o negócio em temperatura controlada implica um uso mais intensivo de energia elétrica nas instalações e de diesel no transporte. Estas rubricas têm, por isso, uma relevância muito significativa na nossa estrutura de custos”, explica a Zolve. E acrescenta: “O aumento repentino e muito significativo da energia elétrica, principalmente depois de um período de confinamento, acabou por surpreender o mercado”.

Já Vitória Nunes, diretora da unidade de negócios da ID Logistics Portugal, aproveita para lembrar que esta não é a única nem a primeira crise que o setor da logística tem enfrentado, nos tempos recentes. “O nosso setor enfrenta há meses diversos contratempos, como, por exemplo, o aumento do preço dos arrendamentos, a falta de contentores, o colapso dos portos internacionais ou a escassez de motoristas profissionais. Este novo contratempo é, sem dúvida, mais um obstáculo inoportuno para um setor que tem se mostrado fundamental para o bom funcionamento da cadeia de abastecimento”, diz a responsável.

Questionada sobre se tal cenário levará a uma subida dos preços dos serviços, Vitória Nunes começa por assegurar que a ID Logistics “aposta, sobretudo, no desenvolvimento de relações de longo prazo com os seus clientes” e avança que o impacto da escalada dos preços da eletricidade e dos combustíveis já é “muito significativo e impossível de absorver na estrutura de custos de qualquer operador logístico”. “Pensamos, por isso, que todo o mercado terá de refletir estes incrementos nos seus preços. No caso do diesel, existem já mecanismos difundidos no mercado em geral de indexação dos preços ao custo do diesel. Já na eletricidade, as coisas não são assim, por se tratar de um mercado mais opaco e irracional nas suas variações. No entanto, achamos inevitável que o mercado se venha a replicar na eletricidade o que já se faz no diesel”, observa a mesma.

A Zolve concorda que “é inevitável uma subida dos preços” dos serviços em causa e deixa um alerta: coloca-se, assim, “em risco a competitividade do setor”, além de se abrir a porta a “um aumento do preço dos produtos que chegam ao consumidor final”. Já Vítor Enes, da Luís Simões, atira: “É inevitável refletir estes aumentos [dos combustíveis no preço dos serviços]. De há algum tempo a esta parte, inclusivamente, em alguns dos nossos contratos constam já cláusulas específicas de atualização dos valores de combustíveis. Contudo, sim, quem acaba por pagar a fatura é sempre o consumidor final”.

Gonçalo Lobo Xavier, da APED, acrescenta, por sua vez, que o aumento dos preços finais só não tem sido mais expressivo porque o setor da distribuição tem tentado “ser mais eficiente, procurando minimizar os impactos no consumidor final”. O responsável faz questão, ainda assim, de avisar: “Torna-se muito difícil acomodar todos estes aumentos”. É, por isso, que Raul Magalhães antecipa: “É expectável que a repercussão se faça nos produtos e serviços ao longo de toda a  cadeia e termine no cliente final”. No início de novembro, a APED indicava mesmo que o aumento dos custos da energia já estava a ter impacto nos produtos ligados à farinha e pão, produtos centrais na alimentação típica dos portugueses.

Da parte dos retalhistas, a mensagem transmitida aos consumidores, neste momento, é a de que tudo estão a fazer para evitar essa subida dos preços finais. “De futuro, caso a situação em vigor represente um aumento no custo da matéria-prima, o LIDL Portugal irá manter a sua premissa de máxima qualidade ao melhor preço, pautando-se sempre por apresentar preços muito competitivos e disponibilizar uma oferta de qualidade aos seus clientes”, afirma o departamento de comunicação corporativa dessa cadeia. E em outubro, em declarações aos jornalistas, Miguel Águas, administrador da Sonae MC, garantiu estar a trabalhar para que o impacto da referida escalada dos preços da energia não fosse “sentido pelos clientes”, mas admitia que, “a prazo”, a atual crise poderia levar até a um agravamento do “custo dos próprios produtos para os consumidores”.

Energia mais cara leva a otimização reforçada dos processos

Numa altura em que a energia tende a ficar cada vez mais cara, as empresas do setor dos transportes e da logística estão apostadas em otimizar os seus processos, dando mais sentido do que nunca à expressão “fazer mais com menos”. “A maioria das empresas já começou esse caminho há bastante tempo, mas neste momento olham para todas as áreas onde ainda possa existir possibilidade de otimizar gastos energéticos ou reduzi-los”, conta Raul Magalhães, da APLOG, que diz que têm sido feitos, em paralelo, investimentos também em fontes energéticas alternativas, como painéis solares.

É isto que está a levar a cabo, por exemplo, a ID Logistics, de acordo com Vitória Nunes. “A eficiência energética, bem como a renovação dos veículos de mercadorias e dos sistemas de armazenamento serão fundamentais para manter a competitividade”, diz a responsável. Com isso em mente, esta empresa está a trabalhar, por exemplo, na instalação de painéis fotovoltaicos nos seus centros e num programa de transporte colaborativo. “Agrupamos mercadorias de diferentes clientes para otimizar seu transporte. Desta forma, reduzimos as emissões de dióxido de carbono em 22% e o número de viagens em 27%, garantindo uma entrega eficiente com maior poupança de combustível”, detalha.

Por outro lado, a Zolve garante que a sua cadeia está já “muito otimizada atendendo aos meios tecnológicos e físicos disponíveis”. “Ainda antes da crise energética que estamos a viver, a Zolve instalou, em ambas as plataformas, dois parques de produção de energia fotovoltaica que totalizam uma potência de 1.9kWp e que permitem tornar as instalações autossuficientes em termos de eletricidade em cerca de 30%”, conta a empresa. E acrescenta: “A otimização de rotas e de fluxos já não é uma novidade. No entanto, ganha um destaque especial face a esta escalada dos preços dos combustíveis e da eletricidade. Além disso, existem investimentos em eficiência energética que no passado foram descartados por apresentarem um payout demasiado longo e que agora interessa reavaliar à luz dos novos preços de energia”.

Já Vítor Enes explica que, na Luís Simões, a otimização dos recursos e processos é um “trabalho de todos os dias”, tendo, ainda assim, a crise pandémica levado à aceleração da transformação digital que estava em curso. “Esta otimização também envolve os clientes, não conseguimos fazer todo o trabalho sozinhos”, defende.

No retalho, o movimento é semelhante. O LIDL Portugal, por exemplo, revela que o aumento dos preços dos combustíveis está a ter impacto na operação da sua frota, pelo que está a investir na “evolução da eficiência no transporte dos [seus] produtos, com a otimização das rotas, a ocupação dos camiões e através da utilização de outras formas de energia”. “A frota do Lidl tem neste momento um camião movido a gás natural”, adianta o departamento de comunicação corporativa, acrescentando que todos os edifícios do Lidl (da sede da empresas às lojas) são alimentados, em termos energéticos, a partir de fontes renováveis.

Gonçalo Lobo Xavier, da APED, acrescenta que há já mesmo retalhistas a “premiar motoristas que conseguem melhorar a performance de custo de combustíveis aos 100km”. “Temos o cuidado de ter sempre o processo logístico ‘oleado’ de forma a que os camiões andem sempre na sua capacidade máxima. Temos procurado soluções de energia mais ‘limpa’, mas não há alternativas para todos os segmentos”, enfatiza o mesmo responsável.

Já no desenho de uma saída para esta crise energética, o líder da APED considera que a “questão fiscal é incontornável”, sendo necessário, diz, rever não só a tributação aplicada aos combustíveis fósseis, mas também “outras matérias fiscais que tenham impacto na competitividade”. Aliás, sobre as medidas, entretanto, lançadas pelo Governo para mitigar a situação atual — como o subsídio mensal de cinco euros por 50 litros de combustível — Gonçalo Lobo Xavier diz que “são positivas”, mas não têm a “expressão que seria desejável”. Raul Magalhães concorda: “É uma boa intenção, mas com um impacto residual”. As operadoras ouvidas por nós concordam, considerando insuficientes os esforços do Executivo. “É necessário um plano de medidas de curto prazo mais abrangente, assim como um plano de longo prazo, para evitar que voltemos a uma situação como esta no futuro”, remata Vitória Nunes, da ID Logistics.