Startups

A logística também tem startups. E transportam que é uma maravilha

A logística também tem startups. E transportam que é uma maravilha

A MUB Cargo, HUUB e FuelSave são três startups nacionais com uma meta bem definida: facilitar transporte.

Carlos Palhares trabalhava na indústria automóvel e tinha um problema: encontrar de forma rápida e transparente orçamentos para o transporte expresso de mercadorias. Esta é uma questão de extrema importância no setor em que opera, já que um atraso de minutos na entrega de peças para uma linha de montagem pode significar um prejuízo de largos milhares de euros. Foi desta necessidade que nasceu a MUB Cargo, uma das startups da indústria da logística em Portugal, em novembro de 2016.

“O Carlos teve esta ideia porque isto não acontece só na indústria automóvel, mas em todas as empresas com necessidades de transporte que vão além do extremamente recorrente”, explica Mariana Gomes, co-CEO da MUB Cargo. O que a empresa sediada em Braga faz é simples: a startup cria um leilão entre as transportadoras que nele queiram participar e estas fornecem cotações adequadas às necessidades de transporte do cliente até que este aceite uma das propostas. Foi com esta premissa que Palhares regressou em 2016 à Porto Business School, onde já tinha completado um MBA em 2010, com o objetivo de encontrar dois alunos, também eles prestes a concluir o MBA, e que quisessem executar a sua ideia. Os dois escolhidos são hoje os co-CEO da MUB— Mariana Gomes, que já se movimentava no mundo das startups, e Pedro Vilas-Boas, que trabalhou vários anos em engenharia civil. Carlos Palhares continua a ser o sócio maioritário da empresa, embora já não trabalhe na startup a tempo inteiro, e convidou ainda um quarto elemento para se juntar ao projeto: o seu amigo de longa data, Orlando Azevedo, uma ajuda preciosa no desenvolvimento da empresa graças à sua extensa experiência no setor da logística e dos transportes.

“Onde a MUB Cargo traz valor é no transporte ocasional”, sublinha Mariana Gomes, acrescentando que empresas com necessidades de transporte muito habituais já têm frota própria ou outros acordos com transportadoras. A startup opera via plataforma web, ou seja, através de um website, e por aplicação móvel, disponível para iOS e Android (conta com cerca de três mil downloads gratuitos de cada uma). Contudo, é na versão web que está a apostar, dado o seu público-alvo: as empresas. Isto não significa que um cliente particular não possa contratar uma transportadora através da MUB Cargo, como explica a co-CEO: “A nossa estratégia comercial e de marketing é muito mais direcionada para empresas. Não criamos qualquer barreira à utilização por particulares, simplesmente não fazemos esforço para captar estes clientes”.

“Em Portugal existem cerca de 9000 entidades para transporte individual de mercadorias ou agentes individuais coletados, em Espanha são 100 mil”

A estratégia da startup direcionou-se para o setor corporativo em fevereiro de 2017, logo após o seu lançamento, no final de 2016. A MUB resolveu melhorar o flow da sua plataforma e lançar uma versão web, mais «amiga» das empresas. “Foi quando começámos a ver o “clique” de vendas”, garante Mariana Gomes. Em março de 2018, fecharam uma nova ronda de investimento, no valor de meio milhão de euros (200 mil euros da BrainCapital e 300 mil da holandesa Castle Capital), para escalar a operação em Portugal e realizar o lançamento no mercado espanhol (em regime de soft launch), que ocorreu em setembro desse mesmo ano.

Se o crescimento em Portugal foi definitivamente consolidado — embora não avance valores, a co-CEO revelou que as vendas da empresa cresceram na ordem dos 30% todos os meses do ano passado —, o lançamento em Espanha revelou-se ainda melhor do que o previsto. “Em Espanha, já estamos no mesmo valor de vendas do que a meio do ano passado em Portugal. Foi um crescimento bem mais rápido”, assegura Mariana Gomes, que já trabalha a partir de Madrid. “É um mercado maior, com muita dinâmica no setor dos transportes, mas mais fragmentado do que em Portugal, até pela forma como está estruturado o setor. As empresas não têm praticamente frotas próprias”, explica, acrescentando que enquanto no nosso País existem cerca de nove mil entidades para transporte individual de mercadorias ou agentes individuais coletados, em Espanha são cem mil. “É o maior mercado com entidades registadas da União Europeia”.

Sistema híbrido
Mas, ainda antes da nova ronda de investimento e da internacionalização para Espanha, a MUB já tinha criado outro ponto diferenciador no seu serviço. Em meados de 2017, o seu sistema de leilões inicial evoluiu para um sistema híbrido, em que o utilizador pode optar pela realização do leilão ou então aceitar uma das propostas de transporte com preço fixo acordada com as transportadoras. Assim, para utilizar a plataforma da MUB Cargo, o cliente pode aceder ao serviço através da app ou então na versão web (www.mubcargo.com), na qual lhe serão pedidos os seguintes dados: a cidade de recolha e de entrega, e o peso e as dimensões da mercadoria. “Irão aparecer cotações imediatas fixas que o cliente pode comparar no momento”, explica Mariana Gomes. Estes preços fixos aplicam-se apenas ao transporte de caixas (40kg de peso volumétrico ou 30kg de peso real) e paletes (até 500kg ou 1 000kg, dependendo do mercado ou fornecedor, com limites de dimensões de 120cm x 80cm x 90cm).

Se nenhuma das opções fixas agradar ao cliente, no final do processo irá aparecer a opção “inicie um leilão”. Segundo Mariana Gomes, nesta fase a plataforma pede mais dados ao cliente, incluindo a categoria da mercadoria (se se trata de mudanças, por exemplo), o segmento do pedido e a existência de meios de carga ou descarga. Ao submeter o pedido, o cliente irá receber uma série de cotações ou então de dúvidas, via endereço eletrónico, da parte das transportadoras. “Por vezes também já contactamos o cliente por uma questão de proatividade”, garante a co-CEO. “Depois, o cliente escolhe a solução mais adequada. Se for uma carga completa na UE, numa hora pode já receber uma cotação com um preço competitivo. É relativamente rápido”, garante. Pelo serviço, a MUB recebe uma comissão por transporte efetuado.

Em Portugal, a startup trabalha com uma rede de 400 transportadoras autónomas e entre 20 a 30 com preços fixos. Em Espanha, são cerca de 40 autónomas e 10 a 15 fixas. “Interessa-nos a qualidade”, frisa Mariana Gomes. “Pedimos ao cliente que nos dê feedback do serviço e só trabalhamos com transportadoras com seguro válido”.

Para explicar a poupança de tempo e dinheiro que a MUB Cargo proporciona, a co-CEO dá o exemplo de um cliente que surpreendeu os fundadores da empresa por “se tratar de um transitário de peso brutal na nossa área”: segundo este cliente, a poupança pode chegar a uma redução de 20% no tempo de agendamento do transporte e de 5% nos custos do transporte. “Isto numa empresa muito profissionalizada. Para uma empresa que não é do setor dos transportes, os valores serão ainda maiores”, afirma.

No futuro, a startup bracarense, que conta já com oito trabalhadores, quer expandir-se também em regime de soft launch para alguns mercados já identificados, como França, Alemanha e Polónia. Mas, a aposta da MUB Cargo passa especialmente por uma diversificação de produtos e serviços, comercializando software que permita que clientes e transportadoras façam a gestão dos seus transportes, através da MUB Cargo ou não.

Uma das primeiras tentativas para atingir esta meta acabou por ser “uma feliz coincidência”, assinala Mariana Gomes. “Em algumas reuniões com clientes na área dos transitários, percebemos que há funcionalidades no backoffice interno que criámos, e que vai começar a ser utilizado este mês [fevereiro], que podem facilitar a vida dos nossos clientes. Estamos a ver se podemos cobrar um fee mensal ou anual pelo software”. Como resume a co-CEO: “Queremos é facilitar transporte”.

Facilitar transporte é também o objetivo da startup FuelSave, mas a empresa de Évora quer fazê-lo através da promoção de uma condução mais segura e da poupança de combustível. Como? Com a ajuda de uma aplicação móvel, que visa recolher e ler informações de telemetria sobre o seu estilo de condução, enviando-as depois para a cloud (nuvem) da empresa em tempo real. A empresa vai então avaliar esta informação, descobrir quais são os melhores parâmetros para uma condução mais eficiente (consoante o contexto do condutor) e enviar as suas recomendações, sob a forma de mensagens visuais e auditivas, para o tablet em que se encontra a app. Dirigindo-se aos condutores de camiões de mercadorias — os principais utilizadores — e às empresas que os contratam, a FuelSave ainda se encontra numa fase de desenvolvimento inicial, mas emprega já nove colaboradores e a sua juventude não a impediu de vencer os prémios Altice Innovation Awards na categoria de Startup em outubro do ano passado, o que lhe garantiu um prémio monetário de 50 mil euros. Em julho, a aplicação já havia sido distinguida pela fundação filantrópica da petrolífera espanhola Repsol com um apoio máximo de 144 mil euros durante um ano.

Recorrer a fundos europeus
Criada por António Reis, António Fradique e Luís Mendes (este último fundador da Unono, uma startup do setor do recrutamento), a FuelSave começou a ganhar forma por impulso de Fradique, que trabalha há mais de cinco anos no setor de transportes, com particular enfoque para as melhorias de eficiência na condução com a ajuda de tecnologia e software. Apesar de terem estudado na mesma universidade, os três sócios seguiram percursos diferentes (Reis e Mendes estudaram engenharia mecânica, enquanto Fradique estudou engenharia industrial) até que, em maio de 2017, começaram a brincar com a ideia de promover a poupança de combustível com a ajuda de uma aplicação. “O combustível é o maior gasto operativo no setor dos transportes. Ele [António Fradique] contou-me o que fazia e achámos que havia potencial para transformar isto tudo num produto único”, conta Luís Mendes, ao telefone de Madrid, onde reside.

“O combustível é o maior gasto operativo no setor dos transportes.”

Para alavancarem financeiramente o projeto, os três sócios resolveram concorrer aos fundos europeus do Portugal 2020 e viram a sua candidatura ser aceite em finais de junho, recebendo um investimento de mais de 660 mil euros, 70% dos quais serão subsidiados. A soma deu-lhes espaço de manobra para a contratação de engenheiros de software e pilotos para testes, entre outros profissionais, cujo trabalho será fundamental para a criação da plataforma FuelSave. “Esta é a fase em que estamos agora, ainda muito inicial, a contratar pessoas e a estabelecer bases. Temos um plano concreto do que vamos fazer nos próximos dois anos”, garante Luís Mendes.

A lógica estratégica da empresa é semelhante à de outras grandes marcas da indústria automóvel: “O nosso objetivo é ter um núcleo de investigação em Portugal, o que nos traz competitividade, e penso que foi por isso que o nosso projeto também foi escolhido. O nosso mercado comercial é a Europa e os Estados Unidos da América, mas temos a mesma lógica estratégica das grandes empresas, que é estarmos sediados em Portugal”.

Embora seja impossível apontar quando é que a FuelSave vai ter a sua plataforma completamente pronta — “Em tecnologia nunca se sabe”, diz o fundador —, a expectativa é que a empresa eborense consiga cumprir a sua proposta de valor daqui a 12 a 18 meses. O trabalho que vai ser desenvolvido no núcleo de investigação da marca vai incidir sobre o principal utilizador da aplicação, o condutor do camião. “É sobre ele que a app vai ter mais impacto, ajudando-o no dia a dia e de maneira constante a tomar melhores decisões na sua condução para chegar sempre a tempo com a carga, o que é essencial na logística”, explica.

Segundo o fundador da FuelSave, as empresas podem melhorar a condução dos seus camionistas através da formação, “mas também conhecendo o estado em que o camião é conduzido, todos os trajetos, todas as cargas e parâmetros”. Ao recolher esta informação, a aplicação trabalha-a de forma automática, utilizando-a para informar todos os camiões em simultâneo sobre questões como a velocidade que deve ser mantida ou como fazer subidas, descidas e travagens. “Isto gera um impacto gigante nas margens de lucro da empresa, permitindo poupar centenas de litros por mês por camião”, assegura Luís Mendes. O fundador acrescenta ainda que, com base na sua experiência, cada camião pode atingir uma poupança de até 20% no consumo de combustível.

Neste momento, os testes que estão a ser realizados com pilotos destinam-se a avaliar o impacto das mensagens enviadas pela aplicação. “Quando afeta o estilo de condução, é uma boa mensagem, algo que queremos explorar mais”, diz o fundador da FuelSave. “O principal é criar uma base sólida de análise e recolha de dados e uma plataforma de correlações estatísticas”.

Já a distribuição da aplicação será feita inicialmente através da instalação de um tablet FuelSave que contenha a aplicação, mas o empreendedor admite que daqui a uns anos esta já possa ser integrada no sistema do camião. “Nós queremos focar-nos na poupança e ficar com uma parte da poupança, através de uma percentagem. Por exemplo, se poupar um euro por semana, nós ficamos com 30 cêntimos”, exemplifica Luís Mendes. “Vai depender das frotas e dos clientes, não há preço tabelado”.

A logística também tem startups. E transportam que é uma maravilhaLogística fashion
Mas, e se além de não se preocupar com o transporte das suas mercadorias, não tivesse também de planeá-lo? É esta a proposta da HUUB, uma startup portuguesa fundada em 2015 por Luís Roque, Pedro Santos, Tiago Paiva e Tiago Craveiro, quatro sócios com fortes competências em engenharia e gestão, que rapidamente perceberam que os problemas de logística “são muito complexos, não colaborativos e não oferecem visibilidade”. Foi da necessidade de disrupção, dizem, que nasceu a HUUB, que por enquanto opera exclusivamente no setor da moda.

“A HUUB faz a gestão integrada e ponta-a-ponta da cadeia de abastecimento dos seus clientes”, explica Pedro Santos, cofundador e COO da empresa. Tudo é gerido pela startup, da produção ao envio final, passando pelo pós-venda, através de uma plataforma, de nome Spoke, que pode ser acedida pelo cliente através do site da empresa por via de uma conta de utilizador. Na sua conta individual, a marca consegue ter uma visão integrada do seu negócio, desde a relação com fornecedores à entrega de encomendas ao cliente final. “Não se trata de fornecer, uma vez que a plataforma está ao serviço também do cliente naquilo que é a monitorização do seu negócio. O cliente importa informações da sua coleção, produção e vendas”.

Para fornecer este tipo de serviços, a HUUB conta com dois centros, um em Portugal, outro na Holanda, para onde traz a mercadoria para a Europa. A partir daí, é feito o abastecimento global, com recurso a algumas parcerias com transportadoras. Em 2018, a startup cresceu 110%, ultrapassou o valor de um milhão de peças movimentadas e consolidou o seu portefólio, agora composto por mais de 50 marcas de moda. Números notáveis para uma empresa cujo interesse da parte dos investidores foi igualmente impressionante. O primeiro investidor da startup foi a 7Graus, uma empresa de Internet muito focada em estratégias de marketing de conteúdo, que financiou a empresa em 350 mil euros na sua fase pré-seed, em junho de 2016. Dois anos mais tarde, a HUUB concluiu uma ronda de investimento seed de 2,5 milhões de euros, tendo como principal investidor a empresa portuguesa de capital de risco Pathena, uma das maiores no panorama nacional. Nesta ronda de investimento, que em valor foi três vezes superior à média das seeds europeias (700 mil euros em 2017, segundo o European Venture Capital Report), a startup registou oversubscriptions, ou seja, a procura excedeu a oferta, com várias propostas de investimento de toda a Europa.

“A logística na indústria fashion é um “negócio altamente escalável à medida que cresce com o próprio negócio da moda”

O interesse é facilmente explicado pelas inúmeras mais-valias oferecidas pela startup aos clientes. Segundo Pedro Santos, estas vão desde a unificação e centralização de toda a informação da cadeia de abastecimento e negócio, à redução dos custos de transporte no plano mundial (média de 25%). Além disso, a HUUB permite também às marcas fashion integrar e estabelecer sinergias com os principais sistemas que compõem a cadeia de abastecimento, por exemplo, com plataformas de business to business e integração em backoffices de comércio online. O cliente pode assim externalizar toda a operação num único parceiro, o que lhe permite focar-se na produção, promoção e vendas.

Portugal representa apenas 15% da base de clientes da startup nacional, que foi internacional desde o primeiro dia. Atualmente, a HUUB conta com clientes de 18 nacionalidades, mas está particularmente focada no mercado europeu e tem como objetivo expandir a sua operação para a Holanda. “Os nossos clientes nacionais estão presentes nos principais clusters do fashion. A saber: Europa, EUA, Ásia e Médio Oriente”, diz o COO.

Afirmando que a logística na indústria fashion é um “negócio altamente escalável à medida que cresce com o próprio negócio da moda”, os fundadores referem que o crescimento da HUUB vai passar pela aceleração da marca e expansão operacional. “Enquanto empresa de ‘logistics as a service’ [logística enquanto serviço], o nosso foco passa sempre pela gestão do fluxo físico da operação, com o Spoke como pilar fundamental de agregação, estruturação e execução desse mesmo fluxo, de modo a acelerar, por via da operação e do negócio, a eficiência e crescimento das marcas fashion”.

B.I. da startup
Nome: MUB Cargo
Data de criação: novembro de 2016
Objetivo: conhecida como a “Uber das mercadorias”, permite comparar cotações de várias transportadoras de modo rápido e transparente.

B.I da startup
Nome: FuelSave
Data de criação: outubro de 2017
Objetivo: poupar combustível e promover uma condução mais segura e eficiente.

B.I. da startup
Nome: HUUB
Data de criação: 2015
Objetivo: gestão integrada e ponta-a-ponta da cadeia de abastecimento no setor da moda.

*este artigo foi originalmente publicado na edição 139 da revista LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE