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Embalagens mais verdes, transporte mais sustentável

A transição para um consumo mais amigo do ambiente implica a redefinição das embalagens. Mas não nos referimos apenas a materiais e a menos recursos, mas também ao design e ao impacto no transporte. De que forma é que planeamento das embalagens influencia as questões logísticas? Quando se pensa em alterar o packaging, o respetivo transporte também é equacionado? A logística não pode ser descurada na estratégia global e os players de diferentes setores já o entenderam.

“Uma boa embalagem é metade do transporte”, começa por explicar David Rodrigues, Iberia Head of Operational Excellence Land Transport da DB Schenker. Quando a embalagem de mercadoria é adequada à tipologia da mesma e ao transporte, está a desempenhar um papel muito relevante em diferentes variáveis, como “a prevenção de acidentes, de danos na própria e/ou outras mercadorias e, no limite, em índices de qualidade e SLA’s, custos operacionais, por exemplo, com otimizações das capacidades [em armazém ou transporte], assim como possíveis custos administrativos e/ou comerciais com a gestão de eventuais danos/devoluções”, sublinha.

Embalagens bem pensadas, consoante o seu propósito e os possíveis benefícios dentro da cadeia de abastecimento terão impacto na eficiência dos processos de transporte e na logística. Mas será que tem havido alguma evolução nas embalagens que são colocadas no mercado com esta preocupação? O debate tem sido recorrente ao longo dos últimos anos, no sentido de “encontrar um equilíbrio entre a necessidade de venda das empresas, sob a forma física das suas embalagens e as questões ambientais associadas à sustentabilidade do planeta”, sublinha Ana Paula Sardinha, Country Manager da CHEP Portugal.

O cuidado das marcas e da indústria tem sido crescente sobretudo na prevenção de criação de resíduos no momento da escolha das suas embalagens, o que tem sido impulsionado por metas e decisões graduais na União Europeia no sentido de diminuir o uso de plástico descartável. E isso é facilmente percebido pelos consumidores. “Porém, e embora muito esteja a ser feito ao nível das empresas e da sensibilização dos consumidores para as escolhas mais amigas do ambiente, é ainda considerado urgente olhar para as cadeias de abastecimento”, salienta a responsável. Segundo o estudo “Supply chains cause 40% of food waste in North America”, realizado pela Food and Agriculture Organization (FAO), as cadeias de abastecimento são responsáveis pela emissão de gases de efeito de estufa, causando cerca de 25% dos resíduos globais. “Ao longo dos últimos anos, a quantidade de embalagens primárias e secundárias utilizadas tem vindo a ser reduzida. Contudo, ainda se verificam paletes de uso único, caixas de cartão descartáveis e até embalagens de plástico que constituem grandes volumes de resíduos, emissões de CO2 e consumos de recursos naturais, contribuindo assim para uma situação alarmante. As cadeias de abastecimento ainda têm um longo caminho pela frente para se tornarem circulares. Mas é possível, e alguns players já são exemplo disso”, defende.

Pensar uma embalagem implica ter em consideração fatores, como o armazenamento, o manuseamento, a movimentação interna e o transporte. “Nesse caso, se a embalagem não for suficientemente resistente, a integridade dos produtos ficará comprometida, levando a uma possível logística inversa devido à recusa do cliente”, salienta Ana Paula Sardinha. David Rodrigues tem uma opinião um pouco distinta e afirma não ter a perceção de que estejam a ser introduzidas novas práticas de sustentabilidade relacionadas com embalagem. “Muitas vezes, a embalagem para transporte é ainda vista meramente como um custo ou como um ‘mal necessário’, sendo que muitos clientes ainda desvalorizam a sua relevância para o seu produto e na cadeia de abastecimento em geral. Na sua larga maioria, os materiais utilizados continuam a ser palete de madeira, cartão, filme plástico e/ou strapex, dos quais, apenas as paletes de madeira são reutilizadas e reintroduzidas novamente na cadeia”, explica.

Planear para melhor transportar

Na verdade, é preciso investir e planear a embalagem de forma “a evitar impactos no tempo de entrega ao cliente, nos custos logísticos, na redução de perdas, no nível de serviço oferecido e, em última instância, no nosso planeta. É necessário repensar, não só as embalagens, mas também os produtos e os modelos de negócio, e identificar novas formas de entregar valor aos consumidores ao mesmo tempo que removemos o desperdício desde a fase de conceção do produto e respetiva embalagem”, acrescenta Ana Paula Sardinha. Empresas como a CHEP estão a começar a fazer a ligação entre a tecnologia e a sustentabilidade e isso materializa-se, por exemplo, em novas paletes de plástico, feitas de plástico 100% reciclado, que podem ser equipadas com dispositivos tecnológicos de tracking para monitorização de carga, temperatura a que se sujeitam e localização em qualquer ponto da cadeia de abastecimento. “Por outro lado, as especificações altamente precisas de um produto de embalagem reutilizável satisfazem os requisitos rigorosos para instalações de manuseamento automatizadas e robotizadas.”

A Smurfit Kappa investe, desde 2005, cerca de 1 000 milhões de euros [1] para que as suas operações sejam mais sustentáveis. A empresa lançou um plano de trabalho até 2050 que se consubstancia na iniciativa Better Planet Packaging [2]. “O packaging é uma peça chave para otimizar a cadeia de fornecimento. Como tal, deve ser específico para as necessidades concretas de cada setor: proteger o produto para que chegue intacto ao seu destino, reduzir o espaço de armazém, melhorar o empacotamento e a manipulação, maximizar o transporte, etc.”, explica Susana Amaya, Quality & Food Safety & Sustainability da Smurfit Kappa Espanha, Portugal e Marrocos. A empresa trabalha com ferramentas que ajudam a analisar todas as áreas-chave que intervêm no ciclo completo da embalagem, tendo em conta aspetos como, a carga e a descarga, o transporte, o armazenamento e a entrega.  Ao desenhar todas as soluções de embalagem a pensar no final da sua vida útil (no seu regresso ao ciclo produtivo), a empresa fomenta a maximização da economia circular, com os quais são fabricadas as soluções de papel, renováveis, recicláveis e 100% biodegradáveis. Ao fazê-lo, a empresa ajuda “os operadores logísticos a serem mais eficientes, a otimizar as suas cadeias de fornecimento e a reduzir a sua pegada de carbono”.

A Smurfit Kappa acaba de publicar a 14ª edição do Relatório Anual de Sustentabilidade. “Entre as nossas conquistas nesta matéria, encontra-se a redução de 7% das nossas emissões de CO2 em 2020, relativamente a 2019, o aumento de 2% nas embalagens com certificado de Cadeia de Custódia entregues aos clientes ou a melhoria de 29% nas medidas de segurança em relação ao ano anterior. Fica assim patente um dos desafios mais ambiciosos que enfrentamos: conseguir, pelo menos, zero emissões líquidas para 2050”, revela Susana Amaya.

E o design? Tem algum impacto?

O design da embalagem adequado ao transporte faz toda a diferença, assim defende David Rodrigues. “Um bom exemplo disso está presente nas cadeias de abastecimento da indústria automóvel onde são concebidas embalagens adequadas ao produto e ao transporte que permitem elevados níveis de eficiência e otimização no transporte, assim como a sua resistência e reutilização, o que, numa indústria tão exigente com modelos de estandardização, tempos de trânsito e indicadores de qualidade, entre outros, é essencial”, defende. A DB Schenker pauta a sua atividade pela avaliação regular das possíveis soluções disponíveis no mercado e procura colaborar com os clientes promovendo um embalamento adequado das mercadorias a transportar.

Para Susana Amaya, o design otimiza a utilização de materiais. “Como tal, desenvolvemos uma série de ferramentas inovadoras que nos ajudam a criar soluções que se ajustam às necessidades dos nossos clientes. Entre elas, está a inovadora SupplySmart, que oferece valor e torna mais eficiente a cadeia de fornecimento, utilizando dados de mais de 80 000 cadeias logísticas de clientes em mais de 30 países, compilados durante anos para levar a otimização da embalagem para uma nova dimensão”, acrescenta. O objetivo é avaliar os riscos, entender as oportunidades e melhorar a eficiência das cadeias de fornecimento dos clientes, explorando todas as possibilidades.

Desta forma, salienta a responsável, conseguem eliminar-se problemas como o co-packing, aumenta-se a eficiência logística, de armazenamento ou de carga do camião e a flexibilidade na cadeia de fornecimento. “O resultado é a otimização da embalagem, o que representa grandes poupanças para os clientes e a melhoria do packaging para o transporte e a logística, oferecendo rentabilidade e valor real que consegue ser transmitido para o retail, ocupando menos espaço no armazém e no linear.” A Smurfit Kappa conta com equipas de design em todas as fábricas que conhecem tecnicamente todas as possibilidades de packaging, pelo que podem combinar e inovar para procurar a melhor solução para os clientes.

É importante reutilizar?

A escolha de embalagens reutilizáveis é bastante abrangente e tem uma estreita dependência com o produto a transportar. “Por norma, as embalagens reutilizáveis, por si só, representam maior segurança e proteção não necessitando de atenção especial, para além da sua gestão numa perspetiva de armazenagem para posterior reutilização com produto ou, quando aplicável, na gestão de logística inversa ‘em vazio’”, explica David Rodrigues. A solução mais comum, adianta, passa ainda pelas tradicionais paletes de madeira, podendo também o expedidor, com menor regularidade, optar por caixas ou contentores de madeira, ferro ou ainda de cartão.

Ana Paula Sardinha considera que “a reutilização de embalagens no B2B pode resultar em poupanças significativas de custos a longo prazo. Por esta razão, já existe uma ampla utilização de sistemas de embalagem reutilizáveis no mercado B2B”. São exemplos concretos, as paletes, os caixotes, os contentores intermediários a granel, e liners grandes, normalmente utilizados por muitas indústrias. “A existência destes modelos standard permite a automatização e redução de custos, atingindo mercados maiores, pelo que não se aconselha o uso de formatos personalizados de transporte, mas sim, a adaptação de modelos existentes”, explica. Além de investir em paletes de exposição Carbono Neutro na indústria, a CHEP vai mais além no sentido de criar cadeias de fornecimento regenerativas. “O nosso objetivo em 2025 é ter 30% de novos produtos de plástico feitos a partir de matéria-prima reciclada. O primeiro exemplo desta nova visão é a nova palete de exposição quarto de palete de plástico Q+ com rodas, lançada na Europa em 2021. É concebida de forma ecológica e feita de forma sustentável a partir de plástico 100% reciclado proveniente do mundo do consumo”, refere.

Todas as soluções da CHEP são reutilizáveis. “Ao garantirmos um ciclo de vida dez vezes superior que os seus similares de uso único, comprovamos que as soluções reutilizáveis da CHEP são robustas e seguras, não existindo a necessidade de as embalagens primárias e secundárias serem reforçadas para garantir a proteção do produto carregado”, acrescenta.

Todo o ciclo de vida das embalagens tem de ser ponderado, desde a sua produção ao transporte, à manipulação (nas fábricas, entrepostos e lojas), à sua utilização pelo consumidor e até ao processo de fim de vida, do descarte à triagem e reciclagem ou compostagem. “Isto, no caso das embalagens de uso único, porque no caso das embalagens reutilizáveis, é necessário prever ainda todo o processo de recolha, transporte, higienização e reenchimento das embalagens. Aspetos como o peso das embalagens, a sua resistência, o seu formato e a forma como são acondicionadas e transportadas, podem ter um impacto decisivo, não só nas suas funções primárias de proteção e conservação dos produtos, como também, na pegada associada ao processo logístico”, salienta fonte da Sonae MC. Apesar de a empresa promover a prática de reutilizar, assume algumas reservas relativamente a alguns modelos de reutilização “que têm um modelo logístico associado de tal forma pesado que tem que se estudar toda a análise de ciclo de vida do modelo para se aferir a sua bondade ambiental”.

Transportar garrafas

O produtor de vinhos Soalheiro identifica as garrafas como um ponto crítico e cujo impacto será determinante, “não só na redução muito significativa do consumo de vidro (menos 19% por garrafa representa uma redução de 56 toneladas de vidro ao ano), mas também na redução do seu peso no transporte, minimizando a pegada carbónica”, explica o enólogo e gestor da empresa, Luís Cerdeira. A nova garrafa é uma face mais visível de um compromisso com a sustentabilidade que a marca tem assumido na sua atividade. Com a criação de uma nova garrafa surgiu o desafio de repensar também as caixas de cartão utilizadas no seu transporte. “Criámos uma nova embalagem, com menos 39% de cartão, que é oriundo de florestas geridas de modo responsável (certificado FSC). Faz parte da nossa natureza, enquanto produtores que vivem da terra, protegê-la. Por isso, estamos a repensar todas as nossas práticas no sentido de identificar pontos críticos em que podemos melhorar a nossa ação e reduzir o impacto ambiental”, explica.

Através da renovação das garrafas, o Soalheiro dá um importante passo na estratégia de redução da pegada carbónica da empresa. “Uma vez que a produção passou a ser feita em Portugal, há também uma importante redução de quase 8,5 vezes no impacto no transporte das garrafas até à adega que antes provinham do centro da Europa”, sublinha. Valorizar as embalagens e, em simultâneo, reduzir o impacto ambiental são objetivos presentes e que impactam as metas futuras.

Anualmente, o Soalheiro investe 10% do orçamento global em I&D, com o objetivo de encontrar soluções e boas práticas, como é o caso da instalação da cobertura vegetal na adega, que além de um melhor enquadramento paisagístico, trará uma poupança energética estimada de 26% ao ano. E este será um caminho a manter. “Se ao reduzir o vidro nas garrafas ou o cartão nas caixas alcançamos um impacto tão significativo, então o caminho só pode ser o de continuar a evoluir e encontrar novas soluções que, tal como aconteceu nestes casos, além de reduzirem o impacto ambiental, têm como objetivo valorizar as embalagens”, sublinha Luís Cerdeira.

No setor das cervejas, a Carlsberg procura reduzir a sua pegada ecológica de forma global e, em particular, nos vários países onde é comercializada. Assim, procura priorizar o fornecimento de materiais provenientes de empresas portuguesas e desenha as embalagens por forma a reduzir o consumo de materiais de embalagens secundárias e terciárias tendo em vista, em simultâneo, a eficiência logística. “Todos estes aspetos são considerados quando se lançam novas embalagens. Acresce ainda o facto de quase 100% do volume da marca vendido em Portugal ser produzido cá dentro, o que nos permite dar esse contributo ativo em prol da redução da pegada ambiental”, explica António Lameira, diretor de logística e planeamento operacional da Super Bock Group.

A Carlsberg introduziu recentemente em Portugal “o Snap Pack,” uma solução inovadora que se traduz num ponto de cola que une as latas de cerveja, permitindo eliminar o plástico que normalmente acondiciona as embalagens de cerveja. “Este sistema é único no mundo, tendo já sido adotado em vários países onde a marca está presente, reduz o risco de resíduos poluentes e diminui as emissões de dióxido de carbono e a dependência dos invólucros baseados em combustíveis fósseis”, acrescenta.

A mais recente novidade da marca na área da sustentabilidade são as novas esplanadas 100% recicladas, espalhadas por todo o país, onde os consumidores podem desfrutar de uma cerveja fresca. “Todos os elementos da esplanada (cadeiras e tampos de mesa) são recicláveis para uma maior promoção da economia circular. Já as pernas da mesa são de metal, um material que pode vir a ser reaproveitado para vários setores como a indústria automóvel ou a construção civil”, foca António Lameira.

Considerando a embalagem e o seu acondicionamento como fatores essenciais para a eficiência logística e para a área de sustentabilidade, a marca procura assegurar sempre um transporte seguro e sustentável, ao mesmo tempo que mantém “elevados padrões de eficiência” usando cada vez menos materiais secundários. “A utilização de embalagens retornáveis é também importante na nossa jornada de diminuição do impacto ambiental e o seu desenho fundamental para a eficiência logística”, remata.

* Artigo publicado na edição impressa da LOGÌSTICA&TRANSPORTES HOJE #152