Entrevista a Fernando Torres (Torrestir): Não excluímos a hipótese de trabalhar nas entregas expresso

Torrestir investe 45 milhões em 2019

Não é muito habitual nos tempos que correm ouvir falar de boas perspetivas de crescimento e de manutenção dos investimentos. Com um otimismo desarmante, o Presidente do Conselho de Administração da Torrestir discorre desde os tempos em que “fazia um pouco de tudo” até à ambição de entrar em novos serviços, como o B2C, e novos mercados, como o Brasil. Com 50 anos de idade, o Grupo continua a crescer a dois dígitos. 

Por: Sandra Costa | Fotos: David Oitavém

 

Logística & Transportes Hoje – Que balanço faz dos 50 anos de atividade do Grupo Torrestir, comemorados este ano, e quais elege como os momentos determinantes na vida da empresa?

 

Fernando Torres –  A empresa foi criada em 1962 pelo meu pai, nessa altura a nossa licença permitia-nos atuar num raio de 30 quilómetros. Como tínhamos sede em Braga nem sequer podíamos chegar ao Porto, o nosso limite era Trofa! Mais tarde, a licença foi alargada aos 50 quilómetros, depois aos 100 e finalmente tivemos permissão para fazer o longo curso. A partir de 1967 passámos a fazer Braga-Lisboa, o que nos levava oito horas de caminho. Transportávamos móveis do Norte de Portugal para Lisboa e para termos carga para levar para cima falávamos com as farmácias locais que compravam medicamentos que nós transportávamos. Foi assim que nasceu a Torrestir. É difícil perceber o que era este negócio há 50 anos atrás: as licenças de circulação, as condições das estradas e do próprio transporte. Tínhamos de ir com uma mantinha nas pernas, por causa do frio…Um momento determinante foi a crise dos anos 1983-86. Nessa altura fecharam cerca de metade das empresas do nosso setor, não havia importações, não tínhamos divisas, chegámos a ter camiões parados durante meses. Como a crise era muito grande, decidi meter-me no carro e ir procurar clientes em Espanha e no Sul de França e é assim que nasce o transporte internacional: comprámos três empresas para obter o alvará de TIR e ficámos com duas empresas, uma fazia o transporte nacional e outra o internacional, isto em 1987.  Em tempos de crise também se ganha dinheiro. Temos é de ir à procura de soluções. E foi assim que fomos crescendo, lentamente, adquirimos algumas empresas, alargámos a gama de serviços. Até hoje temos vindo sempre a crescer.

 

A Torrestir é uma empresa familiar, como muitas neste setor. Quais são, na sua opinião, as vantagens e desvantagens do modelo de organização familiar e quais os aspetos em que a Torrestir se diferencia?

 

Na nossa área é vantajosa a origem familiar. Eu conheço o serviço todo, tanto sei o que é uma carga como um motor, tenho um know how que os jovens não têm. Em momentos de crise fiz um pouco de tudo e esse conhecimento é uma mais valia.  Mas o fator de diferenciação da Torrestir está no serviço que prestamos, que é uma consequência da qualidade dos nossos recursos humanos, esse é o aspeto que nos distingue das outras empresas do setor. Aqui não pesa o facto de sermos uma empresa de origem familiar mas a aposta que a empresa faz na formação há já cerca de 20 anos. Sempre demos formação ao pessoal, em todas as áreas.

Outro elemento de distinção é o facto de nunca termos distribuído dividendos, todos os lucros são reinvestidos, compramos tudo a pronto e não estamos dependentes da banca. Tomei essa decisão nos anos 80, quando os juros bancários atingiam 27%. Tudo o que ganhamos é investido na nossa área, que é o que sabemos fazer. Os economistas dizem que é uma má estratégia mas a verdade é que temos vindo sempre a crescer. 

 

Hoje, Portugal enfrenta uma nova crise económica. Que momento de viragem poderá representar esta crise para a Torrestir, ou seja, quais são as vossas expetativas de evolução futura?

 

Atualmente temos de suportar fortes aumentos nos custos: o combustível já representa 47% da estrutura de custos no transporte internacional e 30% no nacional. Desde o início do milénio que temos vindo a apostar nos mercados internacionais e continuamos a fazê-lo.

Em 2000 abrimos uma empresa em Espanha, em 2002 entrámos na Alemanha. No início de 2013 vamos arrancar a operação na Polónia e adquirimos 30% de uma empresa no Brasil, onde temos alguns projetos previstos para o ano que vem. Mas nunca vamos deixar o nosso mercado. Acredito que somos bons no que fazemos e vamos continuar. 

 

 

Qual a estratégia que tem presidido à vossa estratégia de internacionalização?

 

Entrámos em Espanha, na Alemanha e agora na Polónia para dar suporte a clientes nossos que têm negócios nesses países. Atrás desses clientes vêm outros, como resultado da qualidade e da eficácia do serviço que prestamos. Os primeiros três anos não são fáceis mas depois adaptamo-nos às realidades locais. E digo-lhe que invejo a realidade alemã, as coisas lá são muito mais fáceis, há um controlo mais apertado, cumpre-se, não há a fuga para a frente que existe cá e eu sinto-me bem assim. 

 

Quais foram as principais dificuldades que enfrentaram, ou, por outras palavras, quais pensa serem as condições para se ter sucesso na internacionalização?

 

A maior dificuldade é o reconhecimento da marca e dos serviços que prestamos. No nosso caso, como não adquirimos empresas locais, começámos da estaca zero e tivemos dificuldades nos primeiros anos, relacionadas com o facto de a empresa não ser conhecida.  Depois os clientes começaram a aperceber-se da nossa qualidade de serviço e as portas foram-se abrindo. Hoje concorremos com operadores logísticos e transportadores alemães em igualdade de circunstâncias. Investimos muito em ferramentas informáticas que nos permitem obter informação em tempo real e isso pesa muito e marca a diferença. Também participamos em feiras como forma de nos darmos a conhecer ao mercado. Estivemos presentes na última Transport Logistic de Munique e para o ano vamos participar de novo.

 

Porquê a aposta no Brasil e porque decidiram alterar o modelo de expansão, através da aquisição de uma empresa, ao invés da manterem o modelo orgânico usado na Europa?

 

Entrar no Brasil é uma ideia com quase 30 anos. Já na crise de 1983 equacionei a entrada no mercado brasileiro, cheguei a ir lá mas percebi que não era a altura certa. O Brasil é um mercado de que gosto, grande e que está a crescer muito. Há vários anos que ando a estudá-lo e a verdade é que se trata de uma realidade muito diferente da nossa, com leis também muito diferentes. Adaptei-me muito bem às leis alemãs, mas creio que no Brasil não será tão fácil… Concluí que o modelo que temos usado nos mercados europeus não servia no Brasil, por isso optei por comprar 30% de uma empresa, com opção de aquisição de mais 21%.

Essa empresa tem cerca de 30 anos e para já vamos operar com a marca e os meios existentes. Temos de fazer um estudo ao mercado para avaliar se devemos ou não mudar a marca. Aprendemos com os erros dos outros, e a experiência da TNT no Brasil faz-nos refletir: após a compra da Mercur pela TNT, e da mudança do nome, as vendas caíram a pique, ao ponto de a TNT ter optado por voltar a dar o nome antigo e operar agora com as duas marcas.

Nalgumas áreas o Brasil está mais avançado que Portugal, mas na área da logística temos um know how muito grande que queremos levar para lá. Estamos a prepararmo-nos para em 2014 levarmos para o Brasil uma equipa nossa e as ferramentas informáticas necessárias para estarmos habilitados a prestarmos lá o mesmo serviço que prestamos cá. Nessa altura deveremos comprar mais 21%, para termos uma posição maioritária.

 

Que outros projetos têm nos mercados internacionais?

Estamos presentes em Angola há quatro anos, onde operamos com a marca Logitrans, de que fazem parte dois sócios portugueses (Torrestir e Paulo Duarte) e um angolano. Mas estamos a crescer muito pouco…

Tenho para Angola um projeto de fazer a distribuição porta-a-porta em Luanda, em 24 horas, e no resto do país, em 48 horas. Que eu conheça, ainda não está lá nenhuma empresa com um serviço eficaz, igual ao nosso. Acompanho o país desde 1992 mas ainda não avancei com este projeto porque sinto que o mercado não está preparado. Trata-se de um investimento muito grande e tenho de pensar muito bem qual é a melhor altura de entrar. Eu não vou para os países para ganhar dinheiro rápido e fácil.

 

Quanto representa o mercado internacional no volume de negócios da Torrestir?

 

Cerca de 35%, sobretudo o mercado alemão, no caso de Espanha quase tudo é faturado em Portugal. E tenho grandes ambições no Brasil. O meu sonho é ter uma Torrestir no Brasil, com a consciência que no mercado brasileiro não é grande.

 

Voltando ao mercado nacional, a Torrestir iniciou atividade há 50 anos como empresa transportadora. Entretanto diversificou a gama de serviços e hoje além do transporte e da distribuição nacional e internacional, presta serviços na área da logística e atua até como empresa transitária de carga aérea e marítima. Existem novos projetos em termos de serviços prestados?

 

A Torrestir atua em três áreas predominantes: transportes, logística e atividade transitária. A distribuição porta-a-porta nacional representa cerca de 60% do nosso negócio, os transportes internacionais pesam cerca de 30% e a logística e a atividade transitária os restantes 10%. Esperamos crescer em todas as atividades onde atuamos, sobretudo na logística e na distribuição porta-a-porta. O nosso objetivo é continuar a crescer nas áreas onde já trabalhamos, um passo de cada vez, mais do que entrar em novos serviços.  Mas não excluímos a hipótese de trabalhar nas entregas expresso, por exemplo, que é uma atividade que desenvolvemos desde a década de 90 para a Alemanha: a carga saía daqui na 6ª feira à meia-noite e estava às 8 horas da manhã de 2ª feira na Alemanha.

 

Hoje têm quatro lojas que funcionam como pontos de entrega e levantamento de mercadorias e planeiam chegar às 240 lojas. Isso representa a intenção de entrar no mercado B2C?

 

Podemos ver por essa via… Nós já fazemos distribuição porta-a-porta em todo o país, em 24 horas, já temos os carros e podemos aumentar os pontos de recolha sem mais custos.

Começamos a sentir que o mercado necessita de mais um operador e nesse sentido estamos a desenvolver ferramentas informáticas para dar apoio a este negócio, de forma a intensificarmos a nossa atuação em 2013. O nosso objetivo é termos 300 lojas de apoio à entrega e recolha de mercadorias até 30 quilogramas. Estamos em negociações com um parceiro que dispõe de mais de 300 lojas abertas ao público. Se fecharmos contrato com ele podemos abrir já uma grande quantidade de lojas, possivelmente uma centena em 2013.

 

É intenção da Torrestir entrar no mercado domiciliário?

 

Isso será uma segunda fase. Depende de ganharmos ou não os contratos com clientes que necessitem deste serviço, pode ser algo que aconteça de forma mais rápida ou mais lenta. Quando pego num projeto tenho de ter bases sólidas para não ter de voltar atrás. Se tiver de o fazer tenho coragem para isso, é um ato de gestão, mas é melhor não ter de o fazer.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição de Novembro/Dezembro da LOGÍSTICA & TRANSPORTES HOJE