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Supply Chain

“Nova Ordem” pressiona procura e operações

operações

No atual contexto, as operações logísticas e de distribuição das vacinas para a covid-19 são um desafio premente para os operadores, que se adaptam e reinventam ante uma nova organização da logística urbana. O e-commerce ocupa definitivamente um lugar consistente no setor, não só por imposição da pandemia, mas, e sobretudo, pelos novos hábitos dos consumidores.

Em tempos de pandemia, são muitos os desafios que se colocam aos sectores logístico e da distribuição. O mais premente, porventura, e que está na mira de todos, é a capacidade que Portugal tem para responder ao exigente nível que se impõe nas operações logísticas e de distribuição das vacinas para a covid-19.

Como perspetivam os operadores o desafio logístico que o País enfrenta no que concerne a esta matéria? Para a Luís Simões, este é um “comboio que já partiu da estação”. De acordo com Vítor Enes, diretor ibérico de business development da empresa, “como com qualquer medicamento e, sobretudo, nova operação”, a adoção da vacina para a covid-19 “implica as suas especificidades e detalhes logísticos, que é necessário resolver numa fase inicial, como a obtenção de licenças para esta atividade em particular e a garantia de condições de armazenamento especiais, o que nem sempre é fácil”. De qualquer forma “parece-nos que tudo está a decorrer dentro do expectável para uma operação desta monta e que implica tanta coordenação internacional”.

Na opinião de Joaquim Vale, administrador da Santos e Vale, “nesta primeira fase tudo irá depender do ritmo ao qual chegarão as vacinas a Portugal”. Não prevendo complicações logísticas para os operadores envolvidos se “se mantiver este ritmo lento”, o responsável alerta, contudo, que também poderá acontecer que, “se num curto prazo de tempo chegarem a Portugal um grande número de vacinas, que como sabemos têm um reduzido prazo de validade após o descongelamento”, a sua distribuição e respetiva aplicação nos locais de vacinação fique comprometida. Nas suas palavras “os requisitos desta operação mundial são muito específicos e exigentes, pelo que qualquer atraso pode comprometer toda a distribuição”. Numa segunda fase, “com a aprovação da vacina da AstraZeneca e as condições logísticas mais ‘normais’, acreditamos que podemos ter o nosso papel neste desafio”, avança ainda a Santos e Vale.

E-commerce revoluciona processos logísticos

No atual contexto de crise pandémica, o potencial de evolução do e-commerce em Portugal é outro desafio para os operadores logísticos: “pela nossa parte, vimo-nos obrigados a repensar a nossa estratégia e a realocar para as operações de e-commerce colaboradores que habitualmente se dedicavam a outras operações cujo volume de atividade se viu reduzido devido à pandemia”, comenta Vítor Enes. A aposta reforçada da Luís Simões no e-commercepoderá criar a necessidade de ainda mais postos de trabalho na área, que continuará a ser suprida por esta realocação de colaboradores de outras áreas, ou através de novas contratações”, detalha.

Por outro lado, a empresa aposta cada vez mais na automatização, “para fazer face a esta tendência”, pelo que reforçou o seu investimento no Polígono Puerta Centro – Ciudad del Transporte (Guadalajara, Espanha), que “é fulcral para a nossa operação neste segmento”, conclui o diretor ibérico. Para quem “não obstante os desafios que envolve, o desenvolvimento da área de e-commerce será uma grande oportunidade para o setor. Exige uma rápida capacidade de resposta da parte dos operadores e uma maior agilidade nas operações, o que acaba por aumentar a produtividade e eficiência”.

A “explosão” do setor do e-commerce foi visível para a empresa, que, desde que o período de pandemia começou, registou “um aumento muito considerável de pedidos e encomendas de e-commerce, fazendo-nos sentir que vivíamos uma Black Friday permanente durante os primeiros tempos”, comenta Vítor Enes. O diretor ibérico de business development considera que estes pedidos “vão continuar a aumentar de forma consistente, com o prolongar da pandemia e, sobretudo, com a formação de novos hábitos por parte dos consumidores que já não vão desaparecer, mesmo com o ‘fim’ desta situação”.

Já o administrador da Santos e Vale sublinha que a empresa não irá alterar o seu posicionamento no mercado. Segundo Joaquim Vale, “o pormenor e a proximidade ao cliente irão continuar a ser os fatores diferenciadores, desde o momento em que o cliente contacta, no desenvolvimento da solução logística e de transporte que necessita e na operacionalização, com uma constante procura de melhoramentos e otimizações”. Na sua perspetiva, esta dedicação ao pormenor permite “oferecer uma solução total aos clientes, desde a logística à distribuição, para que estes possam estar dedicados ao seu negócio”.

A Santos e Vale está “a seguir a estratégia de crescimento definida para este ano”, continuando a aumentar a estrutura da empresa em recursos humanos qualificados, e a incrementar e renovar a sua frota. A empresa vai ainda continuar a abrir e melhorar as suas plataformas, a utilizar todas as tecnologias que estejam ao seu alcance para otimizar as operações e a apostar na sua “política ambiental de utilizar menos, gastar menos e assim poluir menos”, detalha o responsável.

Aproximar as plataformas das cidades

Considerando o atual mercado globalizado e a tendência para as empresas oferecerem serviços integrados, os operadores logísticos enfrentam também, e inevitavelmente, a transformação digital, com todos os benefícios que dela podem retirar.

A Luís Simões “acredita firmemente que o futuro do setor da logística passa pela automatização”, e defende que “a única forma de os operadores logísticos enfrentarem a transformação digital é abraçá-la e levá-la ao terreno”, afirma Vítor Enes. Neste contexto, nos últimos anos a empresa tem vindo “a apostar neste modelo, sempre que as condições da operação assim o permitem e justificam”.

A automatização implementada nos armazéns da Luís Simões “é uma ferramenta estratégica que gera valor para os clientes”, garante, “permitindo o aproveitamento das tecnologias emergentes para conseguir operações mais eficazes”. Graças a ela, “podemos lidar da melhor forma com os grandes volumes de pedidos e respetiva movimentação, garantindo a diferenciação face à conferência”, explica o responsável, referindo ainda que, para além das vantagens nas operações de logística, e-commerce e distribuição tradicional, o investimento em tecnologia “aumenta a rentabilidade dos processos, minimizando as probabilidades de erro, aumentando a rastreabilidade da mercadoria e diminuindo o tempo e os recursos exigidos pelas operações”.

Destacando as tendências que estão a tornar os armazéns inteligentes numa realidade – veículos autónomos, robôs inteligentes, realidade aumentada, impressão 3D, identificação por radiofrequência, Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial, sistemas pick-to-light e voice picking – Vítor Enes defende que a automatização reduz também diversos riscos de saúde e segurança, “o que é fundamental, e especialmente importante no momento que vivemos”.

Na opinião de Joaquim Vale, existe “uma nova ordem”, e esta nova realidade “tem pressionado a procura de novos canais de venda, novos processos de trabalho e novas formas de relacionamento com todos os intervenientes da cadeia, o que obriga a que as empresas se reinventem todos os dias”. O administrador acredita que “não serão os mais fortes ou inteligentes que irão sobreviver, serão certamente os que se adaptarem mais rapidamente”.

Na Santos e Vale, o Serviço de Logística Integrada conta com a oferta de um serviço desde o transporte a partir do produtor, toda a logística de armazém, e distribuição com a entrega nos destinatários finais. Todo este processo é “controlado e visível através das ferramentas digitais ao dispor da empresa e dos clientes”. A utilização das novas tecnologias já é uma realidade na empresa “há vários anos”, e a mesma tem vindo a implementar novas ferramentas de gestão e otimização de rotas, assim como de reporte, através do seu sistema mobilidade on time.

Também para o diretor ibérico da Luís Simões, associada à tendência do e-commerce, surge “uma nova organização da logística urbana, que tem forçosamente que se adaptar a estas novas condições”. A Luís Simões, que não faz entregas ao domicílio, consegue identificar “alguns grandes desafios que se avizinham, e que trazem também oportunidades significativas”. Por um lado, os clientes são cada vez mais exigentes quanto à rapidez das entregas no e-commerce e querem os seus produtos em casa no mesmo dia ou nas 24h seguintes. O que gera “questões de espaço, nomeadamente de relocalização dos armazéns, porque os stocks terão que estar cada vez mais próximos dos pontos de entrega para podermos cumprir essa exigência de velocidade”.

Por outro, impõe-se a exigência da sustentabilidade, defende, pelo que “não temos dúvidas de que vamos ter que aproximar as plataformas das cidades, para que os veículos de distribuição urbana percorram o mínimo possível de quilómetros, sejam mais sustentáveis e garantam o melhor e mais otimizado serviço”.

Ferrovia será grande elo na cadeia de distribuição

No que respeita a estratégia de internacionalização, a partir do ano 2000, e com a implementação do negócio da logística em Espanha, o crescimento da Luís Simões “foi exponencial” e as suas operações no país vizinho “foram-se consolidando, o que se refletiu claramente nos números da empresa”, sublinha Vítor Enes. A faturação da empresa nos últimos 12 anos aumentou em 51%, “em grande parte graças a esta expansão internacional”, explica.

Atualmente, o mercado espanhol representa 50% da atividade ibérica da Luís Simões. A empresa continua a procurar oportunidades de crescimento, com destaque para Guadalajara, que “já é uma zona de extrema importância para toda a nossa operação no país, centralizando grande parte da nossa atividade”, diz Vítor Enes. A Luís Simões foca-se em impulsionar o seu crescimento na Península Ibérica, que considera o seu “espaço natural de afirmação”, com “a inovação e a sustentabilidade como principais motores”. Paralelamente ao potencial de crescimento “muito relevante” que continua a existir nesta região, e ainda que, de momento, não esteja a olhar para além destas fronteiras, a empresa estuda várias opções e está atenta a possíveis oportunidades que possam surgir, conclui o diretor ibérico.

Também a atividade da Santos e Vale está centrada na península ibérica, “com especial foco na distribuição expresso de paletes em Portugal continental”. A empresa tem operações em Espanha desde 1999 e até hoje já experimentou vários modelos de negócio, detalha Joaquim Vale, “desde presença local a distribuição direta a partir de Portugal e através de redes de distribuição de parceiros no país vizinho”. Segundo o administrador, “este último modelo tem-se revelado mais frutuoso para a empresa, pelo que a médio prazo não vemos necessidade de o alterar”.

Estes são dois exemplos de internacionalização ibérica. Mas como estão os operadores de transporte (terrestre, aéreo e marítimo) a contribuir para incrementar a exportação das empresas portuguesas? Na opinião da Luís Simões as soluções de logística e transporte “existem e estão a funcionar, sejam elas no modo terrestre, aéreo ou marítimo, com operadores nacionais ou internacionais”. Portanto, as empresas nacionais “podem apostar na exportação, escolhendo a forma mais competitiva de transporte que sirva os respetivos negócios”, defende Vítor Enes.

Na sua perspetiva, “os fatores decisivos estão muito mais na mão dos nossos exportadores do que na mão dos operadores logísticos”. O diretor ibérico exemplifica: “de que forma é que as nossas empresas exportam? Vendem à porta da fábrica ou à porta do cliente? Isto é, dominam a totalidade da cadeia de abastecimento, ou deixam uma parte na mão de terceiros? Apenas esta decisão, da venda na porta do cliente em qualquer parte do mundo, tem um efeito multiplicador exponencial (em valor) nas nossas exportações”, conclui.

Em Ano Europeu do Transporte Ferroviário, a aposta na ferrovia pode ter repercussões no transporte rodoviário. Mas na opinião de Joaquim Vale, nos próximos anos “o transporte rodoviário continuará a ser o garante da distribuição de bens e mercadorias em Portugal e na Europa”. Isto porque, apesar de todas as promessas do governo, não existem grandes perspetivas de crescimento significativo do transporte ferroviário em Portugal, pelo que o mesmo será importante a médio e longo prazo para a economia”, vaticina o administrador da Santos e Vale. Nas suas palavras, “quando este meio de transporte tiver as infraestruturas necessárias e realmente adaptadas às necessidades do país, poderá ser um grande elo na cadeia de distribuição, contribuindo para uma redução do impacto que a atividade logística tem no meio ambiente”.

Recordando que um dos propósitos fundamentais que move a Luís Simões é a sustentabilidade das operações e estratégias, Vítor Enes considera que “o transporte ferroviário é um setor que tem todo o potencial para apostar nesta vertente”, esperando que este Ano Europeu possa vir a reforçar isso mesmo. De resto, a empresa considera “acertada” esta aposta na ferrovia, considerando que “todos os meios de transporte têm o seu lugar no mercado, desde que se apresentem com soluções competitivas e sustentáveis”, do ponto de vista económico, ambiental e social.