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Supply Chain

Requalificação de talento será crucial nos próximos anos

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Os últimos meses foram de disrupção para a logística e para os transportes. Se por um lado o setor teve de lidar com a explosão do e-commerce, por outro viu-se a braços com a paragem de alguns importantes setores da economia. Mais do que um reforço das equipas, nos próximos meses o esperado é uma maior aposta na requalificação dos recursos humanos para dar resposta a um mercado com cada vez maior volatilidade.

A pandemia de covid-19 colocou a cadeia de abastecimento à prova. Com a incerteza relativamente ao avanço da doença a pairar, o Governo viu-se obrigado a decretar estado de emergência e os transportadores, operadores logísticos, fornecedores e retalhistas tiveram de se unir para garantir que a economia não parava e que as necessidades básicas da população continuavam a ser satisfeitas.

Passado o pior (pelo menos por agora), os analistas da Crédito y Caución apontam agora para a maior recessão económica mundial desde 1980, uma crise que deverá afetar fortemente as cadeias de abastecimento e com impactos esperados na rentabilidade das empresas e nos postos de trabalho.

O mais recente Manpower Employment Outlook Survey, relativo ao terceiro trimestre deste ano, revela já que o setor da logística e dos transportes tem uma previsão de criação líquida de emprego negativa, com uma queda face ao trimestre anterior de 16% e com 73% das empresas do setor a reportar quebras no negócio durante o estado de emergência.

Vítor Antunes, managing director da Manpower, explica à LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE que, embora a expectativa seja de redução do número de postos de trabalho no setor, a evolução do e-commerce poderá ajudar a manter alguma estabilidade.

“A quebra já se faz sentir, pese embora o maior dinamismo do canal digital em todas as atividades comerciais. Portanto até acreditamos que o cenário possa ser positivo, embora existam fatores económicos que condicionam o consumo e que poderão ter impacto ao nível da afluência às lojas físicas. No entanto, a verdade é que teremos mais canais de consumo ativos e isso poderá ser positivo”, defende.

De acordo com Vítor Antunes, o setor, e o mercado de trabalho no geral, terá de aprender a viver com a elevada volatilidade, a incerteza, a complexidade e a ambiguidade dos mercados que têm agora ciclos de mudança cada vez mais curtos.

“Significa isto que se torna difícil prever como será o mercado daqui a quatro meses. A realidade que vemos hoje indica-nos menor criação de emprego, aumento de desemprego, PIB em contração e o consequente impacto no consumo. Ainda assim, se o tecido empresarial se adaptar e fizer por conseguir encontrar soluções de empregabilidade a quem estará ativamente no mercado de trabalho, essa tendência ainda se poderá inverter com impacto na capacidade de consumo das famílias e na geração de negócio. Para isso será fundamental centrarmo-nos em ações ágeis de requalificação de talento. Isso passará por coisas simples, como refazer os perfis funcionais, privilegiando competências como a Learnability, que determina a nossa empregabilidade a longo prazo. Passa também por recorrer a pools alternativas de talento, e em modelos diferentes”, acrescenta o managing director da Manpower.

De acordo com estudo Talent Shortage Survey, realizado de forma regular pela ManpowerGroup, atualmente as dez funções mais procuradas em Portugal no setor da logística e dos transportes são motoristas, distribuidores, técnicos de controlo de qualidade e especialistas de serviço ao cliente para tracking de encomendas online, mas tudo isto poderá mudar a muito curto prazo, sendo essencial requalificar a atual mão-de-obra para assumir novos desafios, como aliás se verificou com a crise criada pela covid-19.

“O que o momento que estamos a viver pode proporcionar é uma nova versão do desencontro de competências no mercado de trabalho. Significa isso que algumas funções poderão desaparecer, mas outras poderão ser criadas em função do maior ou menor dinamismo de um ou outro canal. E nesse momento as organizações devem responder com políticas de Construção de Talento e Competências, procurando pools alternativas de talento, aproveitando o facto de existirem mais pessoas disponíveis no mercado de trabalho para melhorar a sua competitividade e, inclusivamente, colaborando umas com as outras no sentido de criar condições para o intercâmbio dos seus trabalhadores”, conclui Vítor Antunes.

Otimização do talento interno e recurso às novas tecnologias ‘salvam’ o setor

Um dos impactos mais imediatos da covid-19 foi o crescimento do e-commerce. Com as restrições impostas ao retalho e as ‘ordens’ para confinar, os consumidores viraram-se para o comércio eletrónico e os operadores logísticos foram chamados a dar resposta. Quem não fazia entregas no last mile passou a fazer e quem já fazia teve de aumentar as suas frotas dedicadas a essa área de negócio e realocar colaboradores de áreas que repentinamente registaram quebras abruptas de volume de trabalho.

Camila Souto, team leader da área de Engenharia e Logística da Hays, conta que “as empresas deste ramo, à semelhança dos outros setores, acabaram por responder à altura, mas dando prioridade a soluções internas. O que se verificou foi uma otimização de recursos internos, quer logísticos, quer humanos, e principalmente de novas tecnologias. Tal como durante o estado de emergência o foco foi na otimização dos recursos internos, acreditamos que durante o período de desconfinamento a tendência se irá manter. As empresas têm apostado na promoção de competências internas para conseguir responder efetivamente, algo que também leva tempo a consolidar, o que significa que continuará o cenário nos próximos meses.”

Além disso, a team leader da área de Engenharia e Logística da Hays acredita que nos próximos tempos a procura de recursos humanos no setor continuará a recair sobre os gestores de tráfego, cada vez mais importantes para garantir uma operação eficiente.

“Nos últimos anos, os gestores de tráfego têm sido dos perfis mais procurados, precisamente por serem profissionais que se focam na otimização das rotas e na capacidade de dar resposta de forma mais efetiva. Estes foram quadros valorizados durante o estado de emergência e que continuarão a ser prioritários de manter em estruturas de logísticas e de transportes”, conclui.

Contratação de perfis especializados deverá acelerar

Por outro lado, a expectativa é de que no middle e no top management, assim como nas funções mais especializadas, as contratações continuem dinâmicas. Pelo menos é o que diz Filipe Forte, associate manager da Michael Page.

“As empresas já estavam a começar a olhar para a logística e transportes e a investir no seu crescimento, mas com este aumento exponencial do e-commerce existiu uma aceleração na contratação de profissionais especializados. Vemos cada vez mais as empresas a apostarem neste setor, que é cada vez mais importante dentro de uma organização, focando-se na logística e transportes para fazer face a esse crescimento (…) Nós, que somos especializados em funções de middle e top management, achamos que não existirá uma quebra na contratação neste sector, pois as empresas verificaram que tinham graves lacunas e que não estavam preparadas, pelo que achamos que as contratações neste setor irão manter-se dinâmicas nos próximos tempos”, defende Filipe Forte.

A este nível, os perfis mais procurados têm sido de diretor de logística, responsável de transportes, responsável de supply chain, gestor de fluxos logísticos, responsável de logística e customer service e supply & demand planner.

Filipe Forte acredita ainda que o crescimento do e-commerce terá um impacto positivo no setor da logística e dos transportes, esperando-se que sejam criados novos postos de trabalho. “Temos sentido um grande crescimento no canal e-commerce e na aposta das organizações, pelo que sendo a logística e supply chain um dos pilares do e-commerce, naturalmente existirá benefícios muito positivos para o setor. Estão a ser criadas diversas funções e postos de trabalho neste setor que não existiam no passado, o que só vai beneficiar a logística e os transportes, bem como todos os profissionais que nela trabalham”, conclui.

Luís Simões aposta na requalificação do talento interno

As empresas do setor ouvidas pela LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE confirmam algumas destas tendências e há até quem já esteja a acelerar a requalificação dos colaboradores com o objetivo de fintar a rápida transformação do mercado.

É o caso da Luís Simões que em julho anunciou a criação do projeto ‘Escolas LS’, um programa de formação interno orientado para promover o talento das equipas e fortalecer o serviço ao cliente. De acordo com a empresa, o objetivo é que os colaboradores atualizem os seus conhecimentos em diferentes áreas fundamentais, com o objetivo de potenciar a rentabilidade e a eficiência das mais variadas operações.

Na data de lançamento do projeto, Javier Montero, diretor Corporativo de Recursos Humanos da Luís Simões, afirmou que “as pessoas são o ativo mais valioso da Luís Simões. Graças a elas podemos desenvolver, todos os dias, soluções logísticas que criam valor para os nossos clientes e nos ajudam a crescer. Investir na equipa é investir em nós mesmos enquanto empresa, e isso é algo que já faz parte da filosofia LS há décadas.”

Já em declarações à LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE, Vítor Enes, diretor de business development da Luís Simões, assume que o momento que o setor está a viver vai exigir, cada vez mais, evolução e capacidade de adaptação.

A empresa, que atualmente conta com mais de 12 mil metros quadrados dedicados ao e-commerce em toda a Península Ibérica, não sentiu necessidade de contratar mais motoristas nos últimos meses, mas registou um crescimento dos volumes geridos.

“Não contratámos novos colaboradores, mas vimo-nos obrigados a repensar a nossa estratégia e a realocar para as operações de e-commerce colaboradores que habitualmente se dedicavam a outras operações e cujos volumes de atividade se viram reduzidos por causa da pandemia. Sentimos claramente um pico de trabalho no início da pandemia. Uma parte significativa dos nossos clientes são empresas do setor do Grande Consumo, que registou um aumento relevante da procura, como é natural, devido ao confinamento. Por exemplo o café foi um dos produtos onde assistimos a um grande e repentino crescimento. Graças à nossa especialização e ao nosso vasto conhecimento de operações de e-commerce em geral, e das características das cadeias de distribuição de cada um dos nossos clientes em particular, pudemos dar resposta eficaz a este pico do volume de pedidos”, revela Vítor Enes.

Desde o início da pandemia, as operações de e-commerce da Luís Simões realizaram uma média de 11 mil expedições por dia a nível ibérico. “De uma forma geral, podemos também dizer que a procura deste serviço mais do que duplicou em relação ao período homólogo – a média de 2019 fora de 5 mil expedições por dia. Este volume de distribuição dos últimos meses é equiparável ao que registávamos habitualmente nas épocas-chave do consumo, como o Natal ou a Black Friday. Agora vivemos praticamente uma Black Friday permanente”, admite ainda o diretor de business development da Luís Simões.

Os pedidos e encomendas do comércio eletrónico, acredita ainda, deverão continuar a aumentar, com a empresa a preparar-se para conviver com a pandemia com um maior foco na especialização neste segmento da logística.

“Nos últimos anos as compras online têm sofrido um grande aumento por parte dos consumidores, razão pela qual nos temos vindo a dedicar-nos e a especializar-nos neste segmento da logística desde 2013. Este processo já estava em marcha na LS e o confinamento veio acelerá-lo. Teremos de conviver com a pandemia ainda por um período incerto. Devemos ajustar-nos e adaptar-nos a esta realidade, nomeadamente através da automatização. O nosso investimento no Polígono Puerta Centro – Ciudad del Transporte, em Guadalajara, é exemplo disso. Dispõe de uma nave completamente automatizada que oferece múltiplas vantagens nas operações de e-commerce e também na distribuição tradicional, como o aumento da rentabilidade dos processos ao minimizar a possibilidade de erro, o aumento da rastreabilidade da mercadoria e a diminuição do tempo e recursos das operações, enquanto garante o distanciamento social agora imposto, e que parece ter vindo para ficar”, acrescenta.

Quanto aos postos de trabalho, a estratégia da Luís Simões passará pela realocação de colaboradores de outras áreas, mas Vítor Enes não põe de lado a possibilidade de novas contratações.

“Esta aposta reforçada no e-commerce poderá criar a necessidade de mais postos de trabalho na área, que será suprida pela realocação de colaboradores de outras áreas com atividade sazonal ou com baixas de atividade devido ao contexto que vivemos ou através da contratação de novos colaboradores. Sendo a Luís Simões uma empresa que aposta na transformação digital, consideramos que este desenvolvimento da área de e-commerce será uma grande oportunidade para o setor, porque exige uma rápida capacidade de resposta da parte dos operadores, e uma maior agilidade nas operações – o que acaba por aumentar a produtividade e eficiência. Não podemos, no entanto, deixar de pensar que também representa desafios que não podem ser ignorados. Por um lado, a rapidez não pode equivaler a uma perda de qualidade: o controlo de qualidade deve ser cada vez mais rigoroso e exigente, para garantir a satisfação do cliente final. Por outro lado, acarreta também desafios ao nível da sustentabilidade. O setor vai ter de evoluir nesse sentido e colocar os stocks mais próximos dos pontos de venda. Resumindo, o e-commerce veio para ficar e temos de evoluir e adaptar-nos para garantirmos a satisfação do cliente final: o consumidor”, conclui.

Pessoas continuarão a fazer a diferença

Segundo as empresas do setor, a tecnologia, que durante o confinamento foi um importante aliado em diversos setores de atividade, será cada vez mais indispensável, sobretudo para garantir a eficiência das operações. Mas a qualidade de serviço e as pessoas continuarão a ser o fator de diferenciação das organizações, acredita Pedro Azevedo, diretor de Operações da Transportes Paulo Duarte.

Também no caso da Transportes Paulo Duarte, o boom do e-commerce registado durante o estado de emergência obrigou a empresa a adaptar a sua frota e a realocar colaboradores para áreas para as quais habitualmente não trabalhavam.

“O e-commerce sofreu um aumento de procura de 40%. Aí houve um aumento de capacidade, que já tinha sido definido estrategicamente com os clientes. Contratámos pessoas e aumentámos as viaturas em serviço. Por outro lado, quando chegou a altura do confinamento tivemos de ajustar a frota. Por exemplo, o setor dos combustíveis foi aquele onde sentimos a maior diminuição do volume de serviço que estávamos a fazer. Não havia abastecimento de viaturas”, explica Pedro Azevedo, diretor de Operações da Transportes Paulo Duarte.

“A cadeia de abastecimento teve de ser muito ágil. A procura dos clientes finais aumentou e nós tivemos de ajustar os meios para os clientes que já tínhamos. Mas tivemos procura de outros clientes com quem até então não trabalhávamos e que passaram a querer fazer as suas entregas online, desde pequenos comerciantes de bairro a grandes empresas que quiseram diversificar o seu negócio. O online cresceu, as empresas perceberam que há massa crítica e decidiram investir”, acrescenta.

A tendência, diz ainda, “veio para ficar”. “As empresas desenvolveram em três meses aquilo que demoraria anos a desenvolver. Viram-se obrigadas a desenvolver um canal para o qual não estavam despertas. Mercearias de bairro e restaurantes, por exemplo, que só vendiam os seus produtos e serviços no seu local físico, hoje em dia, estão a canalizar as suas vendas para o online. A comodidade de receber as compras em casa, sejam alimentares ou não alimentares, é muito grande”, afirma ainda Pedro Azevedo.

Essa comodidade, refere também, obrigará as empresas da logística e dos transportes a investir em novas tecnologias que permitam melhorar a eficiência das entregas e a apostar no last mile, que deverá continuar a crescer.

“Além da parte tecnológica, as empresas investem cada vez mais na logística. Apesar de as empresas maiores terem uma estrutura muito mais densa e mais forte que lhes dá uma grande flexibilidade para montar uma operação no online muito rapidamente, as empresas mais pequenas demoram mais tempo. Hoje em dia podemos ter uma mercearia de bairro a fazer as suas entregas na casa das pessoas. Temos um potencial muito grande no last mile e no e-commerce. E infelizmente foi preciso vir uma pandemia para despertar as empresas para esse passo seguinte. Temos de pensar cada vez mais à frente e perceber qual é o ‘caminho’ dos transportes. A grande diferença está sempre no serviço e nas pessoas. Somos uma empresa de transportes onde a nossa percentagem de gestão de recursos humanos é muito grande. Toda a gente consegue camiões e carros, mas hoje em dia o que importa é diferenciar-nos nos serviços e na gestão das pessoas”, conta.

“A logística tem-se vindo a adaptar. A automatização e a robotização dos centros de distribuição vieram tornar as operações muito mais eficientes e é normal que a carga humana que tínhamos há 20 anos seja diferente da que temos hoje. Mas não nos podemos esquecer que mesmo uma Amazon, que tem milhares de robots nos seus armazéns, continua a ter pessoas. Vamos ter sempre pessoas. Vai ser um mix. Vamos deixar de fazer determinadas tarefas, como o picking, e ter uma panóplia de instrumentos que nos vão permitir trabalhar de uma forma completamente diferente e mais eficiente. As pessoas vão ficar muito mais direcionadas para o serviço e para o cliente. Mas importa dizer que os clientes são cada vez mais exigentes e as máquinas não conseguem acompanhar essa evolução tão bem como o ser humano. A cadeia de abastecimento terá de ser o mais flexível possível”, conclui Pedro Azevedo.

Disrupção marcará o setor nos próximos anos

A agilidade para acompanhar a evolução do setor também foi palavra de ordem na DB Schenker. Com algumas atividades da economia paradas, de um momento para o outro o product mix da empresa transformou-se.

Luís Marques, managing director da DB Schenker em Portugal, conta à LOGÍSTICA&TRANSPORTES HOJE que “neste momento as cadeias logísticas estão muito mais estabilizadas, mas em abril vivemos momentos completamente disruptivos, desde logo pelo facto de o serviço de transporte terrestre ter diminuído cerca de 30% a 40%. Por outro lado, o serviço de e-commerce, de pequenos volumes, disparou. Sentimos muito mais necessidade de transporte de pequenos volumes e isso obriga a viaturas distintas aquelas que são usadas para o transporte de paletes. Além disso, enquanto os stands fechavam, a Autoeuropa suspendia a produção durante umas semanas e todos os fornecedores da indústria automóvel fecharam, notámos uma grande quebra de transporte para a indústria automóvel. Houve uma dinâmica muito imediata e entre o final de março e o final de abril, mudámos completamente aquilo que era o nosso product mix. De repente deixou de haver mercadorias da indústria automóvel e aquilo que nos passava pelas mãos era muito mais indústria alimentar e grande distribuição. Isso obrigou-nos a alguns ajustes nos armazéns porque não é a mesma coisa abastecer uma cadeia de distribuição às 6 horas da manhã ou uma fábrica da indústria automóvel ao meio dia.”

Essa disrupção não implicou contratação de recursos humanos, mas obrigou a uma realocação de pessoas para outras áreas, à semelhança do que aconteceu com outras empresas do setor.

“Enquanto algumas fábricas fecharam, porque não estavam preparadas para o que estávamos a viver, também houve uma disrupção na procura. As pessoas não saíam de casa, não consumiam e quando consumiam compravam coisas básicas. Não tivemos necessidade de reforçar as equipas, mas também nunca tivemos ninguém em lay-off. Nunca reduzimos a nossa capacidade de trabalho. Fizemos, em alguns casos pontuais, ajustes de férias, mas nunca reduzimos o quadro de pessoal. O que fizemos foi realocar algumas pessoas para atividades que estavam a crescer, como o e-commerce”, afirma Luís Marques.

Estamos a falar de uma transformação muito grande num curto espaço de tempo. Muitos dos portugueses há três meses desconfiavam do online e não estavam habituados a comprar online. E de repente fomos obrigados a fazê-lo. Esse hábito não vai desaparecer e vai, inclusive, sair reforçado. As pessoas começaram a comprar online e veem que funciona, que não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, e vão continuar a fazê-lo. Isto vai ser disruptivo para o setor da logística e vai obrigar as empresas a olhar, cada vez mais, para mega hubs. Os hubs serão cada vez maiores e em menor número e os produtos sairão diretamente desses mega hubs para a casa do consumidor final. Por outro lado, também é um facto que vamos ter de adaptar armazéns, plataformas de distribuição, frequências de saídas, plataformas digitais, etc. Toda a cadeia de abastecimento tem de estar conectada”, acrescenta ainda o managing director da DB Schenker.

Mas à semelhança de Pedro Azevedo, da Transportes Paulo Duarte, também Luís Marques, da DB Schenker, acredita que as máquinas não conseguirão substituir as pessoas e que poderá ser possível criar novas funções dentro do setor à medida que a tecnologia for substituindo alguns recursos humanos.

“Acredito que a tecnologia, como aconteceu com a Revolução Industrial, sempre suprimirá postos de trabalho, mas também criará novos postos de trabalho. Ainda há pouco tempo o CEO mundial da DB Schenker dizia que nunca pensou na sua carreira que a maior parte dos trabalhadores que a empresa recruta a nível europeu tivessem como requisito ter uma licenciatura em Matemática ou numa área análoga. A tecnologia suprime postos de trabalho, sim, principalmente em trabalhos mais operacionais, mas a digitalização não se faz só de ‘computadores’. Há muitas pessoas a trabalhar na digitalização, desde logo na análise do Big Data. Os dados são cada vez mais e a sua análise é fundamental para obter ganhos. Neste momento, uma das áreas para as quais olhamos com mais interesse é precisamente a análise de dados. Os dados qua passam pelas mãos da DB Schenker têm valor, por exemplo, para conseguir prever fluxos logísticos. Há efetivamente diminuição de postos de trabalho com o desenvolvimento da digitalização e das novas tecnologias, mas há uma necessidade enorme de criação de outros. Vamos continuar a precisar de muita gente a trabalhar. O grande desafio neste momento é para as universidades que terão de descobrir que competências vão ser necessárias daqui a dez anos. E estamos a falar de dez anos, não estamos a falar de dez décadas. Dez anos estão já aí ao virar da esquina”, conclui.