Mobilidade

“Os utilizadores passaram a usar os transportes públicos por opção e não por falta dela”

“Os utilizadores passaram a usar os transportes públicos por opção e não por falta dela”

A mobilidade urbana tornou-se um dos fatores a ter em conta para quem gere uma grande urbe. O utente/consumidor, por sua vez, é cada vez mais exigente, sofisticado e pretende ter soluções rápidas e eficientes. Entrevistámos o presidente do Conselho de Administração da Cascais Próxima, Rui Rei, no âmbito da 2.ª edição do MOB Lab Congress, que decorrerá no próximo dia 16 de maio, na Fundação Dr. António Cupertino Mirando, no Porto, que nos dá uma visão do que é ser uma cidade inovadora na mobilidade.

Uma maior sofisticação e uma maior exigência dos utentes fez com que a gestão urbana, no que diz respeito à mobilidade, se tornasse um “dossier” de grande importância para uma cidade grande. Além de mover pessoas, as grandes urbes têm em mãos, igualmente, questões relacionadas com as entregas das mercadorias, disponibilização de serviços, cada vez mais, eco-friendly, adaptáveis às novas exigências e necessidades tecnológicos dos utilizadores, e, de certo modo, intuitivos e user friendly.

Na Área Metropolitana de Lisboa, o município de Cascais aparece como uma das cidades inovadoras nas questões da mobilidade, revelando Rui Rei, presidente do Conselho de Administração da Cascais Próxima e um dos oradores da 2.ª edição do MOB LAB, à LOGÍSTICA&TRANSPORTE HOJE que, brevemente, a cidade da Linha poderá disponibilizar os primeiros veículos autónomos.

O que é uma cidade inovadora em termos de mobilidade? Que soluções terá de apresentar, de modo a ir ao encontro do esperado e, principalmente, exigido, pelos munícipes?
Uma cidade inovadora é uma cidade onde quem nela vive, trabalha ou visita, não precisa de transporte pessoal para se movimentar à vontade. É uma cidade que se preocupa com as questões ambientais e que, por isso, para além de promover o uso transporte coletivo, promove a mobilidade suave e a partilha de veículos. No fundo, uma cidade inovadora é uma cidade que olha para o concelho de Cascais como um exemplo a seguir.

O município de Cascais é um dos exemplos de políticas inovadoras em termos de mobilidade. Quais foram e como foram implementadas no município e como procuram antecipar as necessidades e exigências dos munícipes?
Há uns anos atrás, Cascais tinha um vasto leque de problemas aos quais a autarquia não conseguia dar resposta. Não havia um sistema de autocarros que cobrisse todo o concelho, os horários não eram cumpridos e os preços eram muito pesados para a qualidade do serviço.

Com a entrada em vigor do Regime Público de Transportes de Passageiros, a Câmara de Cascais assumiu-se como Autoridade de Transportes. Com essa distinção pode, finalmente, criar o seu operador interno de transportes – sendo o primeiro município do país a fazê-lo – e desta forma construir o seu ecossistema de mobilidade, o MobiCascais.

O MobiCascais, que é um produto da Cascais Próxima, veio responder aos problemas que os munícipes tinham. Criámos novas rotas de autocarro, chegando a locais onde o transporte público era uma miragem, criámos pacotes de mobilidade com preços justos, onde os jovens com menos de 14 anos não pagam e os seniores com mais de 65 têm desconto, alargamos o nosso sistema de bikesharing por todo o concelho e estamos a criar novas formas de mobilidade, como a implementação de um sistema ordeiro de trotinetas elétricas e, muito em breve, o veículo autónomo.

Quais são, atualmente, as principais exigências, preocupações e necessidades dos munícipes em termos de mobilidade urbana?
Nas grandes áreas metropolitanas, o perfil do utilizador dos transportes públicos tem mudado bastante nos últimos anos. Atualmente, ao contrário do que sucedia, os utilizadores passaram a usar os transportes públicos por opção e não por falta dela. Há, por isso, uma maior sofisticação e uma maior exigência dos utentes. Este novo perfil, para além de querer, tal como sempre aconteceu, ter transportes em boas condições e a cumprir horários, quer ter à sua disposição um conjunto de opções de mobilidade. Quer puder escolher entre o metro, a bicicleta, o comboio e o autocarro. Quer ter internet wi-fi nos transportes coletivos, quer ter, pelo menos, um sistema de last mile que o ajude a fazer pequenos trajetos e quer ter um carro disponível à distância de um clique.

Estas novas exigências trouxeram para o mercado um conjunto de novas empresas com serviços que até há bem pouco tempo eram utópicos.

No entanto, com este repentino “boom”, o munícipe exige que todos os serviços estejam organizados e, se possível, integrados numa só plataforma digital. Neste aspeto, mais uma vez, Cascais, através do MobiCascais, volta a ser um bom exemplo.

Como é que se conjuga a exigência/necessidade da mobilidade pessoal e de passageiros com a exigência/necessidade da mobilidade profissional e de mercadorias?
A vida nas cidades é, como todos sabem, bastante movimentada e preenchida. O tempo passou, por isso, a ter um valor que até há uns anos não tinha. Essa valorização veio exigir da mobilidade uma outra eficácia e alterou, também, a forma de comércio.

Se nos anos 90 a moda era criar grandes superfícies em zonas periféricas, hoje a tendência, por culpa das pessoas estarem a abandonar o automóvel, é inversa. Há uma procura, cada vez maior, pelo comércio de proximidade e pelas compras online. Com isto, as cidades passaram a ter um novo problema, a circulação de mercadorias em zonas centrais.

Para evitar que as cargas e descargas tornem a circulação caótica, as cidades tiveram de “inventar” pontos para essas ações. Foi necessário criar uma nova política de estacionamento, limitando-o a curtos períodos de tempo. Desta forma, com o auxílio dos parquímetros, para além de se beneficiar os moradores, que mais facilmente conseguem estacionar perto de casa, ganhou-se mais espaço para que as mercadorias possam ser descarregadas nos espaços comerciais ou em casa de quem as encomenda.

Ou seja, controlar o estacionamento passou a ter a mesma importância que o controlo do tráfego. Por essa razão, Cascais está a implementar uma solução de Smart Parking que, muito em breve, permitirá à autarquia monitorizar mais de 10 mil lugares de estacionamento no concelho.